Pelo Mundo

A última humilhação da Europa

Donald Trump humilhou a União Europeia ao anular o acordo nuclear com o Irã, e, agora, Joe Biden fez o mesmo ao anunciar o novo acordo AUKUS com a Austrália e o Reino Unido. Mas mesmo com todos os protestos dos líderes europeus, a subordinação da UE aos EUA reflete a escolha consciente que fizeram

26/09/2021 12:16

(Dursun Aydemir/Anadolu Agency via Getty Images)

Créditos da foto: (Dursun Aydemir/Anadolu Agency via Getty Images)

 
ATENAS –Uma “lição brutal na geopolítica”, é como o jornal de Berlim Der Tagesspiegel descreveu o anúncio do AUKUS, uma nova parceria de segurança entre a Austrália, o Reino Unido, e os EUA. O acordo não é apenas uma importante pancada financeira para a França, cujo contrato de entrega de 12 submarinos para a Austrália por 50 bilhões de dólares australianos foi descartado sem cerimônias no processo. Talvez ainda mais importante foi que o presidente dos EUA, Joe Biden, escolheu anunciar o AUKUS de um modo que só pode ser interpretado como uma humilhação deliberada para a França e, por associação, ao resto da União Europeia.

Não foi a primeira lição brutal que os EUA tinham dado à UE recentemente. Quando Donald Trump renegou o acordo que o ex-presidente Barack Obama e a UE tinham selado em conjunto para pôr fim ao programa nuclear do Irã, uma de suas razões foi colocar a Alemanha em seu lugar. Horas após a chanceler alemã, Angela Merkel, declarar que as corporações da UE ignorariam as sanções de Trump e continuariam a comercializar com o Irã, as corporações alemãs fizeram seu próprio anúncio: indispostos a ficar de fora do mercado estadunidense, e perder os cortes aos impostos corporativos de Trump, eles encerrariam a comercialização com o Irã.

Os dois incidentes serviram ao propósito de preservar a hegemonia financeira e geoestratégica dos EUA no ocidente. Ambos os incidentes inflamaram os líderes europeus suficientemente para considerarem retaliação. A ameaça de Trump de implementar sanções contra corporações sediadas na UE e que continuassem a lidar com o Irã levantou discussões na UE em relação a sanções correspondentes contra empresas estadunidenses. Na semana passada, Emmanuel Macron, presidente francês, respondeu ao anúncio de Biden com uma movimentação que eram reservada como último recurso logo antes de declarar guerra: reconvocar os embaixadores franceses de Washington, Capital e Canberra.

Previsivelmente, quando sua raiva assentar, e suas ameaças se esvaírem, os líderes europeus se voltarão para a abordagem das causas principais da sua fraqueza frente aos EUA. Mas é uma charada que não deveria enganar ninguém.

Após empresas europeias concordarem com as sanções de Trump no Irã, oficiais da UE razoavelmente concluíram que, contanto que os EUA controlem o sistema de pagamentos, a Europa estará à mercê dos EUA em qualquer confrontação envolvendo dinheiro. Então, eles decidiram que a Europa precisa de um sistema de pagamentos que o governo dos EUA não possa bloquear. Similarmente, após o fiasco do AUKUS, a necessidade de um exército europeu coeso entrou em foco.

Mas, em ambos os casos, criar as instituições europeias necessárias para desafiar a hegemonia estadunidense exigiria que os líderes europeus agissem de um modo que eles estão relutantes em contemplar.

Considere a ambição de criar um sistema de pagamentos dominado pelo euro que permita que empresas e Estados comercializem independentemente do sistema financeiro dominado pelos EUA. Para o funcionamento de tal sistema, ele deve ser líquido, o que significa que deve poder atrair o dinheiro de outras pessoas – japoneses, chineses, indianos e, certamente, dólares estadunidenses.

Isso, por outro lado, exige que pessoas não europeias que possuam montantes de euros tenham ativos seguros dominados pelo euro em que possam investir sua reserva por um dia ou por uma década. No mundo financeiro dominado pelo dólar estadunidense, tal ativo não somente existe, como também cresce diariamente em proporção. Mas na UE, não existe um equivalente ao Tesouro dos EUA. Sistemas de confinamento alemães podem ser tão seguros quanto casas, mas eles não existem em quantidade suficiente para sustentar um competidor dominado pelo euro contra um sistema de pagamento internacional liderado pelo dólar.

Oficiais europeus sabem que criar um equivalente europeu ao Tesouro dos EUA, a muito discutida, mas nunca realizada eurobond, é uma ponte para muito longe. Afinal, criar o volume necessário de eurobonds implicaria em uma grande dívida pan-europeia. Isso, em troca, demanda a existência de um tesouro em comum, que somente pode ser legitimizado descartando a arquitetura intergovernamental da UE a favor do maior pesadelo das elites europeias: uma federação democrática.

De fato, durante seus 16 anos no poder, a chanceler alemã não bloqueou a criação de eurobonds por mera petulância ou antipatia com o ativo seguro europeu. Ela o fez porque ela não tinha interesse em bater de frente com a determinação das elites europeias de parar o processo de integração da UE bem antes que qualquer coisa parecida com uma federação democrática tomasse forma.

O mesmo é verdade sobre a integração militar. Mesmo o projeto modesto de juntar uma força de cinco mil europeus fortes nunca será mais que tokenismo. Quem enviará esses homens e mulheres para derramar sangue em alguma guerra longínqua? O presidente francês? A chanceler alemã? O presidente da Comissão Europeia?

E quem terá o direito de reconvocá-los se necessário? Sem um parlamento soberano para apoiar um governo federal para tomar essas decisões, nenhum exército europeu merecedor de tal nome pode emergir.

Os líderes europeus recebem o que merecem. Quando qualquer presidente estadunidense bate em suas caras para lembrá-los de quem é o chefe, eles não têm outra chance a não ser dar a outra face, porque foram eles que decidiram escolher seus privilégios atuais às custas da independência europeia. Cada tapa os enraivece suficientemente para lançar ameaças e reconvocar embaixadores. Mas então eles se deparam com a sua própria hostilidade ao que seria necessário para liberar a Europa da hegemonia estadunidense.

Para evitar o tipo de humilhação à qual Trump sujeitou Merkel, a Europa precisa de eurobonds. Para evitar humilhações como a que Biden infligiu contra Macron, precisa de um exército conjunto. Mas essas coisas exigem que as classes nacionais vigentes na Europa renunciem aos seus poderes exorbitantes; e que abracem, ao invés, a ideia radical de uma eleição transnacional para um governo federal transnacional.

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o diloO dilema é claro: transforme a UE em uma federação democrática, e, assim, perca o poderio exorbitante sobre os cidadãos europeus do qual eles gozam na UE não democrática de hoje, ou se entregue à flagelação pelas mãos de quem quer que presida a Casa Branca. Por trás do som e da fúria dos seus protestos periódicos, os líderes europeus parecem ter feito sua escolha.

*Publicado originalmente em 'Project Syndicate' | Tradução de Isabela Palhares



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