Pelo Mundo

Dívida e forças-tarefa

No modelo neoliberal do macrismo, a institucionalidade e a economia da Argentina seriam dependentes do suporte dos Estados Unidos, da blindagem midiática e dos aparatos de inteligência para perseguir politicamente os opositores

09/01/2022 11:50

(Reprodução/La Tecla Eñe)

Créditos da foto: (Reprodução/La Tecla Eñe)

 
Quando as relações de poder na Argentina são analisadas estruturalmente, se observam linhas de continuidade indiscutíveis. O liberalismo instalado no país na Década de 1980, atribuído desde cedo à tradição econômica neoclássica, foi um dos episódios do processo de introdução desse modelo a ferro e fogo na América Latina.

O outro caso conhecido é o do Chile, onde a ditadura criminosa de Augusto Pinochet, desde 1973, fundou as bases do que se conhece hoje como neoliberalismo. Esse projeto chegou na Argentina três anos, também graças a uma ditadura, e orientado pelo ministro José Alfredo Martínez de Hoz. Em ambos os casos, a implementação do modelo exigia repressão genocida. Na Argentina, houve 30 mil opositores sequestrados e desaparecidos, em nome da instalação do programa econômico exigido por Washington.

Desde 1976, a lógica neoliberal se estabeleceu como verdade econômica e política entre os setores dominantes. A razão subjacente estava ligada à necessidade de quebrar as capacidades organizacionais dos trabalhadores e suas expressões políticas. A grade neoliberal desregulamentou a dimensão financeira para permitir a sobrevivência especulativa de grupos concentrados, livres do vínculo com a classe trabalhadora.

Reproduziu-se um discurso, a partir do último terço do Século XX, com o claro objetivo de desvincular os trabalhadores da produção de riqueza: as grandes fortunas têm o direito de saciar sua sede de privilégios e de lucratividade obtidos através da especulação financeira. Esse cenário teve efeitos colaterais: o aumento do desemprego, o enfraquecimento dos sindicatos e a multiplicação dos indicadores de pobreza, de marginalização e de indigência.

O capitalismo neoliberal buscou – e conseguiu – tirar o poder dos trabalhadores por meio do aumento da precarização do emprego. Quanto maior o nível de desemprego, menor a capacidade de negociação salarial dos referentes sindicais.

Mas as classes dominantes na Argentina sempre almejaram fazer parte do mundo ocidental e cristão, com sede em Miami. Para maximizar seus lucros, eles não só conseguiram limitar os aumentos de salários e das condições de trabalho, mas também buscaram arduamente a dolarização. Para capitalizar essa moeda estrangeira, aderiram ao desejo de longa data do exílio das suas riquezas, e para isso escolheram dois caminhos: ou a absorção das divisas provenientes das exportações, ou a obtenção de créditos externos, sejam eles privados ou de organismos multilaterais, como como o FMI (Fundo Monetário Internacional).

O endividamento permitiu que essa elite se abocanhasse os dólares assim que eles entraram, já que eram os integrantes desse setor social os que tinham mais pesos para trocar. A desregulamentação financeira promovida pelo governo graças à lógica neoliberal foi a autorização que a elite precisava para que essa ação não tivesse limites, e assim ela esvaziou os cofres e se apropriou dos recursos que deveriam servir prioritariamente para o desenvolvimento industrial e para adquirir suprimentos médicos que a Argentina não produz.

Os valores dos ciclos da dívida coincidem com as receitas das exportações ou das linhas de crédito. Nestes últimos 50 anos, as elites argentinas funcionaram como um grande aspirador de riqueza social acumulada, e com a particularidade de que essa riqueza não permaneceu na economia local, transformada em investimento produtivo, mas foi parar em paraísos fiscais.

Ademais, os créditos adquiridos pelo governo de Mauricio Macri – que deixou ao atual presidente, Alberto Fernández, uma gigantesca dívida a ser paga – não foram usados %u20B%u20Bapenas para fuga de capitais de grandes grupos econômicos. Também serviram para garantir o controle externo da economia, impondo uma dinâmica na qual, por um lado, o Departamento de Estado e o FMI podem do país os ajustes fiscais que atendem aos interesses geopolíticos dos países centrais, e por outro, os grandes grupos econômicos locais e as grandes corporações internacionais unem os seus poderes para atuar pelo enfraquecimento do Estado e evitar que este reúna força suficiente para regulá-los.

Os ajustes fiscais também são convenientes por seu efeito de redução do investimento social, proporcionando uma oferta de trabalho mais precária e barata para esses mesmos empresários. Por fim, permitem configurar o poder a serviço do mercado, dificultando o papel do Estado como locomotiva do desenvolvimento, e as intenções de Fernández de recuperar um projeto nacional e popular que, antes dele, e durante mais de meio século, diferentes movimentos políticos tentam aplicar na Argentina.

Existe uma correlação indiscutível entre os interesses de Washington e os grupos locais concentrados. Esses dois polos concordam com a necessidade de sufocar qualquer forma de soberania que permita o fim desta ordem mundial adequada à reprodução das desigualdades. Esta é a razão pela qual ocorreram genocídios na América Latina. A razão pela qual o neoliberalismo – em sua última versão macrista – institucionalizou a perseguição judicial de líderes políticos, permitindo a criação de forças-tarefa montadas por agentes de inteligência e promovendo prisões preventivas sem precedentes.

Martín Guzmán, ministro da Economia da Argentina, afirmou esta semana que, para estender o prazo de pagamento da dívida adquirida por Macri, o FMI exige que o governo reduza o déficit e faça um acordo com a oposição. Em relação ao primeiro ponto, não parece haver uma aceitação à essa ideia por parte de várias lideranças dentro da coalizão governista Frente de Todos, e menos ainda entre seus militantes e eleitores. Em relação ao segundo item, a oposição (neoliberal) está em um dilema: ou reconhece sua responsabilidade ao adquirir a dívida e apoia o governo, ou sabota qualquer acordo, visando forçar uma moratória e a desestabilização do governo – e conta com a ajuda da mídia para instalar o relato de que a direita neoliberal não tem nada a ver com a dívida, embora ela tenha sido criada por seu presidente, Mauricio Macri.

A primeira opção supõe, como se observou na semana passada, um confronto entre o partido macrista PRO e a União Cívica Radical – partido social democrata, liderado no passado por Raúl Alfonsín, mas que apoiou Macri nas duas últimas eleições presidenciais.

A segunda opção envolve o risco de terminar fortalecendo a Frente de Todos, no caso de o governo de Fernández conseguir aproveitar um cenário latino-americano mais alinhado com a CELAC (Comunidade de Estados da América Latina e do Caribe).

Em 2022, a Argentina tem vencimentos com o FMI de cerca de 3,98 bilhões de dólares, além de 2 bilhões a serem pagos ao Clube de Paris e 693 milhões a credores privados. O Banco Central não possui reservas suficientes para cobrir todas essas obrigações.

Diante desse cenário, o país voltará a uma encruzilhada já conhecida. Terá que decidir entre ceder à supremacia estrangeira ou apostar na sua própria soberania e na vontade do povo de relançar o projeto nacional.

Existe uma linha de continuidade entre os economistas neoliberais que passaram por diferentes governos: José Alfredo Martínez de Hoz (ditadura), Domingo Cavallo (Menem) e Nicolás Dujovne (Macri). O vínculo que os une explica a conexão espúria que articula o endividamento com as forças-tarefa. São as duas faces da mesma moeda, que visa impedir a realização de um projeto popular democrático e de inclusão social.

*Publicado originalmente em 'La Tecla Eñe' | Tradução de Victor Farinelli



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