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São Paulo, cidade-mercadoria à venda com muita propaganda

No "Bom Dia SP" do último dia 3, nem a Globo aguentou o discurso marqueteiro do prefeito de São Paulo e cortou sua fala em pleno ar. Artigo de Lalo Leal Fº

13/07/2017 18:37

Reprodução

Nem a Globo aguentou o discurso marqueteiro do prefeito de São Paulo e cortou sua fala em pleno ar.
 
No “Bom Dia SP” do último dia 3, o apresentador Rodrigo Bocardi comentou que muitos programas da prefeitura mais parecem ações de marketing e fez a seguinte pergunta a João Dória Junior: "Nos últimos seis meses foram criados Cidade Linda, Bairro Lindo, Calçada Nova, Corredor Verde... são programas com nomes anunciados todos finais de semana e tal. E o resultado que a gente tem visto é que não são nada mais do que aquilo que já era feito. Será que a gente não cai na história do marketing que é tanto falado? A gente cria marcas, nomes e no fim o resultado que temos visto é algo que já vinha sendo feito antes. Talvez até menos agora".
 
Tratava-se de uma constatação difícil de ser rebatida. Dória tentou jogar a culpa na administração anterior apesar de dizer que não faz gestão com retrovisor e começou a ensaiar auto-elogios quando entrou no ar a vinheta de encerramento do programa pondo fim a mais uma tentativa propagandística do prefeito.
 
Cabe lembrar que a inauguração do governo Dória na cidade de São Paulo foi marcada por uma cena patética: o prefeito e seus secretários uniformizados como garis posando para fotografias.
 
Nada melhor como símbolo do que viria pela frente: a combinação perfeita entre propaganda e venda confundindo gestão pública com armazém de secos e molhados.
 
É a isso que se pretende resumir a administração da cidade de São Paulo: um imenso balcão de negócios embalado por um marketing agressivo.  
 
Grande parte do patrimônio da cidade está à venda e para realizá-la são necessários instrumentos eficientes de propaganda.
 
Esta, por sua vez, além de anunciar para o mercado as qualidades dos produtos em oferta, exalta a capacidade gerencial do prefeito em busca de vôos políticos mais altos.
 
É desalentador observar que bens públicos construídos com recursos acumulados através de gerações estejam sendo transformados em simples mercadorias.
 
E o processo de vendas em espetáculos, fazendo lembrar as teses apresentadas por Guy Debord no seu clássico livro “A sociedade do espetáculo”.
 
Dizia ele que “O espetáculo é o momento em que a mercadoria ocupou totalmente a vida social. Não apenas a relação com a mercadoria é visível, mas não se consegue ver nada além dela: o mundo que se vê é o seu mundo. A produção econômica moderna espalha, extensa e intensivamente, sua ditadura ”. 
 
 
 
Debord referia-se à produção na esfera econômica sem poder imaginar que ela abarcaria também os bens públicos, como no caso atual de São Paulo.
 
E mais.
 
A mercadoria a ser posta à venda pelo prefeito é apresentada por um discurso que vai além do seu consumo.
 
Não basta vender, é preciso justificar essa venda com mensagens de eficiência e modernidade.
 
Para isso ele utiliza todos os recursos das redes sociais, especialmente aqueles já testados e aprovados pelas chamadas “celebridades” da internet.
 
O prefeito segue o modelo à risca relatando em vídeo cada gesto do seu dia-a-dia.
 
Completa-se dessa forma a inserção do mercado de bens públicos na lógica da sociedade do espetáculo.
 
Não cabe nesse quadro uma discussão racional sobre as conseqüências reais para a cidade e para os cidadãos das vendas do patrimônio público.
 
É impossível acreditar que os novos administradores privados do Pacaembu, Anhembi, Autódromo de Interlagos, dos parques, praças, sacolões, mercados e planetários, entre outros bens à venda, colocarão em risco suas margens de lucro caso seja necessário manter e aperfeiçoar a qualidade do serviço público hoje prestado nesses equipamentos municipais.
 
São questões que não cabem no mundo dos espetáculos.
 
E quando abre-se uma breve exceção, como no caso do entrevistador da Globo, argüindo o prefeito sobre os programas apresentados pela prefeitura, de nítido apelo marqueteiro, as respostas são tão vazias e simplistas que só resta mesmo rodar a vinheta do programa e encerrar a conversa.



Créditos da foto: Reprodução