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CIA, sob comando de Trump, avaliou sequestrar ou assassinar Assange

''O governo Biden deve retirar as acusações contra Assange imediatamente''

27/09/2021 18:13

O editor do WikiLeaks, Julian Assange, mostra uma cópia do jornal The Guardian em 26 de julho de 2010 em Londres. (Peter Macdiarmid/Getty Images)

Créditos da foto: O editor do WikiLeaks, Julian Assange, mostra uma cópia do jornal The Guardian em 26 de julho de 2010 em Londres. (Peter Macdiarmid/Getty Images)

 
Sob a liderança do então diretor Mike Pompeo, a CIA em 2017 supostamente planejou sequestrar - e discutiu planos para assassinar - o fundador e editor do WikiLeaks Julian Assange, que atualmente está preso em Londres enquanto luta contra os esforços do governo Biden para extraditá-lo para os Estados Unidos.

Citando conversas com mais de 30 ex-funcionários públicos dos EUA, o Yahoo News informou no domingo que "as discussões sobre o sequestro ou assassinato de Assange ocorreram 'nos níveis mais altos' do governo Trump."

De acordo com o Yahoo:

"As conversas faziam parte de uma campanha sem precedentes da CIA dirigida contra o WikiLeaks e seu fundador. Os planos multifacetados da agência também incluíam extensa espionagem de associados do WikiLeaks, bem como semear discórdia entre os membros do grupo e roubar seus dispositivos eletrônicos.

Embora Assange tenha estado no radar das agências de inteligência dos EUA por anos, esses planos para uma guerra total contra ele foram desencadeados pela publicação contínua do WikiLeaks de ferramentas de hacking da CIA extremamente sensíveis, conhecidas coletivamente como 'Vault 7', que a agência em última análise concluiu representar "a maior perda de dados na história da CIA.

O recém-empossado diretor da CIA do presidente Trump, Mike Pompeo, buscava vingança contra o WikiLeaks e Assange, que tinha se refugiado na Embaixada do Equador desde 2012 para evitar a extradição para a Suécia por acusações de estupro negadas por ele. Pompeo e outros líderes da agência 'estavam completamente fora da realidade porque estavam muito envergonhados com o Vault 7', disse um ex-oficial de segurança nacional de Trump. 'Eles estavam vendo sangue'."

As reportagens do Yahoo deixam claro que Assange não é o único jornalista que as autoridades norte-americanas tentaram atingir nos últimos anos. Durante a presidência de Obama, de acordo com o Yahoo, “altos funcionários da inteligência pressionaram a Casa Branca para redefinir o WikiLeaks - e alguns jornalistas de alto nível - como 'corretores (brokers) de informação', o que teria tornado possível o uso de mais ferramentas investigativas contra eles, potencialmente pavimentando o caminho para a serem processados".

"Entre os jornalistas que alguns oficiais dos EUA queriam designar como 'corretores de informações' estavam Glenn Greenwald, então colunista do The Guardian, e Laura Poitras, uma documentarista, que foram fundamentais na publicação de documentos fornecidos por Snowden", Relatou o Yahoo.

Em um comunicado ao Yahoo, Poitras chamou os esforços dos funcionários da inteligência de "aterrorizantes e uma ameaça aos jornalistas de todo o mundo".


Legenda do tuíte de Snowden: “Se você é jornalista, norte-americano ou não, precisa entender que fechar os olhos a essa história move o mundo inteiro em direção a um paradigma onde a criminalização do jornalismo é uma rotina. Você tem que falar sobre isso aqui. Leia a fonte.

Trevor Timm, diretor executivo da Freedom of the Press Foundation, disse em um comunicado que "essas novas revelações, que envolvem um chocante desrespeito à lei, estão realmente além dos limites de comportamento aceitável".

"A CIA é uma vergonha", disse Timm. “O fato de a Agência ter contemplado e se envolvido em tantos atos ilegais contra o WikiLeaks, seus associados e até mesmo outros jornalistas premiados é um escândalo total que deveria ser investigado pelo Congresso e pelo Departamento de Justiça. O governo Biden deve retirar suas acusações contra Assange imediatamente. O caso já ameaça os direitos de inúmeros repórteres”.


Legenda do tuíte de Trevor Timm: “Você realmente tem que ler toda esta investigação bem relatada para acreditar. Comportamento verdadeiramente terrível da CIA envolvendo sequestros ilegais e planos de assassinato. O governos Biden precisa retirar suas acusações contra Assange imediatamente.”

O Departamento de Justiça de Trump acusou Assange de 17 violações da Lei de Espionagem por publicar documentos confidenciais, algo que os jornalistas fazem com frequência. Apesar dos apelos urgentes dos defensores da liberdade de imprensa, o governo Biden tem se recusado a retirar as acusações e tem continuado a tentativa de seu antecessor de extraditar o fundador do WikiLeaks.

Como Poitras escreveu em um artigo de opinião para o New York Times no ano passado, "É impossível exagerar o perigo do precedente aberto pela acusação de Assange sob a Lei de Espionagem e possíveis cenários de extradição: todos os jornalistas de segurança nacional que relatam informações confidenciais agora enfrentam possíveis acusações da Lei de Espionagem."

"Isso abre o caminho para o governo dos Estados Unidos indiciar outros jornalistas e editores internacionais. E normaliza a acusação de outros países a jornalistas dos Estados Unidos como espiões", observou Poitras. "Para reverter esse precedente perigoso, o Departamento de Justiça deve retirar imediatamente essas acusações e o presidente deve perdoar o Sr. Assange."

*Publicado originalmente em 'Common Dreams' | Tradução de César Locatelli

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