Pelo Mundo

Autoridades e políticos do país lamentam morte de Arafat

11/11/2004 00:00

Brasília – A memória do líder palestino Yasser Arafat foi reverenciada em diversos pronunciamentos do governo, de autoridade e políticos brasileiros. O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, disse que Arafat cumpriu um importante papel nas tentativas de solucionar de forma pacífica o conflito no Oriente Médio. "Ele, a quem o presidente Lula conheceu pessoalmente, teve um papel muito importante e promoveu pelo menos o início de uma solução pacífica para o conflito do Oriente Médio. Infelizmente, os acontecimentos depois levaram a um rumo diferente, mas os nossos votos são de que o povo palestino realize rapidamente seu direito de se organizar como um Estado, dentro de um ambiente pacífico na região". 

Para o ministro, a morte de Arafat não deverá acelerar o processo de paz entre palestinos e isralelenses. "Apesar de ter contribuído para a unidade do povo palestino e promovido acordos para uma base de entendimento, infelizmente, as intolerâncias dos dois lados não permitem que isso aconteça facilmente". Em nota oficial, o Ministério das Relações Exteriores expressou as condolências do governo brasileiro pelo “desaparecimento do Presidente Yasser Arafat, líder histórico da luta do povo palestino por sua auto-determinação e sua independência”, reafirmando o apoio à criação de um Estado palestino livre e soberano e à construção de um futuro de paz e prosperidade para o Oriente Médio.

O Plenário do Senado aprovou voto de pesar pelo falecimento do presidente da Autoridade Nacional Palestina e enviou condolências à delegação oficial palestina no Brasil. O pedido foi feito pelos senadores Eduardo Suplicy (PT-SP), Ideli Salvatti (PT-SC), Heloísa Helena (PSOL-AL) e Pedro Simon (PMDB-RS).

O ministro chefe da Casa Civil, José Dirceu, irá representar o governo brasileiro no velório de Yasser Arafat, que morreu às 3h30 desta quinta-feira (11), em Paris, por falência múltipla dos órgãos. Dirceu viajou no início da tarde e deve chegar ao Cairo na manhã de sexta-feira (12), pouco antes do início das cerimônias. Também integram a comitiva o embaixador extraordinário para o Oriente Médio, Afonso Ouro Preto, o senador Maguito Vilela (PMDB-GO) e os deputados Jamil Murad (PCdoB-SP), Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP), Maurício Rands (PT-PE) e Paulo Pimenta (PT-RS).

Jamil Murad, que é presidente da Liga Parlamentar Árabe-Brasileira, disse que, apesar de insubstituível, Yasser Arafat formou líderes políticos, que por conta da unidade dos palestinos e da força da causa palestina, devem conseguir levar adiante as negociações por um estado independente. Mas apesar disso, para Jamil Murad, o processo de paz no Oriente Médio após a morte de Arafat deve ficar prejudicado. "Ele enfrentou desde a guerrilha até os bancos da ONU onde, com seus argumentos, ele destruiu aquela imagem de terrorista, dos que queriam caluniá-lo, para a de um estadista que acabou ganhando o Prêmio Nobel da Paz. Isso mostra o valor do Arafat, porque a sua causa era dar uma pátria para o povo palestino. E um povo ter a pátria é tudo. É como uma família que não tem casa. Não tendo casa, mora na rua?", indagou.

Greenhalgh representará também a Secretaria Nacional de Relações Internacionais do PT, que dirigiu entre 1982 e 1989. Ele foi um dos articuladores do estreitamento dos contatos entre o partido e a Organização para Liberação da Palestina (OLP), em 1988, quando o então presidente do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, e Arafat, assinaram um convênio que formalizou a relação entre as partes.

“Alguns homens lutam uma vida inteira por uma causa. Arafat é um deles. Sua morte chama à reflexão pela busca da paz no Oriente Médio e pelo direito do povo palestino de, pacificamente, organizar-se como Estado", observou Greenhalgh.

O líder do PT na Câmara, deputado Arlindo Chinaglia (SP), manifestou pesar pela morte de Arafat, encaminhando nota em nome da bancada ao embaixador Musa Amer Odeh, chefe da Delegação Especial da Palestina no Brasil. Chinaglia manifestou “esperança de que o povo palestino e seus líderes darão continuidade aos ideais e lutas de Arafat, pela criação de um Estado Palestino livre e soberano, num ambiente de paz e desenvolvimento no Oriente Médio”. O líder do PT qualificou Arafat como “filho ilustre e líder do povo palestino em sua luta pela autodeterminação”.

O atual secretário de Relações Internacionais, deputado Paulo Delgado (MG), lamentou a morte de Arafat e manifestou a expectativa de que ele possa ser enterrado na “Jerusalém palestina”. Segundo o petista, Arafat teve a “mais notável trajetória política, entre o século passado e o inicio do século 21, da liderança do movimento Al-Fatah à presidência da Autoridade Nacional Palestina”.

Na opinião de Paulo Delgado, Arafat só não é um “vitorioso pleno em sua luta pela liberdade do povo palestino devido à covardia do sistema das Nações Unidas, que não teve força para fazer valer as resoluções multilaterais relativas ao Oriente Médio e à Palestina”. Segundo ele, essas inúmeras resoluções foram “interpretadas unilateralmente em favor de Israel”. O parlamentar disse esperar que a morte de Arafat “produza forte comoção e reflexão na ONU e que o pleno respeito à causa palestina se faça cumprir imediatamente”.

O vice-presidente da Câmara, deputado Inocêncio Oliveira (PFL-PE), reiterou que o nome de Arafat ficará para sempre, “lamentamos profundamente o falecimento de Arafat, um líder que defendeu o direito de seu povo ter uma nação. Queremos dizer que seu nome ficará imortalizado”. O deputado Chico Alencar (PT-RJ) destacou a trajetória significativa de Arafat, que segundo ele, sempre representou o povo palestino em busca de sua terra e sua pátria. “Arafat deixa o alerta de que só existe paz quando existe justiça. Só vai haver tranqüilidade no Oriente quando judeus e palestinos se respeitarem mutuamente”. Na avaliação de Chico Alencar, Arafat unificava o povo palestino, mesmo atuando com seus erros e acertos.

O deputado Ivan Valente (PT-SP) fez um pronunciamento na tribuna da Câmara manifestando solidariedade ao povo palestino “vítima da violência originária por sua expulsão de determinado território por um conluio de grandes potências capitalistas”. Lembrou que Arafat esteve à frente da luta do povo palestino por mais de 50 anos, sendo fundador da Organização Al Fatah, presidente da Organização para a Libertação da Palestina e primeiro presidente da Autoridade Nacional Palestina.

Ao fazer uma reflexão sobre a morte do líder palestino, ele observou que a mídia internacional é controlada, em grande parte, pela “imprensa sionista, que passa versão deturpada do que aconteceu lá”. De acordo com o deputado petista o povo palestino foi expulso da sua terra, precisa voltar a ela e tem direito a um Estado independente. “Entendemos que a mídia internacional e o império americano tentaram colar no povo palestino a pecha de terrorista. Faço questão de dizer que o Estado israelense nasceu por intermédio de organizações que praticam atos de terror, como as chamadas Irgun e Stern”, destacou, lembrando que o primeiro presidente de Israel, Ben Gurion, participou dessas organizações. “Mas é o povo palestino que é tratado como terrorista e a luta pelo seu Estado, pelo direito do seu território e de viver livremente são considerados terrorismos. Neste momento, são vítimas de enorme incompreensão mundial, porque os Estados Unidos da América financiam um estado militarista, armado até os dentes, como instrumento de proteção e para garantir sua influência sobre o petróleo do Oriente Médio, ponta-de-lança do imperialismo norte-americano”, afirmou Valente.

O deputado observou ainda que o atual primeiro-ministro de Israel, Ariel Sharon, é acusado do massacre de Sabra e Chatila, no Líbano, quando mais de 5 mil pessoas foram assassinadas. “Mas isso a imprensa não menciona”, reclamou. “Com todos os erros políticos que [Arafat] possa ter cometido no processo de liderança, por não ter conseguido, por causa da dinâmica da luta da Palestina, unificar todos os grupos, é o mais representativo e vai ser referência permanente do povo palestino”, previu Valente, acreditando que não haverá paz na Palestina e no Oriente Médio se Israel não abandonar os territórios ocupados, se não houver desmilitarização da cidade de Jerusalém e se não for criado um Estado palestino livre, soberano, democrático, onde possa haver convivência pacífica, sem interesses econômicos, sem racismo e com liberdade para aquele povo. 

"Arafat se vai, neste momento, mas a luta e o conflito continuam. Todos os povos do mundo precisam conhecer a verdadeira história: a violência originária é a que expulsou do seu território milenar o povo palestino, que precisa retomar seu direito. É necessário o reconhecimento internacional desse direito. Inclusive, mais de 300 resoluções da Organização das Nações Unidas foram desrespeitadas pelo Estado israelense com o apoio norte-americano, que as segurava, no veto. Viva a luta do povo palestino!”, proclamou o deputado petista.

* Com informações das Agências Brasil, Câmara, Senado e Informes.

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