Pelo Mundo

A idiocracia dos EUA: o controle corporativo sobre funções públicas

Nosso sistema político inteiro é desenhado para deixar o dinheiro corporativo falar, por meio de contribuições a campanhas e lobby corporativo

26/07/2021 12:12

O senador Joe Manchin (DW.V.) questiona membros da administração Biden durante uma audiência em 20 de abril de 2021 no prédio de escritórios do Senado Dirksen em Washington, DC (Chip Somodevilla/Getty Images)

Créditos da foto: O senador Joe Manchin (DW.V.) questiona membros da administração Biden durante uma audiência em 20 de abril de 2021 no prédio de escritórios do Senado Dirksen em Washington, DC (Chip Somodevilla/Getty Images)

 
O hilário filme de 2006 “Idiocracia” oferece uma descrição vívida da política estadunidense. O filme é classificado como comédia de ficção científica, mas está mais para um documentário. Descreve quase perfeitamente a crise de sobrevivência estadunidense hoje.

Em “Idiocracia”, que se passa 500 anos no futuro, os EUA estão sofrendo com a fome. Cada função pública foi entregue para algum interesse corporativo egoísta. Uma empresa de bebidas de fruta controla a irrigação das plantações, e elas estão sendo envenenadas pela bebida de fruta. Enquanto isso, o povo é mantido em um estado de ignorância abjeta e distração por causa de drogas, corridas de demolição e libertinagem. A nação é salva quando um José qualquer, milagrosamente ressuscitado de um passado distante, reintroduz a água potável às plantações, e, com isso, salva a nação. Ele é louvado como gênio por causa dessa simples ideia.

O que nos leva à idiocracia dos EUA em 2021. Nossos cargos públicos mais importantes são entregues a patrocinadores corporativos. Nosso sistema político inteiro é desenhado para deixar o dinheiro corporativo falar, por meio de contribuições a campanhas e lobby corporativo.

Ao invés da fome causada pela bebida de fruta, os desastres de hoje são devidos à mudança climática causada pelo ser humano, principalmente através da queima de combustíveis fósseis (carvão, petróleo e gás natural).

Centenas de pessoas já morreram nesse verão por causa de eventos climáticos severos conectados à mudança climática. As ondas de calor nos países ocidentais e em partes do Canadá foram implacáveis, e fatais. A temporada de furacões chegou com um mês de antecedência no Caribe. Enchentes extremas na Europa ocidental mataram ao menos 185 pessoas.

Mesmo enquanto esses desastres vão acontecendo, o sistema político estadunidense continua a defender os combustíveis fósseis. E na rodada atual, são os dois senadores da Virgínia Ocidental, a Republicana Shelley Moore Capito e o Democrata Joe Manchin, que são os porta-vozes da indústria de combustível fóssil. Cada um recebeu mais de dois milhões de dólares durantes suas carreiras em forma de contribuições de campanha dos setores de recursos naturais e energéticos. E cada um deles se posiciona lado a lado com a indústria de combustível fóssil.

No início do mês, um lobista da ExxonMobil chamou Manchin de “chefão” e disse que tem contato com o escritório do senador uma vez por semana. (Como eu descrevi na minha coluna recentemente, a ExxonMobil e o próprio lobista negaram, voltaram atrás e se desculparam pelo que o lobista disse na fita gravada. Então podemos ficar sossegados, colegas cidadãos da nossa idiocracia!)

Após o presidente Joe Biden e os Democratas do Comitê Orçamentário do Senado anunciarem um acordo antecipado em relação a um pacote de reconciliação orçamentária que inclui, entre outras coisas, provisões para abordar a mudança climática, Manchin previsivelmente suscitou objeções. Ele disse que estava “muito, muito aborrecido” com as provisões que ele acredita serem capazes de eliminar gradualmente os combustíveis fósseis.

“Eu sei que eles têm a porção climática aqui, e estou preocupado com isso”, declarou Manchin. Ele continuou, “porque se eles estão eliminando os fósseis...e estou sabendo que tem muito falatório nos locais que estão eliminando os fósseis, o que é muito, muito perturbador, porque se você está enfiando sua cabeça na areia, e dizendo que o combustível fóssil tem que ser eliminado dos EUA, e querem se livrar dele, e pensando que isso vai consertar o clima global, não vai consertar nem um pouco. Seria até pior”.

Isso é bobagem. A segurança climática exige que os EUA e o resto do mundo descarbonizem o sistema energético. Para esse fim, Biden reuniu, com êxito, a China, Europa e outros países em abril para se comprometerem com a descarbonização das suas economias. Manchin está simplesmente buscando atrasar esse esforço.

Os políticos pró-combustíveis fósseis da Virgínia Ocidental há tempos são um desastre para seus constituintes. O estado está quase em último lugar no ranking de bem-estar estadunidense. No ranking atual da “US News” e da “World Report” de todos os 50 estados, a Virgínia Ocidental está em 47º em assistência médica, 45º em educação, 48º em economia, e em último em infraestrutura. O estado também é conhecido por ter o maior número de mortes por overdose de opioides por 100.000 pessoas. Mas ao invés de buscarem soluções reais para o estado, e irem além dos setores de combustível fóssil (que empregam menos de 2% da força de trabalho do estado), Manchin e Capito estão tentando acabar com os planos de Biden que preveem investimentos federais em infraestrutura.

É claro, a idiocracia vai para além da Virgínia Ocidental. Na eleição de 2020, de acordo com o OpenSecrets, os gastos com campanhas federais alcançaram 14.4 bilhões de dólares, e ainda outros 3.5 bilhões de dólares foram gastos em lobby no ano passado. Com esse financiamento, as corporações são as donas da festa. E agora os senadores Republicanos decidiram se opor ao financiamento extra para a fiscalização da Receita Federal contra evasão fiscal.

O povo estadunidense, e as pessoas do mundo, merecem algo melhor que uma idiocracia estadunidense. Os EUA estão perigosamente perto de se tornarem um Estado falido. Ainda assim, a mensagem positiva do filme “idiocracia”, também deveria ser evidente. Nossos problemas são passíveis de resolução, se e quando o José defender o bem comum ao invés dos interesses corporativos.

*Publicado originalmente em 'Common Dreams' | Tradução de Isabela Palhares





Conteúdo Relacionado