Pelo Mundo

De Cabul ao Rio Grande, os EUA criam as crises de refugiados

 

14/09/2021 10:57

Evacuados embarcam em um C-17 Globemaster III da Força Aérea dos EUA no Aeroporto Internacional Hamid Karzai em Cabul, Afeganistão (MSgt Donald R Allen/AP/Shutterstock/Shutterstock)

Créditos da foto: Evacuados embarcam em um C-17 Globemaster III da Força Aérea dos EUA no Aeroporto Internacional Hamid Karzai em Cabul, Afeganistão (MSgt Donald R Allen/AP/Shutterstock/Shutterstock)

 
Há tempos os Estados Unidos se intitulam como um porto seguro para refugiados que estão fugindo de guerras e perseguições no exterior. A atual saída dos EUA do Afeganistão é, na realidade, prova disso, com bem mais de 100.000 pessoas evacuadas pelos EUA desde meados de agosto. Mesmo com essa retirada histórica, a administração Biden está sendo implacavelmente criticada. A retirada continuou mesmo após um bombardeio suicida duplo nos portões do aeroporto de Cabul que mataram, ao menos, 90 afegãos e 13 oficiais estadunidenses, ferindo ao menos 140.

Outro êxodo está acontecendo do outro lado do mundo ao passo que pessoas fugindo da América Central e buscando asilo percorrem a perigosa jornada para a fronteira dos EUA com o México. Lá, elas enfrentam políticas imigratórias estadunidenses draconianas que as forçam a “Permanecer no México”. Parecido com os civis afegãos pegos no fogo cruzado da guerra de 20 anos, esses migrantes vivem em perigo constante em campos de refugiados improvisados nas cidades mexicanas fronteiriças, esperando por uma chance de receber asilo nos Estados Unidos.

A culpa pelo caos enquanto afegãos aliados aos EUA se embaralham para fugir de sua nação destruída pela guerra, é, principalmente, da administração anterior e de Stephen Miller, braço direito e conselheiro racista e xenofóbico do presidente Trump.

Olivia Troye, que foi assessora do vice-presidente Mike Pence, tuitou recentemente:

“Tiveram reuniões de gabinete sobre isso durante a admin Trump, nas quais Stephen Miller vendia sua histeria racista sobre o Iraque & Afeganistão. Ele e seus facilitadores no governo prejudicavam qualquer um que trabalhasse para resolver a questão do SIV [Visto Imigratório Especial] devastando o sistema no DHS & no Estado...Trump teve 4 anos...para evacuar esses aliados afegãos que eram cordas de segurança para muitos de nós que passaram algum tempo no Afeganistão. Eles estavam esperando há muito tempo. O processo desacelerou para revisões/outras “prioridades”- e então foi paralisado.”

Miller também elaborou os “Protocolos de Proteção Migrante”, ou MPP, mais conhecidos como a política “Permaneça no México”. A Human Rights First recentemente divulgou um relatório, “Entregues ao Perigo”, que documentou “ao menos 1.544 casos publicizados de assassinato, estupro, tortura, sequestro e outros ataques violentos contra migrantes e pessoas que buscam asilo e que são forçados a retornar ao México pela administração Trump”, um apêndice de 97 páginas acompanha o relatório, listando os crimes com detalhes de arrepiar.

No dia da sua posse, o presidente Biden divulgou diversas ordens executivas incluindo uma revogação da ordem executiva anti-imigrante que Trump lançou em sua primeira semana no cargo em 2017. O Departamento Nacional de Segurança imediatamente suspendeu o registro de migrantes no programa MPP. Em resposta, os estados do Texas e do Missouri processaram a administração Biden, e em 13 de agosto, Matthew Kacsmaryk, um juiz federal texano, apontado por Trump, decretou que a Casa Branca devia imediatamente reimplementar a política “Permaneça no México”.

O Departamento de Justiça apelou, e, dentro de duas semanas, um tribunal de apelação de três juízes confirmou a decisão do tribunal de primeira instância. Dois desses três juízes eram indicações de Trump: Andrew Oldham, que tinha apenas 39 quando aceitou o cargo em 2018, e Cory Wilson, que tem agora 51. Ambos são ideólogos ferozes de direita. Um pedido de suspensão à espera de litígio foi rapidamente rejeitado pela Suprema Corte por 6 a 3.

Enquanto a administração Biden luta para encerrar o MPP contra um judiciário federal lotado de indicações de Trump, ela ainda utiliza a “Título 42”, primeiramente utilizada por Trump, permitindo deportações e banimentos a imigrações em tempos de emergências de saúde pública. A CDC de Trump divulgou o decreto Título 42 em março de 2020 enquanto a pandemia varria o mundo, e Biden o renovou em 2 de agosto.

O governo estadunidense relatou um recorde de 210.000 apreensões de migrantes ao longo da fronteira sulista em julho. Muitas dessas pessoas vêm do chamado “Triângulo do Norte”, países como El Salvador, Honduras, e Guatemala, onde a desigualdade disseminada, a corrupção sistêmica, insegurança alimentar, violência de gangues e, agora, a mudança climática estão forçando as pessoas a fugirem de suas casas. Esses problemas há tempos são exacerbados pelo exército dos EUA, e por intervenções políticas e econômicas na região.

Os EUA entraram em “guerras sujas” na América Central e apoiam golpes contra governos democraticamente eleitos nesses locais, como a derrubada do presidente Jacobo Arbenz na Guatemala em 1954 e o apoio ativo ao golpe contra o presidente Manuel Zelaya em Honduras em 2009.

Da mesma maneira, os EUA armaram e apoiaram os mujahideen afegãos em sua guerra contra a União Soviética. Muitos desses mujahideen armados então miraram suas armas estadunidenses para os EUA. Isso levou à desastrosa e longa guerra, com centenas de milhares mortos e milhões desalojados e deslocados.

Os EUA têm a responsabilidade de fornecer porto seguro para os refugiados do Afeganistão, da América Latina ou de outros lugares, e de encerrar as intervenções que alimentam essas crises e desalojam tantas pessoas.

*Publicado originalmente em 'Democracy Now!' | Tradução de Isabela Palhares



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