Pelo Mundo

EUA lançam uma média diária de 46 bombas: por que o mundo haveria de nos ver como uma força de paz?

Os Estados Unidos lançaram pelo menos 337 mil bombas e mísseis em 20 anos, e agora se fazem de chocados com a Rússia

11/01/2022 17:31

Moradores afegãos e familiares das vítimas se reúnem ao lado de um veículo danificado dentro de uma casa, um dia após um ataque aéreo dos EUA em Cabul em 30 de agosto de 2021. (WAKIL KOHSAR/AFP via Getty Images)

Créditos da foto: Moradores afegãos e familiares das vítimas se reúnem ao lado de um veículo danificado dentro de uma casa, um dia após um ataque aéreo dos EUA em Cabul em 30 de agosto de 2021. (WAKIL KOHSAR/AFP via Getty Images)

 

O Pentágono finalmente publicou seu primeiro Resumo do Poder Aéreo [Airpower Summary], desde que o presidente Biden assumiu o cargo há quase um ano. Esses relatórios mensais são publicados desde 2007 para documentar o número de bombas e mísseis lançados pelas forças aéreas lideradas pelos EUA no Afeganistão, Iraque e Síria desde 2004. Mas o presidente Trump parou de publicá-los depois de fevereiro de 2020, encobrindo os bombardeios dos EUA.

Nos últimos 20 anos, conforme documentado na tabela abaixo, as forças aéreas norte-americanas e aliadas lançaram mais de 337.000 bombas e mísseis em outros países. Isso significa uma média de 46 ataques por dia durante 20 anos. Esses bombardeios sem fim, além de mortais e devastadores para suas vítimas, têm o efeito, amplamente reconhecido, de minar seriamente a paz e a segurança internacionais e diminuindo a posição dos Estados Unidos no mundo.

O governo e o establishment político dos EUA têm sido notavelmente bem-sucedidos em manter o público norte-americano no escuro sobre as terríveis consequências dessas campanhas de destruição em massa de longo prazo, permitindo-lhes manter a ilusão do militarismo dos EUA como uma força para o bem no mundo em sua retórica política interna.

Agora, mesmo diante da tomada do Talibã no Afeganistão, eles estão redobrando a aposta em seu sucesso ao vender essa narrativa contrafactual ao público norte-americano para reacender sua antiga Guerra Fria com a Rússia e a China, aumentando dramaticamente e previsivelmente o risco de uma guerra nuclear.

Os novos dados do Resumo revelam que os Estados Unidos lançaram outras 3.246 bombas e mísseis no Afeganistão, Iraque e Síria (2.068 sob Trump e 1.178 sob Biden) desde fevereiro de 2020.

A boa notícia é que o bombardeio dos EUA nesses três países diminuiu significativamente em relação às mais de 12.000 bombas e mísseis lançados sobre eles em 2019. De fato, desde a retirada das forças de ocupação dos EUA do Afeganistão em agosto, os militares dos EUA não realizaram nenhum ataque aéreo lá e apenas lançaram 13 bombas ou mísseis no Iraque e na Síria – embora isso não assegure que ataques adicionais não relatados, por forças sob comando ou controle da CIA, possam ter ocorrido.

Trump e Biden merecem crédito por reconhecer que bombardeios e ocupações sem fim não levariam à vitória no Afeganistão. A velocidade com que o governo instalado pelos EUA caiu diante do Talibã, uma vez que a retirada dos EUA estava em andamento, confirmou que 20 anos de ocupação militar hostil, bombardeio aéreo e apoio a governos corruptos serviram apenas para levar o povo exaurido pela guerra do Afeganistão de volta ao governo talibã.

A decisão insensível de Biden de seguir 20 anos de ocupação colonial e bombardeio aéreo no Afeganistão com o mesmo tipo de guerra de cerco econômico brutal que os Estados Unidos têm infligido a Cuba, Irã, Coreia do Norte e Venezuela só faz desacreditar ainda mais os EUA aos olhos do mundo.

Não houve responsabilização por esses 20 anos de destruição sem sentido. Mesmo com a publicação dos Resumos do Poder Aéreo a terrível realidade das guerras de bombardeio dos EUA e as baixas em massa que elas infligem permanecem em grande parte escondidas do povo norte-americano.

Antes de ler esse artigo você estava ciente de quantos dos 3.246 ataques documentados no Resumo desde fevereiro de 2020? Você provavelmente já ouviu falar sobre o ataque por um drone que matou 10 civis afegãos em Cabul em agosto de 2021. Mas e as outras 3.245 bombas e mísseis? Quem eles mataram ou mutilaram, e de quem são as casas que eles destruíram?

A revelação do New York Times, em dezembro de 2021, sobre as consequências dos ataques aéreos dos EUA, resultado de uma investigação de cinco anos, foi impressionante não apenas pelo alto número de baixas civis e mentiras militares que expôs, mas também porque evidenciou a escassez de reportagens investigativas levadas a cabo pela mídia dos EUA nestas duas décadas de guerra.

Nas guerras aéreas industrializadas realizadas por controle remoto, até mesmo o pessoal militar dos EUA mais direta e intimamente envolvido está protegido do contato humano com as pessoas cujas vidas estão destruindo. Ao mesmo tempo, para a maioria do público norte-americano, é como se essas centenas de milhares de explosões mortais nunca tivessem acontecido.

A falta de conscientização pública dos ataques aéreos dos EUA não é resultado da falta de preocupação com a destruição em massa que nosso governo comete em nossos nomes. Nos raros casos que descobrimos, como o ataque assassino de drones em Cabul em agosto, o público quer saber o que aconteceu e apoia fortemente a responsabilização dos EUA pelas mortes de civis.

Assim, a ignorância pública de 99% dos ataques aéreos dos EUA e suas consequências não é resultado da apatia pública, mas de decisões deliberadas dos militares dos EUA, dos políticos de ambos os partidos e da mídia corporativa para manter o público no escuro. A supressão de 21 meses, em grande parte despercebida, dos Resumos do Poder Aéreo mensais é apenas o exemplo mais recente disso.

Agora que o novo Resumo preencheu os números anteriormente ocultos para 2020-21, aqui estão os dados mais completos disponíveis sobre 20 anos de ataques aéreos mortais e destrutivos dos EUA e aliados.

Números de bombas e mísseis lançados em outros países pelos Estados Unidos e seus aliados desde 2001. (Tabela por Medea Benjamin e Nicolas JS Davies)



Total Geral = 337.055 bombas e mísseis.

Outros países: Líbano, Líbia, Paquistão, Palestina, Somália.

Esses números são baseados

- nos Resumos do Poder Aéreo dos EUA para o Afeganistão, Iraque e Síria;

- na contagem do Bureau of Investigative Journalism de ataques de drones no Paquistão, Somália e Iêmen;

- na contagem do Yemen Data Project de bombas e mísseis lançados no Iêmen (até setembro de 2021);

- no banco de dados da New America Foundation de ataques aéreos estrangeiros na Líbia e

- em outras fontes.

Existem várias categorias de ataques aéreos que não estão incluídas nesta tabela, o que significa que os números reais de armas lançadas são certamente maiores. Entre os ataques excluídos estão:

- Ataques por de helicóptero: O Military Times publicou um artigo de fevereiro de 2017 intitulado: "As estatísticas dos militares dos EUA sobre ataques aéreos mortais estão erradas. Milhares não foram relatados." O maior conjunto de ataques aéreos não incluídos nos Resumos do Poder Aéreo são os ataques de helicópteros de ataque. O Exército disse aos autores da matéria que seus helicópteros realizaram 456 ataques aéreos não relatados no Afeganistão em 2016. Os autores explicaram que a não notificação de ataques de helicópteros foi consistente ao longo das guerras pós-11 de setembro, e eles ainda não sabiam quantos mísseis foram disparados nesses 456 ataques no Afeganistão no ano que investigaram.

- Caças AC-130: Os militares dos EUA não destruíram o hospital dos Médicos Sem Fronteiras em Kunduz, no Afeganistão, em 2015 com bombas ou mísseis, mas com um caça Lockheed-Boeing AC-130. Essas máquinas de destruição em massa, geralmente tripuladas pelas forças de operações especiais da Força Aérea, são projetadas para circundar um alvo no solo, despejando morteiros e tiros de canhão até que seja completamente destruído. Os EUA usaram AC-130 no Afeganistão, Iraque, Líbia, Somália e Síria.

- Fogo intenso: Os Resumos do Poder Aéreo de 2004 a 2007 trazem uma nota afirmando que sua contagem de "ataques com munições lançadas... não inclui canhões ou foguetes de 20 mm e 30 mm". Mas os canhões de 30 mm dos A-10 Warthogs e outros aviões de ataque ao solo são armas poderosas, originalmente projetadas para destruir tanques soviéticos. Os A-10 podem disparar 65 projéteis de urânio empobrecido por segundo para cobrir uma área com fogo mortal e indiscriminado. Mas isso parece não contar como "armas lançadas" pelos Resumos.

- Operações de "contrainsurgência" e "contraterrorismo" em outras partes do mundo: Os EUA formaram uma coalizão militar com 11 países da África Ocidental em 2005 e construíram uma base de drones no Níger, mas não encontramos nenhuma contabilidade sistemática de ataques aéreos dos EUA e aliados naquela região, nas Filipinas, na América Latina ou em outros lugares.

A falha do governo, dos políticos e da mídia corporativa dos EUA em informar e educar o público norte-americano sobre a sistemática destruição em massa causada pelas forças armadas de nosso país permitiu que essa carnificina continuasse em grande parte despercebida e sem controle por 20 anos.

Também nos deixou precariamente vulneráveis ao renascimento de uma narrativa anacrônica e maniqueísta da Guerra Fria que nos expõe ao risco de uma catástrofe ainda maior. Nesta narrativa de pernas para o ar, de uma realidade paralela, o país que realmente está reduzindo cidades a escombros e travando guerras que matam milhões de pessoas se apresenta como uma força bem-intencionada para o bem do mundo. Em seguida, pinta países como China, Rússia e Irã, que fortaleceram suas defesas em grande parte para impedir que os EUA os atacassem, como ameaças ao povo norte-americano e à paz mundial.

As conversações de alto nível que começam esta semana em Genebra, entre os EUA e a Rússia, são uma oportunidade crítica, talvez até uma última chance, para conter a escalada da atual Guerra Fria antes que esse colapso nas relações Leste-Oeste se torne irreversível ou se transforme em conflito militar.

Se quisermos emergir desse pântano de militarismo e evitar o risco de uma guerra apocalíptica com a Rússia ou a China, o público dos EUA deve desafiar a narrativa contrafactual da Guerra Fria que os líderes militares e civis norte-americano estão vendendo para justificar seus investimentos cada vez maiores em energia nuclear. armas e a máquina de guerra dos EUA.

Medea Benjamin, cofundadora do CODEPINK for Peace, é autora de "Inside Iran: The Real History and Politics of the Islamic Republic of Iran" e "Kingdom of the Unjust: Behind the U.S.-Saudi Connection".

Nicolas J. S. Davies é jornalista independente, pesquisador do CODEPINK for Peace e autor de "Blood on Our Hands: The American Invasion and Destruction of Iraq".

*Publicado originalmente por Salon | Tradução pode César Locatelli

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