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A presidência da CELAC e uma surpreendente reunião com o governo estadunidense

 

10/01/2022 10:11

(Reprodução/NCN/bit.ly/3foIWRD)

Créditos da foto: (Reprodução/NCN/bit.ly/3foIWRD)

 
A eleição de Alberto Fernández como presidente pro tempore da CELAC (Comunidade Latino-Americana e Caribenha de Nações) ajudou a Argentina a conseguir, finalmente, uma reunião entre o seu chanceler, Santiago Cafiero, com o chefe da diplomacia dos Estados Unidos, Anthony Blinken, que acontecerá no dia 18 de janeiro, na qual os argentinos pretendem superar a questão mais crítica envolvendo as negociações com o FMI (Fundo Monetário Internacional).

Essa reunião de chanceleres, segundo especulações de corredores do Palácio San Martín (sede da diplomacia argentina), abriria o caminho para uma bilateral entre Fernández e seu homólogo norte-americano, Joe Biden, a ser realizada antes de março.

O diário Tiempo Argentino afirma que Cafiero conduzirá conversações políticas, que deverá ir além das questões econômicas argentinas. Será ele quem se encarregará da gestão técnica da presidência temporária da CELAC, embora seja um órgão que não possui estrutura institucional autônoma, e dependa da organização concedida por cada chancelaria.

Há meses o governo argentino tenta se aproximar dos estadunidenses. O encontro em Washington acontecerá três meses após outro similar entre o secretário de Assuntos Estratégicos, Gustavo Béliz – grande amigo dos Estados Unidos, desde o governo de Carlos Menem –, e Jake Sullivan, que chefia o influente Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos.

Enquanto isso, em Buenos Aires, se espera a chegada do novo embaixador de Washington, Marc Stanley, um diplomata líder da comunidade judia, filantropo de Dallas e presidente do Conselho Nacional Judeu Democrático por seis anos consecutivos, cuja nomeação já tem a aprovação do Senado do seu país.

“A Argentina é um lindo ônibus turístico cujas rodas não funcionam”, disse Stanley, com caprichos de vice-rei, arrogante, provocador, desdenhoso e pouco preocupado em esconder suas intenções de interferir nos assuntos internos. Diante do Senado, ele exigiu do governo argentino “um plano macroeconômico que ainda não tem”, para poder pactuar o pagamento da dívida com o FMI, e um alinhamento com seu país para isolar Venezuela e Cuba.

Em suas declarações, Stanley prometeu alinhar a Argentina com o setor mais duro da política dos Estados Unidos para a América Latina, a mesma que instalou o conceito de um “eixo do mal” conformado por Caracas-Havana-Manágua, e que vê a Argentina como mais um território em disputa na luta com a China pela hegemonia mundial, tecnologia e negócios – e que promete uma forte intervenção neste sentido.

Uma breve análise geopolítica indica que a Argentina pode ser considerada um interlocutor confiável para governos de esquerda e também de direita no continente, uma vantagem com relação às preocupações mais estruturais do Departamento de Estado, como a relação que a CELAC pode construir com a China.

Talvez os pontos mais espinhosos da ligação bilateral entre Estados Unidos e Argentina estejam em jogo nessa área, e serão colocados à prova nos próximos 60 dias.

Os Estados Unidos, maior acionista do FMI, se recusam a prorrogar os prazos de pagamento solicitados pela Argentina, e se negaram a analisar o pedido de retirada das taxas pelo volume de crédito aprovadas em 2018, a pedido do então presidente neoliberal Mauricio Macri.

“Quero deixar claro que a CELAC não nasceu para competir com nada nem com ninguém. Surgiu das entranhas dos povos latino-americanos e caribenhos”, disse o chanceler Santigo Cafiero na cúpula da CELAC.

Essas palavras foram oferecidas como garantia às propostas de governos de direita e de extrema direita, como Chile, Equador e Colômbia, que tentaram abortar de qualquer forma uma campanha contra a OEA (Organização dos Estados Americanos), entidade que conta com a presença de Estados Unidos e Canadá, e é presidida por Luis Almagro, além do Brasil, país latino-americano que abandonou a CELAC há cerca de dois anos, por decisão do seu presidente, Jair Bolsonaro – outro representante da extrema direita no continente.

Em todo caso, as críticas da Argentina à OEA faziam parte da agenda de Alberto Fernández desde a sua eleição, em 2019. Tal situação foi reportada ao então presidente estadunidense Donald Trump, por funcionários do governo deste país. Vale lembrar que Fernández manteve a Argentina no Grupo Lima, até que o magnata republicano foi substituído por Biden.

Nos Estados Unidos, a percepção sobre a OEA não mudou. O que já não é a mesma é a percepção sobre o trabalho de Almagro: consideram que o secretário-geral do organismo está cometendo muitos erros, e causando mais problemas do que soluções em cenários muito delicados como Venezuela e Nicarágua.

Washington pode pedir a cabeça de Almagro, mas não abandonará seu “ministério das colônias”, o espaço onde podem manipular a política na América Latina e no Caribe, ou ao menos tentar.

Por sua vez, Alberto Fernández já confirmou que, como presidente da CELAC, realizará uma viagem à China, em fevereiro, para participar da cerimônia de abertura das Olimpíadas de Inverno, evento que enfrenta um boicote internacional promovido pela Casa Branca.

A CELAC, ignorada pela mídia hegemônica, resistiu graças ao valioso trabalho da presidência mexicana. Uma avalanche de regimes de direita mudou a correlação de forças existente em nossa região, após a década brilhante, que contou com as presidências de Hugo Chávez (Venezuela), Evo Morales (Bolívia), Lula da Silva (Brasil), Néstor Kirchner (Argentina) e Rafael Correa (Equador), entre outros. Após aquele histórico “não à ALCA”, que enterrou o projeto de domínio econômico impulsionado por Bill Clinton, e que hoje parece reverdecer nos planos hegemônicos norte-americanos.

Rubén Armendáriz é jornalista e cientista político associado ao Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)

*Publicado originalmente em estrategia.la | Tradução de Victor Farinelli




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