Mídia

O que está errado com a grande mídia

Ao favorecer o status quo aceitando uma falsa equivalência, a grande mídia abraça preconceitos sutis, persistentes

12/12/2021 10:49

Altos editores e repórteres querem ser aceitos no meio dos poderosos porque tal aceitação é psicologicamente sedutora

Créditos da foto: Altos editores e repórteres querem ser aceitos no meio dos poderosos porque tal aceitação é psicologicamente sedutora

 
Muitas vezes sou perguntado como me informo. Claro, evito as fontes tresloucadas da direita jorrando informações falsas, desinformação e mentiras venenosas.

Mas acabei também sendo cauteloso em relação à grande mídia – não porque ela divulga “fake news”, mas devido a três preconceitos mais sutis.

Primeiro, ela favorece o status quo. Os jornalistas da grande mídia querem parecer sérios falando sobre as falhas das políticas públicas dos progressistas pelo custo de suas propostas, mas nunca perguntam aos classificados como “moderados” como planejam lidar com os custos de não fazer nada ou fazer muito pouco sobre os mesmos problemas.

Um New Deal Verde pode ser custoso, mas não fazer nada a respeito da crise climática quase certamente custará muito mais. Medicare for All (Assistência Médica para Todos) vai custar caro, mas o preço de não fazer nada em relação ao cruel e disfuncional sistema de saúde estadunidense em breve chegará à estratosfera.

Segundo, ela deixa de comentar escolhas públicas fundamentais. Em breve o Senado irá aprovar um orçamento militar de US$ 778 bilhões para o próximo ano fiscal. São bilhões a mais do que o Pentágono pediu. São quatro vezes o tamanho do Reconstruir Melhor do Biden, que custará cerca de US$ 175 bilhões anuais. Mas onde estão as notícias sobre os efeitos desses gastos sobre a dívida nacional, ou sobre a inflação, ou mesmo se eles são necessários?

Terceiro, ela aceita uma falsa equivalência, afirmando que certos congressistas republicanos e democratas surgem como criadores de caso dentro de seus partidos ou que extremistas “de ambos os lados” estão “radicalizando uns aos outros”.

Essas notícias igualam congressistas republicanos que promovem ativamente a grande mentira de Donald Trump que a eleição de 2020 foi roubada a legisladores democratas que lutam para defender o direito ao voto. Não há equivalência. A grande mentira de Trump é um desafio direto à democracia estadunidense.

Na luta em curso sobre se devemos preservar o “filibuster” (uma chicana parlamentar) do Senado, a grande mídia dá peso igual aos clamores de radicalismo dos dois lados. Mas o que é mais radical, abolir a chicana parlamentar para salvar a democracia dos EUA ou destruir a democracia estadunidense para salvar o filibuster?

Os antigos rótulos “esquerda” e “direita” estão ficando antiquados. Hoje, se trata de democracia versus autoritarismo. Igualá-los é enganador e perigoso.

Por que a grande mídia não vê isso? Não apenas por sua dependência do dinheiro corporativo. Penso que a fonte do preconceito é mais sutil.

Altos editores e repórteres, normalmente baseados em Nova York e Washington, querem ser aceitos no meio dos poderosos – não apenas pelas fontes de notícias, mas também porque tal aceitação é psicologicamente sedutora. Ela confere um grau de sucesso. Mas uma vez aceitos, eles não podem deixar de ver o mundo pelos olhos dos poderosos.

Eu sigo a grande mídia, mas não me limito a ela. E não me apoio nela para educar o público sobre ideias ousadas e progressistas que fariam os EUA e o mundo mais justos e mais fortes.

Eu leio The Guardian todos os dias.

*Publicado originalmente em 'The Guardian' | Tradução de Carlos Alberto Pavam



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