Pelo Mundo

Bush: +4

11/02/2005 00:00

Eric Draper/Casa Branca

Créditos da foto: Eric Draper/Casa Branca

Este início do ano propiciou dois documentos notáveis sobre a futura orientação da política externa do segundo mandato da Administração Bush. O discurso ( já denominado “Discurso da Liberdade”) de posse e a fala anual da presidência da República, no último dia 3 de fevereiro – o “State of the Union” – permitem traçar os objetivos e as características da nova (nova?) Administração americana. No discurso do “Estado da União” repetiram-se largamente os temas batidos na fala de posse, centrada na caracterização dos EUA - e aí assentaria sua originalidade histórica – como o país da liberdade.

Nada novo. Desde da sua fundação – um ato de rebeldia perante um poder que se mostrava tirano – os homens públicos e os intelectuais americanos imbuíram-se da caracterização do país como a terra da oportunidade, das realizações e das grandes transformações – tudo isso constituindo-se no âmago do “sonho americano”. Um povo livre, numa terra livre – no qual os grandes horizontes abertos (a fronteira) presentes nos épicos westerns de cineastas como Huston ou Ford são, talvez, uma das mais belas imagens. De época em época os americanos foram confrontados com a imperiosidade de partilhar com outros povos essa sua liberdade, mesmo com grandes sacrifícios, como na luta contra os fascismos.

Em nome dessa missão, constituíram-se no século 20 dois grandes eixos de ação externa americana. Ambos eram baseados em um forte intervencionismo, contrários ao tradicional “isolacionismo”. De um lado, homens que entendiam ser necessário impor “liberdade” americana através do braço armado, buscando a felicidade dos povos, com ou sem a aprovação destes mesmos povos. Foi assim com Theodore Roosevelt, entre 1901 e 1908, (com o intervencionismo na América Central e Caribe), com Harry Truman, 1945-1953 (com a chamada Doutrina Truman, formulação da política externa americana na Guerra Fria), e Lyndon Johnson, 1963-1968 (no Vietnã).

Eram intervencionistas que não se inibiram perante o uso do poderio militar americano como expressão da “exportação” da liberdade americana. Um segundo grupo de ações, com outros presidentes, embora como a mesma crença na singularidade dos EUA e na sua decorrente missão de exportar a liberdade, buscaram os mesmos objetivos através da combinação de força e diplomacia. Formularam, para isso, grandes alianças e mecanismos internacionais de amparo aos seus objetivos. Foi assim com Woodrow Wilson, 1913-1921 ( na Primeira Guerra Mundial ), Franklin Roosevelt, 1933-1945 (na Segunda Guerra Mundial), George Bush, 1989-1993 ( pai, na Primeira Guerra do Iraque, em 1991) e Bill Clinton, 1993-2001(usando ora a ONU, ora a Otan, por exemplo, na ex-Iugoslávia ).

A atual Administração americana encaixa-se no primeiro grupo: consideram o fato de serem homens livres, num país livre uma missão que devem repartir com todo o planeta. Sua opção de modus operandi, contudo, distancia-se daqueles presidentes que no século 20 construíram, com grandes sacrifícios, mecanismos estáveis em prol da liberdade no mundo. Roosevelt, durante a Segunda Guerra Mundial – citado nominalmente por Bush como exemplo – liderou aliados, tais como a Inglaterra, o Brasil ou a URSS.

Buscou, para isso, amplos mecanismos de consulta e de respeito às características e à natureza dos regimes “aliados” (uma monarquia parlamentar, na Inglaterra; uma ditadura personalista, no Brasil, e um regime comunista, na Rússia). Como antes o fizera W. Wilson, entendeu a complexidade do mundo e que exigências de imposição de regimes ou sua mudança só acarretariam mais dor e sofrimento. Ambos, Wilson e Roosevelt, optaram por grandes arquiteturas mundiais para a manutenção da paz e a punição de países que violassem a lei internacional, através de mecanismos multinacionais como a Liga das Nações e a ONU.

De tais idéias – com uma longa genealogia, quase sempre enraizada nas idéias contidas no opúsculo Paz Perpétua, I. Kant – surgiram pelas mãos de Wilson, com a Liga das Nações, e de Roosevelt, com a ONU, longos períodos de paz (ou ao menos de ausência de guerras). Somente ditadores brutais, como Mussolini e Hitler, quebraram a Liga das Nações e, hoje, só o erro de fundação da ONU – o direito de veto – permite que países desobedeçam as suas resoluções.

Ora, nos dois importantes discursos de George Bush, nesse inicio de 2005, destaca-se uma importante ausência: a ONU. Embora em ambas as falas o presidente tenha se referido a coalizões mundiais pela liberdade e contra o terrorismo, em nenhum momento buscou respaldo ou mecanismos de ação na maior assembléia do mundo. Em perfeita contra-mão com as aspirações mundiais – desde Estados como Alemanha, Brasil ou Índia até as mais diversas ONGs – que pedem a reforma e o fortalecimento da ONU, Bush não se comprometeu, ou mesmo se referiu, a qualquer uma das diversas propostas de reforma hoje existentes.

Foi como se o organismo mundial não existisse.

Mas, seguidamente, Bush falou em organizar coalizões pela liberdade, substituindo-se à própria ONU e ao seu Conselho de Segurança. Ou seja, tratou-se da manutenção da política já formulada no primeiro mandato de coalizões à la carte – na expressão de “Condi” Rice – ou seja, conforme a crise, forma-se a coligação – sem recurso à ONU. Assim, nenhum mecanismo ou arquitetura mundial de caráter permanente “limitaria” a ação soberana dos EUA.

Da mesma forma, a luta internacional contra o terrorismo – “(...) do qual alguns líderes continuam em liberdade”, aparentemente referindo-se a Bin Laden e ao Mulá Omar concedeu Bush humildemente! – permanece como o eixo central da ação americana. Suas causas e motivações são auto-referidas: “eles nos odeiam porque os EUA são o país da liberdade”, afirmou Bush. Nada foi dito sobre o apoio a regimes corruptos no mundo muçulmano (como Arábia Saudita ou Egito, onde brutais ditaduras são mantidas com apoio financeiro e militar americano), a exploração dos recursos naturais ou a imposição de tropas e valores estranhos a povos distantes.

Da mesma forma, o trágico conflito israelo-palestino só mereceu atenção como mais uma vitória americana pela realização das eleições pós-Arafat. Na verdade, em relação a Palestina, Bush inverteu brilhantemente os termos da equação: declarou a construção de um regime liberal-representativo na Palestina o seu objetivo central, esquecendo-se que a paz é a condição prévia para a reconstrução dos territórios ocupados. Tal inversão de procedimentos – exigindo do fantasmático regime da Autoridade Nacional Palestina que ponha fim ao terrorismo e construa uma democracia – trabalha em favor dos objetivos mais ultranacionalistas de Sharon e do Likud. Adia a assinatura de um tratado de paz e da criação de um Estado-Nacional para uma data indefinida, como coroamento da instauração da democracia.

Por fim, nos termos do discurso de posse, Bush nomeou, ainda uma vez, os chamados “postos avançados” da tirania: Zimbábue, Bielorússia, Irã, Cuba, Síria e Coréia do Norte, além, é claro, de não poupar Hugo Chávez, da Venezuela.

Para estes países deixou claro – como já o fizera “Condi” Rice ao ser sabatinada no Congresso – que a liberdade é uma exigência básica para o convívio com os EUA (mais uma vez silêncio em relação ao Paquistão, Egito, Arábia Saudita ou Tailândia, tremendas ditaduras aliadas aos EUA – e que não descartaria o uso da força para instaurar a liberdade nestes países.

Aqui surge um dado novo, talvez, algo que venha a caracterizar claramente a política externa americana nos próximos anos: os EUA assumem a responsabilidade de definir quais os regimes são “democráticos” e quais são “tiranias”. Assim, a Síria ou a Venezuela (sic!), são “tiranias”, enquanto a Arábia Saudita e a Tailândia são “democráticos”.

Num apelo típico dos tempos da Guerra Fria, Bush conclamou os povos oprimidos à rebelião, aos quais saberia ir em resposta. Assim, de forma aberta e clara, os EUA assumem uma política externa baseada na imperiosidade da mudança de regimes estrangeiros que não obedeçam a critérios emanados de Washington, sem consulta a qualquer mecanismo internacional.

* Francisco Teixeira é professor titular de História Moderna e Contemporânea da Universidade do Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).



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