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18-O: o que ganhamos nestes dois anos

 

21/10/2021 12:10

(Reprodução/Twitter)

Créditos da foto: (Reprodução/Twitter)

 
Chegamos ao segundo aniversário de 18 de outubro de 2019, data que marca o início da revolta popular, com extrema cautela, um pouco retraídos, e com a mandíbula tensa. São dois anos demasiadamente longos e sombrios, pesados, submergidos em um processo que não encontra sua saída. Têm razão os que têm qualificado este aniversário como uma data a se comemorar, como as grandes datas que marcam a história deste sofrido país. Não há muito que comemorar além da irrupção enfurecida de um povo cansado de ser humilhado e pisoteado pelas classes que detêm o poder.

É um momento triste e será necessário comemorar e honrar a dezenas de mortos assassinados pelas forças do Estado, a milhares de feridos, lesionados e cruelmente cegados, como Gustavo Gatica y Fabiola Campillai, a centenas de presos e pesas políticos, muitos destes ainda encerrados por um estado cristalizado e vingativo. Não há o que comemorar quando um governante implacável continua no poder abrigado pela classe política, quando todos aqueles que mataram e violaram os direitos humanos dos manifestantes não só seguem em liberdade como continuam em seus postos de repressão e tortura.

A revolta popular, cujo espírito está plenamente presente, atingiu um regime que há dois anos iniciou sua queda final. O estampido daquela semana de outubro foi o efeito de todas as políticas aplicadas de forma onipresente pelas corporações e pelo capital financeiro desde o alvorecer desse processo espúrio chamado de "transição para a democracia". Mas hoje bem sabemos que todos estes anos foram a continuidade natural de um caminho traçado e aplicado pelas oligarquias durante os anos mais brutais da ditadura. Um regime econômico e político, um traje feito sob medida para os grandes proprietários, que carregou a marca de uma das constituições provavelmente mais enganosas e injustas do mundo.

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Sabemos também que estamos mais conscientes da nossa identidade, da infame natureza do regime que nos aperta e do futuro que queremos nos dar. Isso nos deu a revolta, assim como nos tornou uma fortaleza maior como povo. Dois anos depois daquele outubro perdemos nosso medo, que talvez seja a maior de nossas conquistas. Um caráter que também é de integridade e terá de resistir aos contra-ataques preparados pelas elites, hoje em pleno desenvolvimento.

A deterioração da ordem neoliberal, da democracia acordada há mais de trinta anos, levou ao seu colapso. Nestes dois anos, as provas da corrupção total do regime emanaram de todos os poderes do Estado. Nessa lama o governo é apenas mais uma peça que flutua em um mar de imoralidades. É um transe que nestes anos detectamos e deciframos. Uma síndrome mórbida que data daquele pacto que a Concertación fez com a direita e todos os representantes da ditadura cívico-militar. O dano ao país não foi feito apenas pela oligarquia proprietária, mas sim desde 1990, com toda a classe política, com a Concertación no pódio, em um período que fará parte da maior vergonha de nossa história.

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Nestes dois anos, em que passamos boa parte do nosso tempo trancados e com medo do vírus, a consciência do povo se expressou nas poucas manifestações possíveis. Fizemo-lo repudiando massivamente a constituição de Pinochet e Lagos e nas eleições constituintes e municipais com um golpe certeiro à direita, tendência que provavelmente se repetirá nas eleições presidenciais e parlamentares de novembro.

E assim estamos: no meio de um processo social e político de grande envergadura. Certamente, em uma crise terminal e aguda da ordem neoliberal vigente desde a ditadura e provavelmente no início de um novo regime cuja instalação é cheia de incertezas.

Somos mais conscientes e estamos de pé. E sabemos o que queremos. Neste dia 18 de outubro voltamos às ruas para nos ver, nos abraçar e nos encher de energia para continuar uma batalha que está apenas começando.

*Tradução de Marcos Diniz



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