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Poder sem limites para censurar

Chile, as várias tentativas de incluir a HispanTV nas distribuidoras de TV a cabo não renderam frutos. Após a primeira ligação, não voltam mais a conversar

05/12/2017 17:55

 

 
As contas globais de HispanTV no Google e no YouTube foram canceladas inesperadamente, na quinta-feira 30 de novembro. A do YouTube foi reaberta horas depois, mas sem arquivos nem inscritos. Tampouco era a mesma URL. Uma conta nova, do zero.

Se você buscar no Google os trabalhos da HispanTV não encontrará praticamente nada: milhares de reportagens, documentários, entrevistas, debates, resenhas, comentários, críticas culturais realizadas em todo o mundo foram apagadas com um só clique.

Mas se você procurar em www.hispantv.com os encontrará de novo. Isso não poderão apagar.

Este ato é a versão Século XXI da noite de 10 de maio de 1933, quando os estudantes nazis queimaram 25 mil livros em frente à Ópera de Berlim. Ou a queima de livros de 23 de setembro de 1973, em Santiago do Chile, após as batidas policiais em várias torres de apartamentos do centro da cidade.

Quanto contamos isso às pessoas, muitos perguntaram – para nossa relativa surpresa – por quê?

Esperam talvez um motivo técnico, uma violação de copyright ou algo assim, desejando talvez saber de algo que não seja a mais crua e brutal queima digital de conteúdos ao estilo de Hitler e Pinochet. Algo que permita ter confiança nas ferramentas que usamos todos os dias e que pertencem aos que levantam as bandeiras do pluralismo e da liberdade de expressão.

Não é nada novo. No Chile, as várias tentativas de incluir a HispanTV nas distribuidoras de TV a cabo não renderam frutos. Após a primeira ligação, não voltam mais a conversar, sequer atendem o telefone quando ligamos, e seria inútil explicar os motivos desse boicote.

O governo espanhol de Mariano Rajoy também já cancelou uma vez o acesso satelital da HispanTV. E o britânico fez o mesmo com a PressTV, a versão em inglês do nosso canal.

Nova ordem informativa
Nos distantes Anos 70 do século passado, a Unesco lançou um projeto para uma Nova Ordem da Informação e da Comunicação (NOIC), que gerou escândalo nos países dominantes do Norte: se denunciava ali o descarado controle da informação e da comunicação exercido pelas grandes agências informativas. A Unesco tentou estimular a criação de agências informativas nacionais nos países em desenvolvimento, e uma iniciativa da Iugoslávia fez com que se formasse o pool de agências dos países não alinhados.

Por aqueles anos prosperaram a agência de notícias IPS, fundada em Roma pelo ítalo-argentino Roberto Sávio e pelo argentino Pablo Piacentini, jornalistas que propunham estabelecer um laço comunicacional entre os países do Sul, participando ativamente no pool não alinhado.

A iniciativa partia do fato de que os países do Sul em desenvolvimento não sabemos quase nada de nós mesmos, devido ao controle informativo destes conglomerados transnacionais. Quem tiver dúvidas pode perguntar por que todos sabemos os detalhes da vida do príncipe da Inglaterra e seu casamento com uma atriz estadunidense, mas quase nada sobre a condenação perpétua a um grupo de genocidas na Argentina.

De qualquer forma, o NOIC acabou sendo denunciado, considerado um atentado à liberdade de expressão que pregava a imposição de aparatos estatais sobre o jornalismo objetivo e profissional, o que levou à redução de verbas ao fundo da Unesco, e finalmente ao engavetamento do projeto.

Muitos anos depois começaram a aparecer meios de maior envergadura, de caráter internacional, como HispanTV, PressTV, TeleSUR, RT, Al-Mayadeen, Al-Jazeera, que pela primeira vez desafiam a ordem informativa em seus próprios termos: tecnologia, rigorosidade, estética, presença mundial. E estes canais começam a ganhar credibilidade e seguidores em todo o planeta. Logo, passam a ser um perigo para a hegemonia informativa.

Uma Nova Ordem Informativa começa por fim e a se estruturar, gerando conteúdos com outro contexto, desconstruindo os paradigmas até agora hegemônicos do bem e do mal, da liberdade e da opressão, da democracia e da ditadura, projetando as vozes dos povos, das pessoas que trabalham, dos que sofrem discriminação, perseguição, pobreza ou dominação cultural.

Para que finalmente saibamos outra versão da situação do povo palestino, dos rohingyas de Myanmar, da guerra na Síria, no Iraque e no Iêmen, dos acordos para tirar o dólar dos mercados de matérias primas, dos avanços tecnológicos e culturais do Irã ou da Rússia, da luta no Chile contra as empresas de previdência privada e por uma educação pública, das greves na Argentina, das agressões contra a Venezuela, do desenvolvimento econômico da Bolívia, dos protestos contra o governo do Brasil, da discriminação racial nos Estados Unidos, dos abusos aos refugiados na Europa, entre muitos outros temas.

Essa é a razão do atentado de Google e YouTube: eliminar a memória, amedrontar-nos, por uma barreira, manter o assim chamado mainstream (os meios de comunicação hegemônicos) como a única fonte profissional, séria e acessível, os donos da informação.

Não conseguiram antes, menos conseguirão agora. Se trata de nos independizar também, como entendeu e praticou a Rússia, de sermos livres dessas plataformas que não são mais que instrumentos da mesma ordem mundial, e que chegou o momento no qual elas não podem mais ocultar a sua essência.

Se nos estão censurando, é porque estamos fazendo um bom trabalho. Seguiremos assim.

* Jornalista chileno-venezuelano, correspondente da HispanTV no Chile.



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