Pelo Mundo

'Se Adam Smith pudesse ver isso, estaria horrorizado'

Raúl Zaffaroni, juiz da Corte Interamericana de Direitos Humanos, fez sua análise da crise do dólar, falou das infrutíferas medidas para conter a corrida e a decisão de recorrer ao FMI em busca de Auxílio

13/05/2018 15:01

 

Do Página/12
 
Duros foram os termos usados pelo magistrado Raúl Zaffaroni para se referir hoje sobre o presente da Argentina. O jurista opinou que a crise do dólar se deu “à velocidade da luz” e que pensava que tardaria mais tempo até que a frente econômica chegasse à esta situação. “Não que tenha uma bola de cristal, mas via um montante de dívida e percebia que, em algum momento não haveria mais crédito. Bom seria se estivesse equivocado”.

Para o ex-ministro da Corte Suprema, isso se deu por “incapacidade” e recordou que as crises de dívida anteriores foram processos que “demoraram mais tempo, em 2001 tínhamos uma dívida semelhante porém acumulada em 25 anos, isso se acumulou em dois anos”.

Nesse sentido, criticou a administração da coalizão governista Cambiemos (“Mudemos”). “Não são políticos, não estão preocupados com o custo político (dos seus atos)”, ao comentar um possível veto presidencial ao projeto de retroagir os preços das tarifas de serviços básicos (água, luz, gás, etc) e os definiu como “representantes de distintos interesses, cada um puxando para o seu lado, buscando tirar o maior proveito possível”. Por sua vez, considerou que não se trata de um governo neoliberal “por mais que tenham esse discurso”. Irônico, expressou que “se Adam Smith pudesse ver isso, estaria horrorizado”, e afirmou que “(as políticas econômicas do governo) expressam um conjunto de interesses incompatíveis que até certo ponto se aliaram conjunturalmente”. Recordou que essa aliança foi “para acabar com a Justiça e com um governo, e tomar o poder”.
 
Diante do panorama atual, estimou que o governo “paga pela irresponsabilidade da sua contribuição aos setores como os bancos e os exportadores” e que, nesse contexto, “o caos vem em caminho, com críticas de ortodoxos e heterodoxos”. Também planteou suas dúvidas pelo acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI): “não sei se darão os 30 bilhões (que o governo pede), é um valor que se dá a países em quebra, com maiores condicionamentos”. Opinou que “o capital especulativo pretende comprar dólares e fugir do país”.

Por outra parte, se referiu à intervenção do governo no dólar futuro, pelo qual se acionou judicialmente contra Cristina Fernández de Kirchner, Axel Kicillof e Alejandro Vanoli. “É um mercado com operações comuns, não há nada extraordinário”. Recordou que “o governo atual liberou o dólar e não sei se isso não constituiu um delito para aproveitar informação privilegiada”.

A respeito da intromissão do Poder Executivo na Justiça, o hoje juiz da Corte Interamericana considerou que é “inédito” e que “nunca havia visto perseguição de juízes pelo conteúdo de suas sentenças, nem na ditadura”, em alusão aos desembargadores Jorge Ballestero e Eduardo Farah, que deram liberdade a Cristóbal López e Fabián de Souza e foram alvos de represálias, até deixarem seus cargos.

“Se instalou a ideia de que a corrupção sempre vem dos governos populares, e por isso os empresários seriam mais confiáveis, porque o capital financeiro seria moralmente virgem”, manifestou Zaffaroni sobre um fenómeno “que se vê no mundo inteiro”, e que tem na coalizão Cambiemos “a versão nacional”, com uma característica: “a originalidade daqui é o caos que geraram”. Zaffaroni voltou a insistir com sua ideia de que “o modelo não fecha sem repressão”, embora remarcou que “pensava que isso seria mais lento” e que pelo momento “não há uma reação que possa gerar violência”. Se bem opinou que “há temor de que a rua reaja” e que esse temor está “justificado” pela figura da ministra de Segurança Patricia Bullrich. “Preferia alguém coerente comandando as forças policiais, suas declarações não são nada tranquilizantes”, disse, com respeito das ameaças de aumentar a repressão para conter uma possível insatisfação generalizada da população.

Também considerou que a Argentina vive “um Estado de direito deteriorado”, no qual há “presos políticos, censura, meios e jornalistas perseguidos e intervenção no principal partido opositor”.

Nessa linha, opinou que “os jovens de hoje não sabem” da repressão como os de outras épocas, e que é preciso evitar “provocações” e “não se arriscar inutilmente”. Para concluir, falou sobre a violência vista nas anteriores crises econômicas: “Em 1982, para dissimular o colapso da economia, inventaram a Guerra das Malvinas, em 2001 (crise do corralito) tivemos 30 mortos pela repressão. Evitemos isso. Uma crise pode ser contornada, a morte não”.



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