Pelo Mundo

Argentina. Quando elas contam sua liberdade

 

15/10/2021 13:29

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A partir desta sexta-feira, 15 de outubro, será disponibilizado em livro digital Nosotras en Libertad. A obra é a continuação do livro «Nosotras, presas políticas», escrito por mais de uma centena de mulheres e que reúne histórias de quem esteve encarcerada entre 1974 e 1983. Em uma conversa, Isabel Eckerl, uma das autoras do livro, comenta o que levou à elaboração tanto do primeiro livro, que relata os anos vividos na prisão, como esta obra que conta as décadas vividas em liberdade, as dificuldades de reinserção e a retomada das atividades e a celebração da vida e da atividade política acima de todos os obstáculos.

A jornada é longa, quase infinita pelas histórias e expressões. Do sonho militante à repressão, do horror à resistência, da adversidade à celebração de estar vivo e livre. Depois da necessidade de contar e denunciar o lado mais sombrio da nossa história, surge relatos de reconstrução, de vida, do resgate dos sonhos… e do recomeçar a caminhar. Uma jornada difícil, mas encorajadora e, em certo sentido, uma resposta àqueles que uma vez lhes disseram que "elas saem daqui mortas ou loucas".

Em conversa com Isabel Eckerl, ela nos relata parte dessa jornada: as dificuldades para começar a contar o que aconteceu, a reintegração, a retomada aos poucos da militância, a continuidade das lutas feministas.

Começar a contar o que foi vivido

“Quando estávamos presas, sempre falávamos que alguém teria de registrar tudo, que tínhamos que contar a todos para que fosse conhecido tudo o que se passou, como havíamos reagido. Nós dizíamos isso, mas as urgências ao sair eram outras: tínhamos que reorganizar nossas vidas, nos reintegrar numa sociedade então bastante desconhecida, começar novas vidas, regressar se você estivesse no estrangeiro, ir se reordenando... e também numa situação em que, apesar do fato de a partir do ano 1983 a democracia se instalara com o voto cidadão e um presidente eleito, essa concepção dos ‘dois demônios’ (que delitos foram cometidos pelos dois lados) se instalou, e isso também nos fez lutar muito dentro dos lugares onde estávamos: tínhamos que controlar o que falávamos, o que não falávamos para ver como nos inseríamos, se nos aceitavam ou não nos aceitavam. Foi difícil. Você podia dizer que tinha um parente desaparecido, mas afirmar que tinha sido presa custava caro para nós. Algumas coisas tinham a ver com a situação política, mas outras certamente também com as nossas próprias inseguranças sobre como nos mostrar numa sociedade que também nos feriu de alguma forma ", diz Isabel sobre o começo da ideia de contar a experiência e as dificuldades de se falar apesar de já estar em uma democracia.

Mas cada companheira teve seu próprio processo, com tempos diferentes para começar a contar sobre o ocorrido. “Os processos para começar a falar foram vários. Muitas vezes tinha a ver com a inserção. Havia colegas, por exemplo, que tinham uma grande inserção sindical, que eram delegadas e pertenciam a um sindicato quando foram presas. Elas voltaram e se reintegraram - e ali todos sabiam que tinham sido detidas e que também era alguém que viveu e sofreu naquele local de trabalho. Houve outras que tiveram de recomeçar em lugares diferentes, ou trabalhos diferentes, a preço alto. No meu caso, nunca deixei de dizer que tinha um marido desaparecido, mas era mais difícil dizer que eu tinha sido detida: por causa dos ‘dois demônios’ e porque você também se sentia exposta. Quando você se sente sozinho ou sozinha diante de uma realidade é ainda mais difícil. Eu estava em uma escola, trabalhando como professora e, conforme via as coisas, avançava no que contava. Isso tinha a ver também com a fragilidade de cada uma. Houve companheiras que partiram e aí sua localidade não existia mais. As companheiras de Tucumán, que viviam no engenho, em um certo povoado que foi arrasado e saíram e ficaram sem povoado. Imagine que se recuperar nessa situação não é fácil. Demora muito porque tem que remontar toda uma estrutura, outra cidade: é muito mais pesado do que se você juntar uma família que já está aí, que está te esperando, um bairro que já sabe quem você é, que sabe o processo pelo qual você passou e, enfim, sempre falando no marco da ‘teoria dos dois demônios’”, explica Isabel, que depois de ter trabalhado como professora atuou na Secretaria de Direitos Humanos. Ela lembra de ter recebido pessoas de outras províncias que "falavam baixinho", não querendo que outros soubessem que tinham um parente desaparecido. “Falavam baixinho e uma vez chamei uma delas ao escritório e, depois quando ela veio a Buenos Aires, ela meio que me tratou mal dizendo ‘vão descobrir’. Pois então, nessas horas cada uma se colocava de acordo com o lugar onde estava”, acrescentou.

Mas apesar das adversidades, o grupo se formou e houve quem promoveu, com sua iniciativa, a concretização do projeto. “Uma colega, Mariana Crespo, que foi uma das promotoras do livro, ficou sabendo que estava com uma doença terminal e buscou acelerar o lançamento. ‘A única coisa que me dará mais vida é poder conceber este livro’. Aí ela chama a gente, éramos 120, 130 pessoas, e ela passa pra gente o que ela queria fazer, que era produzir esse livro: começar com as cartas, que cada uma colocasse as cartas que tinha da família ou aquelas que tínhamos escrito e os parentes guardaram, as que os parentes nos escreveram, cartas com a marca da censura, desenhos das crianças ou os que fizemos para elas. E então as situações que vivemos cada uma. Nesse livro contamos o que nos aconteceu com um contexto político da situação: qual foi o país por onde entramos, qual foi o país por onde saímos. Conseguimos apresentá-lo em 2006 no âmbito da Feira do Livro. Infelizmente a Mariana Crespo já tinha falecido, mas outros colegas levaram o livro nas costas. Fizemos isso pela necessidade de contar o que tínhamos vivido internamente e de colaborar com as investigações que pedíamos, e mais ou menos naqueles dias começou a surgir a possibilidade de serem julgados aqueles que haviam cometido os crimes contra a humanidade, os responsáveis pelo genocídio na Argentina ”.

«Saimos, sobrevivemos e isso tinha de ser contado»

Depois do lançamento de ‘Nosotras, presas políticas’, a repercussão mostrou a necessidade de uma continuidade: contar o triunfo da vida nos anos seguintes. “Começamos a ver as repercussões. Houve repercussão em todo o país e também em outros países onde moravam colegas. A cobrança no geral era sobre o que fizemos depois que saímos, como foram nossas vidas. Esse foi o pedido que nos fizeram. Então, aí começamos a falar que tínhamos que escrever isso: o que eles nos pediam, como continuamos a viver, como rompemos com aquela inércia da detenção, a volta à família, o tocar, como retomamos. A tecnologia estava nos ajudando, nos comunicamos por e-mail, WhatsApp. De alguma forma, mantivemos um vínculo forte por muitos anos, mas essa tecnologia nos ajudou a nos aproximar ainda mais ”.

A necessidade de se rever, de celebrar, de relembrar quem já não está entre nós, as manteve unidas e motivou novos encontros e compromissos. “Além dos abraços virtuais, queremos abraços reais. Aí surge a necessidade de nos reunirmos em Bauen, em julho de 2019. Lá nos tornamos cerca de 300. Havia algumas colegas que não se viam há 40 anos. E outras que fazia 10 ou 15 anos que não se viam: talvez a última vez em um aniversário ou num evento na Plaza de Mayo no dia 24 de março, mas, dependendo de onde você mora ou com quem está, nem sempre você encontra todo mundo que está na praça”, explica Isabel.

Após o encontro surgiram várias ideias e atividades, como a participação nas oficinas do Encontro Nacional de Mulheres, nas quais compartilharam suas experiências. “Em outubro de 2019 buscamos nos inscrever no Encontro de Mulheres e realizarmos uma oficina de resistência, pois havíamos, depois da prisão, vivenciado nossa situação, nos reintegrado à sociedade. E uma oficina que a princípio se pensava que seriam uma ou duas, acabou sendo 6 ou 7 com muita gente. Os jovens, as avós com as netas, e a partir daí as companheiras viram que havia claramente a exigência de se saber dessa experiência, não só a partir dos livros, mas também nas oficinas, que há mulheres que se interessam por elas.”

A continuidade das lutas feministas

Isabel também expôs sua visão e opinião sobre a continuidade das lutas femininas: uma história que tem uma longa trajetória e que, nela, se juntam gerações de mulheres: das sufragistas às primeiras candidatas após a conquista do voto feminino no primeiro peronismo, das lutas por anticoncepcionais e sexo livre nos anos 60/70 às lutas atuais pelo direito de escolha e contra o capitalismo patriarcal. “Na sociedade argentina há uma longa história de lutas do feminismo, ou pelo menos dos direitos das mulheres. Por exemplo: na época do peronismo, Eva Perón promoveu fortemente o voto feminino, mas não só o voto feminino, mas também a real participação política das mulheres. Enquanto se discutia o voto, ela ordenou a organização das unidades de inscrição no país, digamos, para se produzir um documento (a mulher não tinha documento para votar) e fez recrutamento em todo o país, e isso cria uma organização política nacional: mulheres organizadas para votar. Essa é uma afirmação das mulheres que elas não tinham antes. Sempre houve lutas das mulheres por seus direitos com altos e baixos, mas naquele momento, a partir do poder, a esposa do presidente impõe esse tipo de organização, que é um forte empoderamento das mulheres. Depois dessa eleição, cerca de 30% dos deputados e senadores são mulheres. E em ambas as câmaras e legislaturas regionais, as mulheres presidem comissões importantes: relações econômicas, internacional, indústria. Essa é uma abordagem com o empoderamento das mulheres, como as suas organizações nos locais de trabalho, organizadas como as enfermeiras, por exemplo, com os seus cursos, com a sua formação. Mas com a Revolução Libertadora, em 1955, essas coisas se perderam e elas foram perseguidas. Depois, há uma luta para se livrar das sucessivas ditaduras, onde mulheres e homens lutaram juntos. Claro que as mulheres estão abrindo certos caminhos. Não se esqueça que nós somos a geração da minissaia, dos anticoncepcionais, da libertação da mulher: naquela época, falava-se do sexo livre como determinado valor que fazia a mulher avançar. Estávamos nesse quadro, aí a ditadura mais uma vez se impôs e baixou esse patamar das lutas porque o que se tinha a fazer era lutar contra um inimigo comum ”, destacou.

Conquistas parciais também permitem avanços na medida em que direitos são adquiridos. No caso das mulheres, conquistas são avanços para se "ir além" e continuar na luta contra o patriarcado, como Isabel aponta na hora de falar sobre as lutas da atualidade. “Não é uma luta só pelo aborto. Implica na liberdade da mulher de decidir sobre seu próprio corpo. Apoiamos essa: algumas estiveram e continuam fortemente envolvidas, companheiras que estão na vanguarda dessas reivindicações. Outras nós acompanhamos. A maioria de nós participa acompanhando esses processos, participando de mobilizações, oficinas e reuniões anuais de mulheres. Nos encontramos nesses lugares. E embora não seja novidade, aplaudimos o surgimento dessas jovens, dessas meninas, que tanto exigem a consolidação desses direitos e a conquista de novos”.

“Nem mortas nem loucas”

O livro é o testemunho da continuidade de uma vida militante, que persiste apesar de tudo. “Valorizamos nossa organização. Estivemos organizadas para resistir na prisão. Organizadas para responder às nossas necessidades lá dentro: atender uma colega que estava doente, ou colaborar com a cirurgia de outra. Nos reuníamos para comemorar aniversários. Temos nos mantido organizadas para participar politicamente: umas de um lado, outras de outro, sempre priorizando a solidariedade e a organização. Para nós, os objetivos de liberdade não foram cumpridos. Continuamos mantendo isso. Algumas de nós acreditavam que com governos nacionais e populares, como houve na América Latina, estávamos mais próximas, outras acreditam que isso não basta, que assim nunca chegaremos ao socialismo e que medidas muito mais radicais devem ser tomadas. Mas, vamos lá, aos poucos e harmoniosamente. Enquanto isso, damos respostas aos julgamentos, estamos dando respostas políticas, cada uma no lugar para onde foi. Acho que o que podemos transmitir é isso: solidariedade e organização, que somos mulheres comuns com vontade de lutar por um país onde valha a pena viver”.

*Publicado originalmente em 'Resumen Latinoamericano' | Tradução de Carlos Alberto Pavam

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