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Assassinato de Gaddafi há 10 anos resultou na morte da Líbia e na destruição de seu povo

 

20/10/2021 12:57

(Zohra Bensemra/Reuters)

Créditos da foto: (Zohra Bensemra/Reuters)

 
Muammar al-Gaddafi transformou a Líbia na nação mais rica de toda a África. Uma década depois de sua morte, o país está tomado pelo tribalismo, pelo terrorismo e pelo escravagismo, tudo porque o Ocidente não podia permitir o sucesso de um líder árabe.

Nunca houve na Líbia uma verdadeira “Primavera Árabe” como no Egito e na Tunísia. Os protestos foram bem menores e, como o tempo mostrou, os grandes atores eram grupos extremistas e estrangeiros, cada um tentando se apossar de uma parcela do país.

O bombardeio da Líbia pela Otan em apoio a rebeldes buscando a derrubada de Gaddafi não tinha nada a ver com a vontade de fazer o país prosperar. Sob a máscara de “direitos humanos” e “democracia”, a aliança militar ocidental ajudou a matar um dos mais proeminentes líderes do mundo árabe a fim de se apoderar dos recursos da Líbia e de proteger a hegemonia do Ocidente. Mais tarde, como parte da secreta Operação Timber Sycamore, a CIA encontraria uma nova utilidade na derrubada de Gaddafi: canalizar o arsenal militar da Líbia para a Síria a fim de armar a Al Qaeda e outros grupos jihadistas.

Esquecida pela grande mídia, a Líbia se tornou uma sombra do que foi, destroçada por 10 anos de guerra e caos. Hillary Clinton, Barack Obama e outros criminosos de guerra que orquestraram sua destruição não querem que você saiba em que péssima situação o país está.

De nação próspera a ‘Estado falido’

Conhecido por suas extravagâncias, Gaddafi ostentava uma equipe de guarda-costas formada por mulheres, usava roupas luxuosas e fazia longos e dramáticos discursos. Mas ele também transformou a Líbia de um dos mais pobres países do mundo em um Estado rico, autossuficiente, ao mesmo tempo em que administrava uma sociedade tribal no país que abriga as maiores reservas petrolíferas da África.

Durante seus 42 anos no poder, ele elevou o índice de alfabetismo do país de 25% para 88%. Os líbios desfrutavam de saúde pública gratuita, educação gratuita e um alto padrão de vida. As necessidades básicas, como eletricidade e gás de cozinha tinham baixo preço, e o país garantia uma forte rede de proteção social e programas de bem-estar.

Cerca de 90% do território da Líbia é composto por desertos. Gaddafi buscou oferecer água para uso individual e na agricultura para todos os líbios – um desafio que venceu. Ele construiu o maior projeto de irrigação do mundo, o ‘Grande Rio Feito pelo Homem’ na década de 80. Com a maior rede de dutos do planeta, ele abastecia 70% de toda água doce na Líbia. Gaddafi o chamava de “Oitava Maravilha do Mundo”. Ao custo de mais de US$ 25 bilhões, o projeto foi totalmente autofinanciado, sem empréstimos ou créditos de bancos estrangeiros. A Líbia cresceu para se tornar um país rico e sem dívida externa.

A Otan bombardeou o Grande Rio Feito pelo Homem em julho de 2011, destruindo um infraestrutura civil essencial: um crime de guerra.

O Índice de Desenvolvimento Humano da ONU oferece uma medida resumida da saúde, educação e renda. Em 2010, a Líbia era o primeiro país da África e o 53º entre 189 nações e territórios. Hoje, ela afundou para o 105º lugar.

Depois da ‘“revolução” apoiada pela Otan, a Líbia não tem mais nenhum desses benefícios. Apagões de energia elétrica são constantes. O sistema de saúde pública entrou em colapso. Não existe infraestrutura. O padrão de vida despencou e, depois de 10 anos, a Líbia não tem nem um governo central funcional.

Em março deste ano foi formado um governo de unidade nacional depois de um cessar-fogo acordado em outubro de 2020. Apesar de no geral estar sendo respeitado, e eleições terem sido convocadas para dezembro, persistem lutas intestinas, não se sabendo o que resultará desse processo.

Ao invés de abundância de água, ouro e petróleo num país próspero com boa infraestrutura, a Líbia tem hoje um mercado de escravos a céu aberto. Contrabandistas e traficantes de pessoas aproveitam de emigrantes e refugiados indo em direção à Europa, vendendo-os como escravos. Tribos rivais e facções políticas brigam pelo petróleo e outros recursos naturais, determinados a conquistarem o poder para eles mesmos. Enquanto isso, bolsões do Estado Isâmico (ISIS), da Al Qaeda e de outros combatentes jihadistas espreitam nas sombras, infernizando o convulsionado país e seus vizinhos – grupos que não ousavam se estabelecer na Líbia de Gaddafi.

Antes uma próspera nação, desde sua queda, ela tem sido tomada por terroristas, oportunistas e ladrões, e afundou no caos. Isso é o que foi feito nos últimos 10 anos na Líbia. Isso é o que a Otan criou.

Um dos grandes discursos de Gaddafi foi feito em 2008 numa reunião da Liga Árabe em Damasco. Reagindo à invasão do Iraque, ele advertiu aos líderes árabes sobre o destino de Saddam Hussein, quem os EUA consideraram um aliado na guerra contra o Irã.

“Toda uma liderança árabe foi enforcada, e ainda assim ficamos passivos. Por quê? Qualquer um de vocês pode ser o próximo.”

Ironizando suas palavras, outros líderes árabes deveriam ter ouvido a advertência de Gaddafi, porque logo os EUA partiram contra a Síria e a Líbia. E apenas três anos depois, o próprio Gaddafi foi brutalmente morto por rebeldes apoiados pela Otan.

Antiimperialista, pan-arabista e pan-africano: por que Gaddafi tinha de ser neutralizado

O falecido líder líbio apoiava movimentos de independência e de libertação nacional em todo o mundo, incluindo a Organização de Libertação da Palestina, o Exército Republicano Irlandês e o Partido dos Panteras Negras. Na década de 70, ele tentou fundir a Líbia com o Egito e a Síria para formar um Estado árabe unificado. Em 2009, ele propôs que as nações africanas adotassem uma moeda única: o dinar de ouro. O Banco Central da Líbia, que era 100% estatal, tinha reservas de 144 toneladas de ouro que seriam usadas no projeto. Gaddafi defendeu que os países africanos fizessem suas operações de compra e venda de produtos exclusivamente na nova moeda pan-africana. Isso permitiria que elas se libertassem do dólar estadunidense e do franco (CFA) da África Central – uma moeda usada em 14 países e totalmente controlada pela França.

Esse foi o maior pecado de Gaddafi. Ao querer que as nações africanas adotassem uma moeda única, que controlassem seus recursos e conquistassem verdadeira independência, ele apresentou um risco para a hegemonia monetária ocidental. Então, ele tinha de cair.

Governos ocidentais tinham clara consciência de seu plano. E-mails da então secretária de Estado dos EUA Hillary Clinton mostram discussões sobre as reservas de ouro de Gaddafi e seus planos para uma moeda única. Ficou claro para o Ocidente que se os países africanos abandonassem o dólar e o franco (CFA) e assumissem o controle de sua moeda e de sua política monetária, seria minada a influência dos EUA e da França na África. Iria enfraquecer o monopólio ocidental sobre os recursos africanos e o sistema financeiro internacional, tornando instituições neocoloniais, como o Fundo Monetário Internacional, menos efetivos na manipulação de nações em desenvolvimento.

Entre aqueles e-mails é dito com todas as letras que o plano de Gaddafi de oferecer uma alternativa ao franco (CFA) “foi um dos fatores que influenciaram a decisão do presidente Nicolas Sarkozy de comprometer a França com o ataque à Líbia”.

Sarkozy decidiu bombardear a Líbia porque ele sabia que se os países da África Ocidental e da África Central abandonassem o franco (CFA), a França veria diminuída sua influência sobre sua suas ‘antigas’ colônias e prejudicaria seu “desejo de conquistar uma parcela maior da produção de petróleo da Líbia” – ou seja, de saquear as riquezas da Líbia.

Gaddafi anteviu isso em 2011, quando disse: “Existe uma conspiração para controlar o petróleo líbio e o território líbio, para colonizar a Líbia de novo”.

Tudo isso é um lembrete de que a Otan não tinha a menor preocupação em relação aos protestos e à “Primavera Árabe”. Discursos sobre “respeito à democracia” eram apenas uma fachada para proteger os interesses ocidentais e pilhar os recursos da Líbia, deixando o país em caos e como um abrigo para terroristas, como no Iraque e na Síria.

Nada podia ser mais emblemático da forma maquiavélica como tudo foi tramado do que Hillary Clinton dando pulos de alegria ao ouvir sobre a morte de Gaddafi, depois de ele ter sido brutalmente sodomizado, linchado e executado pelos rebeldes apoiados pela Otan. “Viemos, vimos, ele morreu”, disse uma exultante Hillary.

Morto por seus acertos

Gaddafi sempre foi uma pedra no sapato dos interesses coloniais do Ocidente. Seu maior ‘crime’ foi buscar uma verdadeira independência, ameaçando a hegemonia monetária estadunidense e francesa, e o sistema financeiro internacional.

Hoje as pessoas olham para a Líbia e a rotulam de um ‘Estado falido’. Mas a Líbia de Gaddafi era a nação mais rica e próspera da África – um país florescente que o Ocidente destruiu deliberadamente em 2011.

Apologistas do imperialismo ocidental adoram diminuir as conquistas de outros países e rotular seus líderes de ditadores, mas a verdade é que a Líbia vivia muito melhor sob Gaddafi. O país tinha petróleo, ouro, água e independência de recursos.

A história está repleta de líderes africanos, árabes, latino-americanos mortos pelos Estados Unidos por ousarem levar progresso para seus países e desafiar a hegemonia ocidental. Gaddafi é um deles.

Não existe nada que o Ocidente odeia mais do que um líder árabe que se opõe ao imperialismo, ao sionismo e quer que seu país, e outros países árabes e africanos, sejam autossuficientes. Foi por isso que a Otan matou Gaddafi.

Richard Medhurst é um jornalista britânico nascido em Damasco. Ele se destacou na cobertura sobre política internacional, política interna nos EUA, Oriente Médio e a extradição de Julian Assange. Ele tem um canal no Youtube e é o anfitrião de um programa na Press TV. Pode ser seguido no Twitter @richimedhurst

*Publicado originalmente em 'RT News' | Tradução de Carlos Alberto Pavam




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