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Biden não foi eleito para criticar os agentes de fronteiras racistas - ele foi eleito para detê-los

 

27/09/2021 19:08

Agente da Patrulha de Fronteira dos Estados Unidos a cavalo ameaça migrantes haitianos que tentam entrar em um acampamento nas margens do Rio Grande perto da Ponte Internacional Acuna Del Rio em Del Rio, Texas, em 19 de setembro de 2021 (Paul Ratje/AFP via Getty Imagens)

Créditos da foto: Agente da Patrulha de Fronteira dos Estados Unidos a cavalo ameaça migrantes haitianos que tentam entrar em um acampamento nas margens do Rio Grande perto da Ponte Internacional Acuna Del Rio em Del Rio, Texas, em 19 de setembro de 2021 (Paul Ratje/AFP via Getty Imagens)

 
Quantos imigrantes a administração de Joe Biden vai chicotear até que se torne sua culpa e não culpa do cara de antes? Quantas políticas desumanas serão conduzidas até que ele as reconheça? Quantos sociopatas cruéis destituídos de empatia humana poderão trabalhar na Segurança Nacional sob o comando de Alejandro Mayorkas até que a sua recusa em demiti-los possa ser chamada de aceitação das suas ações?

Não estou tentando ser sarcástica. Essas são perguntas honestas que eu tenho. Eu gostaria que os defensores de Biden e os porta-vozes da Casa Branca me dissessem precisamente quanto mais de crueldade e intolerância essa administração irá lançar contra os imigrantes não brancos antes que eles tomem responsabilidade e encerrem tudo isso. Quanto tempo, exatamente, tudo isso vai durar até que os padrões internacionais de direitos humanos sejam aplicados na nossa fronteira? Digam-me a data em que podemos esperar que os racistas contratados ou empoderados pela administração Trump não estarão mais envolvidos com as forças de segurança ou na política imigratória. Eu entendo que a mudança de rumo do navio é lenta – só me diga quando vão parar jogar imigrantes para fora dele. Estou perguntando em nome de centenas de milhares de amigos em potencial.

Muitos viram as fotos e assistiram aos vídeos dos agentes da Patrulha da Fronteira dos EUA em cima de cavalos espancando migrantes haitianos no meio do Rio Grande. De acordo com os migrantes, eles estavam acampados no lado estadunidense da fronteira, mas foram compelidos a sair e buscar pela própria comida e água. Alguns deles foram para o México para buscar mantimentos e foram chicoteados no caminho de volta.

As imagens nem capturam o terror completo do tratamento desumano. Isso porque enquanto os migrantes estavam sendo chicoteados, a Patrulha da Fronteira estava gritando, “voltem para o México!”. Pode-se ouvir um agente dizendo, “é por isso que o país de vocês é uma merda, porque vocês usam suas mulheres para isso”.

Em resposta à indignação disseminada em relação a essas imagens, o secretário Mayorkas se doeu e apontou que a Patrulha não estava usando “chicotes”. O Departamento Nacional de Segurança (DHS) sugeriu, ao invés, que estavam sendo usados laços ou rédeas longas dos cavalos. Foi iniciada uma investigação sobre o incidente. Eu não sei quem se importa com o elemento preciso usado nessa atrocidade. Eu não sei quem acha que isso é sobre o chicote como substantivo, ao invés do chicote como verbo. Mas eu tenho certeza que o DHS eventualmente nos explicará qual tipo de ferramenta feita para controlar bestas foi usada em humanos.

Jen Pskai, secretária de imprensa da Casa Branca, disse que as imagens eram “horríveis de se ver” e que “isso não representa quem somos”. Ela disse: “essa não é a administração Biden-Harris”. É engraçado, porque eu pensei que eu conhecia quem ganhou a última eleição presidencial, mas se alguém mais está no comando autorizando que pessoas deploráveis atropelem com cavalos famílias famintas procurando por comida, por favor dirijam-me ao seu escritório.

A Segurança Nacional também divulgou uma declaração dizendo que o departamento “não tolera o abuso de migrantes sob nossa custódia e levamos muito a sério essas alegações”. Eu acho que eles querem dizer que eles não toleram o abuso de migrantes gravado em vídeo, porque se o DHS não tolerasse abusos em geral, eu te prometo que esses agentes não teriam recebido cavalos com longas rédeas para início de conversa.

Essas não são “alegações” de abuso. Ninguém está argumentando que essas imagens foram alteradas ou que o vídeo é falso. Não, essa é a evidência de fanáticos a cavalo violando os direitos humanos enquanto estão a serviço do governo dos EUA – o governo Biden, ou o governo “Biden-Harris”, como dizem os oficiais de Biden quando a administração é pega continuando o racismo do regime Trump. De algum modo, Kamala Harris, que tem o mesmo poder executivo que um balde quente de cuspe, sempre é arrastada junto quando a administração Biden tenta explicar o motivo pelo qual não lida com os oficiais racistas que a administração Trump deixou para trás.

Olha, eu sei que a administração Biden não “tolera” o comportamento desses agentes da Patrulha da Fronteira (especialmente quando o comportamento é fotografado). E eu reconheço que escolher não aplaudir sua violência ou chamá-la de “trabalho de Deus” (como fez um deputado) é uma grande mudança em relação à administração anterior que encorajava tal comportamento. mas “não tolerar” algo não é o suficiente. Biden não foi eleito para criticar os agentes de fronteiras racistas – ele foi eleito para detê-los.

Mas o problema é ainda mais profundo. A administração Biden não está apenas fracassando em parar o tratamento desumano de refugiados e pessoas desesperadas na fronteira – ela escolheu deportá-los. No Texas, essa semana, o secretário Mayorkas reiterou sua mensagem tão prestativa de “não venham para cá”. Os haitianos acabaram de passar por mais um terremoto devastador, para não mencionar a crise política que acompanhou o assassinato do seu presidente, e, até agora, somente 0.2% da população foi completamente vacinada contra a covid.19. Mas é claro que “não venham para cá” é o que esse país pode fazer para ajudar. O Haiti é um país francófono não conhecido por assistir funcionários de gabinete dos EUA na TV, mas talvez as pessoas que deixaram suas casas e arriscaram suas vidas possam ser detidas por Mayorkas rosnando em sua fronteira.

Mesmo os haitianos sobrevivendo a fúria dos oceanos, rios, e a cavalaria racista para chegar aos EUA, a administração Biden tem os deportado de volta para o Haiti – aos milhares. Escolheu continuar com a política de deportação da administração Trump, os forçando a se registrarem enquanto requerentes de asilo. Deportar esses requerentes viola padrões internacionais de direitos humanos. Mas a atual administração disse que está enviando de um a três aviões cheios de haitianos de volta para o Haiti diariamente – é esperado que esse número cresça para até seis aviões por dia.

Biden poderia ter parado as deportações, restaurado os direitos básicos dos requerentes de asilo, e demitido cada pessoa que trabalhou na fronteira durante o mandato de Trump. As forças de segurança imigratórias estão dentro da alçada de poder executivo de Biden. Ele não tem que adular Joe Manchin ou financiar a próxima degustação de vinhos de Krysten Sinema para conseguir fazer alguma coisa. Biden poderia zerar a Patrulha de Fronteira – se ele quisesse. E ele poderia abolir a ICE em uma tacada só.

Mesmo se ele estivesse determinado a manter a CBP e a ICE, já passamos do ponto de “algumas maçãs podres”. Estamos lidando com alguns mimados e o mínimo esperado é a demissão de todos e o recomeço com uma nova força: uma determinada a garantir que não são racistas querendo monetizar seus vieses.

Mas Biden não fará isso. Ao invés, ele percebe, provavelmente corretamente, que a maioria das pessoas brancas nesse país de fato quer fanáticos armados e a cavalo patrulhando a fronteira. E ele está, talvez, disposto a apostar que essas pessoas estão dispostas a sofrer com um ocasional desconforto em relação à imagem dessas pessoas sendo chicoteadas em um rio para que os “criminosos” fiquem fora do país.

Além disso, Biden provavelmente percebe que a maior parte do seu país não se importa com os haitianos. O Haiti é lar da única exitosa revolta de escravos contra potências europeias na história mundial, e os EUA nunca os deixaram parar de pagar por isso. Nossa postura mais recente para com a ilha foi uma de embargo econômico e isolamento seguidos de invasão e apoio a ditadores. Mesmo agora na era moderna as atrocidades cometidas contra o povo haitiano pela comunidade internacional são muitas. Os EUA cercaram e aprisionaram haitianos em Guantánamo no primeiro “campo do HIV” do mundo. A ONU infectou a ilha com cólera após o terremoto de 2010, e então acobertou tudo. Esse tratamento, infelizmente, não é novo para as relações EUA-Haiti. Mas eu te prometo que os EUA não estariam espancando cubanos em um rio se o seu presidente tivesse acabado de ser assassinado. Eu te prometo que não estaríamos deportando pessoas islandesas aos montes se a sua ilha tivesse sofrido um desastre geológico.

Biden alegou que ele era melhor que isso, que nós éramos melhores que isso. Então, eu pergunto novamente: quando a administração Biden pretende parar de chicotear imigrantes? De algum modo, a resposta não era “20 de janeiro” ou até mesmo “semana passada”, então essa é uma pergunta justa. A resposta é “semana que vem”? Nas festas de final de ano? Somente se o Senado concordar? Eu acredito que temos o direito de saber quando a administração Biden pretende seguir com as suas promessas de campanha de “não ser cuzões desumanos na fronteira”.

É fácil pedir mais tempo para “reconstruir melhor” por detrás de um púlpito na Casa Branca. É fácil dizer, não é isso que a administração “Biden-Harris” é. Eu desafio os defensores de Biden a fazerem as mesmas afirmações sobre quem somos enquanto estão de peito aberto, mergulhados no Rio Grande.

*Publicado originalmente em 'The Nation' | Tradução de Isabela Palhares



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