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Pelo Mundo

16 tópicos: razões e consequências da mudança da Embaixada estadunidense a Jerusalém

   

11/12/2017 10:32

 

 
Depois de ordenar a maior redução de terras públicas protegidas da história dos Estados Unidos, fazer a maior desoneração em 30 anos, e conseguir que o Tribunal Supremo aceitasse sua infame pedido de proibir a entrada de pessoas procedentes de oito países, em sua maioria muçulmanos (entre os que não está a Arábia Saudita, acusada pelo próprio Trump e pelo Congresso de estar por trás do 11 de setembro de 2001), o presidente Donald Trump desfaz a política tradicional do país com respeito à Palestina: anuncia o reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel e ordena a mudança da Embaixada do país a esta cidade. Com esta atitude, e num ato suicida, Trump despoja os palestinos de todos os seus direitos para dar isso tudo a Israel.

Durante 70 anos, os Estados Unidos permitiram a Israel roubar as terras palestinas – inclusive quando pretendia ocultá-lo, através da Resolução 2334 – e fazer uma limpeza étnica. Esta decisão de Trump representa uma nova fase da agressão ao povo palestino. Nem Bill Clinton e George W. Bush, que também prometeram mudar a Embaixada a Jerusalém, se atreveram a fazê-lo. Preferiram somente deixar que Israel, através de suas leis abusivas e políticas ilegais segundo os tratados internacionais, usasse a força para se apoderar da Cidade Santa. Aliás, a ‘Lei da Grande Jerusalém’ inclui a expulsão dos palestinos “residentes” de sua cidade natal, com artimanhas como incentivos para aumentar a população judia da urbe, ampliar seus limites municipais para incluir os assentamentos ilegais na Cisjordânia, e limitar ainda mais os direitos dos palestinos, tudo isso para distorcer a identidade de Jerusalém.

Então, o que ganharia Donald Trump com uma medida que isola os Estados Unidos, prejudica seus interesses no Oriente Médio e ameaça sua segurança?

O anúncio funcionou como um balão de oxigênio para Netanyahu, que teve que suportar protestos de dezenas de milhares de israelenses no dia 2 de dezembro pedindo sua renúncia devido a casos de corrupção.

Uma urbe santíssima

Jerusalém, cujo nome árabe é Al-Quds (“o sagrado”), foi fundada pelo reino Ugarit, com o nome de Ur-shalim (Cidade Pacata). Para os judeus, é o lugar da construção do primeiro templo de sua fé. Para os cristãos, a cidade onde Jesus realizou sua missão. Para os muçulmanos, é onde Maomé ascendeu aos céus. Conquistada por quase todos os impérios velhos e atuais, Jerusalém teve sua metade ocidental ocupada por Israel durante a guerra árabe-israelense de 1948, e sua metade oriental, que estava sob controle jordaniano, também ficou nas mãos israelenses na guerra de 1967. Foi em 1980 que Israel aprovou a “Lei de Jerusalém” para anexar legalmente a parte oriental, que desde então está ilegalmente sob sua jurisdição.

Os possíveis objetivos de Trump

1. Conseguir o apoio do Congresso (que não por acaso é chamado de “outro território ocupado por Israel”) agora que o Caso Russiagate ameaça afetá-lo diretamente: se fala da possibilidade de que o ex-assessor de segurança nacional, o general Michael Flynn, testemunhe contra o presidente.

2. Mostrar o poder de seu genro judeu Jared Kushner, encurralado pela justiça estadunidense pela ordem dada a Flynn para conseguir o apoio russo a favor de anular a votação no Conselho de Segurança que condenaria os assentamentos israelenses ilegais na Cisjordânia. Também é uma mostra do aumento da influência do vice-presidente Mike Pence (um sionista cristão) na Casa Branca. Pence é o porta-voz dos partidários de mudança da embaixada a Jerusalém.

3. Contentar o lobby pró israelense nos Estados Unidos, que criticava Trump por seu tratamento pouco entusiasta para com Israel, e por não cumprir sua promessa eleitoral sobre o tema. O magnata dos cassinos de Las Vegas, Sheldon Adelson, vinculado com o partido israelense Likud, doou 35 milhões de dólares à campanha eleitoral de Trump, e lhe cobrava, sempre que possível, com a pergunta quando será a mudança de embaixada? A guinada na política exterior de Trump foi tamanha que até sua filha se converteu ao judaísmo. O Comitê de Relações Públicas Americano Israelenses (AIPAC) não só conseguiu colocar o Irã como “o principal inimigo dos Estados Unidos, acima do terrorismo”, como também mudou a postura de “neutralidade” no conflito palestino-israelense. Sem contar o retiro da cooperação com a Unesco por criticar a anexação de Jerusalém Oriental a Israel.

4. Desencadear mais conflitos étnico-religiosos na região, em decorrência do Projeto do Novo Oriente Médio, impossibilitando a criação de um Estado palestino, além de ampliar o espaço para o negócio das armas com o reforça à militarização da zona.

5. Forçar a Autoridade Palestina a aceitar a chamada “Iniciativa de Paz” de Jared Kushner, que propõe esquecer a ideia de um Estado palestino e do regresso dos refugiados, conseguir uma autonomia com a soberania de Israel sobre as fronteiras e o espaço aéreo da Cisjordânia, em troca de receber um generoso pacote de ajuda financeira destinada à burguesia palestina.

6. Com sua popularidade no chão, Trump tenta recuperar o apoio de milhões de eleitores de direita, sobretudo os evangélicos, que foram decisivos para sua vitória. Durante sua visita a Israel, dezenas de cartazes instalados pelo itinerário recorrido pelo presidente lembrava a importância desses votos e que a promessa sobre o status da cidade em disputa era algo que estava esperando.

As possíveis consequências da temerária decisão

7. A decisão significa que os Estados Unidos já não considera a presencia israelense em Jerusalém Oriental uma ocupação, nem vê como ilegais os assentamentos judeus construídos depois da Guerra de 1967, que infringem o Convênio de Genebra – que estabelece que uma potência ocupante não tem soberania no território que ocupa. Assim, os Estados Unidos rompe com seu compromisso formal de cumprir o determinado pelo direito internacional.

8. Também provoca uma cisão na Casa Branca: os secretários de Estado (Rex Tillerson, cuja possível renúncia tem sido tema dos rumores dos últimos dias) e de Defesa (Jim Mattis) se opuseram à medida do presidente.

9. Acaba com décadas de consenso internacional sobre o estado da cidade. Até a União Europeia, principal aliado de Washington, deixou Trump sozinho nesta perigosa aventura.

10. Afeta a Jordânia e a Arábia Saudita, e não por estarem preocupados pelo destino dos palestinos desamparados, mas sim porque atuam como guardiães dos templos muçulmanos da Cidade Velha.

11. Prejudica os interesses e o poder do Vaticano, por isso a oposição do Papa Francisco.

12. Divide a comunidade judia estadunidense. Uns, porque acreditam que não era o momento, já que o resto del mundo se opõe a este assalto de Israel sobre toda a cidade sagrada, nem representa uma prioridade para os judeus como um todo. Outros, como o grupo J Street, defendem o direito palestino a ter seu estado, o qual, agora, perde a que seria sua capital.

13. Estimula uma maior agressividade por parte de Israel em expulsar os palestinos.

14. Provocará a intifada, por parte de grupos que não já não tem nada a perder e que verão sequestradas sua esperança num futuro diferente. Situação que, ademais, propiciará o protagonismo de organizações como o Hamas.

15. Põe em perigo os interesses dos EEUU em todo o Oriente Médio, e não por causa da Al Qaeda ou do Estado Islâmico! Jerusalém não é só uma questão palestina, mas também islâmica.

16. Poderá afetar a própria segurança de Israel, preocupação revelada também pelo comentarista militar israelense Roni Daniel.

Esta façanha de Trump está condenada ao fracasso. A questão é o número de vítimas que deixará pelo caminho.

* Nazanín Armanian é uma cientista política iraniana.



Créditos da foto:  

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