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El Salvador: migrar ou morrer, a encruzilhada de milhares

 

08/10/2021 10:49

(Reprodução/El Nacional)

Créditos da foto: (Reprodução/El Nacional)

 
Tem que ir: o medo de qualquer insegurança se esvai diante da única e cruel certeza de um futuro sem mais opções, matar ou morrer. Assim, simples – e às vezes complexa – é a encruzilhada que a vida impõe em algum momento aos salvadorenhos.

O que pode dar errado? Qualquer coisa. E se der certo? E se chegamos aos Estados Unidos, burlamos a imigração e começamos a fazer dinheiro? Para levar um tiro não é preciso sair da colônia. Um simples equívoco pode ser uma sentença de morte.

Quem estuda o tema confirma que a violência cotidiana, com tudo e a diminuição nas médias diárias de homicídios, é o principal fator estimulante da migração irregular no chamado Triângulo Norte da América-Central (El Salvador, Guatemala e Honduras).

Houve um tempo em que os centroamericanos iam ao norte para se reunir com seus familiares que, anos atrás, fugiram do conflito armado (1980-1992), da precariedade econômica ou do assédio das primeiras gangues, surgidas justamente nos Estados Unidos.

Contudo, um fórum recente organizado pela organização Aliança Américas e pela Coordenadoria Regional de Investigações Econômicas e Sociais (Cries) assinalou que a insegurança passou a ser a primeira causa da migração irregular na região, e não mais a reunião familiar.

Há alguns anos foi iniciado um novo fenômeno, as chamadas “caravanas migratórias” convocadas sabe-se lá como, nascidas em San Pedro Sula, Honduras, ou na praça Salvador do Mundo, em El Salvador, e coordenadas para se reunirem na Guatemala e avançar em blocos até o norte.

Tais caravanas colocaram em xeque as autoridades da região e dos EUA, onde o então presidente Donald Trump liderava uma cruzada contra a migração, criminalizando com uma sanha peculiar, os provenientes do que ele chamava, sem pudor, de “lugares de merda”.

A política de “Tolerância Zero” foi um estandarte da administração Trump, com o famoso muro na fronteira com o México e a decisão de revogar o Status Temporário de Permanência de milhares de migrantes que escaparam de zonas de conflito, e que já tinham toda uma vida nos EUA.

Não obstante, a relação de Trump com o presidente Nayib Bukele era mais do que boa, talvez por suas características similares: eram dois “forasteiros” na política, extrovertidos, polêmicos e incendiários nas redes sociais, e as suas sintonias em temas migratórios não eram de se estranhar.

Na verdade, durante os meses finais do magnata novaiorquino na Casa Branca, foi imposto – e aceito – um acordo de terceiro destino seguro, segundo o qual El Salvador receberia os requerentes de asilo processados nos EUA. Joe Biden revogou o tratado ao assumir a presidência.

O problema, contudo, fica pior com o tempo.

AS DETENÇÕES AUMENTAM

Segundo a Agência de Controle Alfandegário e Proteção de Fronteiras dos EUA, um milhão e meio de migrantes centro-americanos foram detidos em 2021 tentando ingressar em território norte-americano, ou que já estavam dentro.

Até agora, quase 88 milhões de salvadorenhos foram interceptados, quase o triplo de três anos atrás, quando 37 mil migrantes dessa nação centro-americana chegaram aos limites fronteiriços norte-americanos em busca de melhores condições de vida, mas especialmente, de segurança.

Os detidos estão segmentados em menores não acompanhados, adultos solteiros e grupos familiares, já que o comportamento de cada um é diferente. Particularmente, machucam mais os casos dos milhares de menores que chegam sozinhos, vulneráveis e aterrorizados.

Desde abril do ano passado, quando os migrantes salvadorenhos superaram a barreira das 10 mil detenções mensais, o fluxo aumentou paulatinamente até chegar a 12 mil e 656 em agosto desse ano, de acordo com estatísticas oficiais.

Mas essa conta só inclui os que foram detidos. Quantos conseguiram entrar? Mais ainda, quantos entraram legalmente nos EUA, com visto de turismo ou estudo e decidiram não voltar? É difícil calcular a quantidade certa, mas não são poucos.

MIGRAÇÃO SOFISTICADA

É estimado que quase um terço dos 6.3 milhões de habitantes de El Salvador faça parte dos “irmãos distantes”, como chamam aqui a diáspora que praticamente mantém o país a golpe de remessas, e tornam a migração desse país a “mais sofisticada” da região.

Ao menos é o que diz a ativista Celia Medrano, investigadora do tema, que explicou o conceito a partir de comparações com outros países centro-americanos que compartilham cultura e motivações para migrar.

“Os salvadorenhos têm uma melhor articulação de redes de coiotes (traficantes de pessoas) e bases de apoio, sobretudo familiares e comunitárias nos EUA, bem como maior capacidade de pagamento em comparação, por exemplo, com haitianos e hondurenhos”, explicou a especialista.

Medrano observou que tais circunstâncias permitem aos salvadorenhos acessar vias de migração menos inseguras e mais efetivas.

Ainda assim, ainda que baste uma cédula de identidade para ingressar na Guatemala de forma legal, as pessoas cruzam as fronteiras pelos chamados “pontos cegos”, nas mãos da “coiotagem”, com a certeza de que um projeto de vida digno somente será possível fora do seu país.

De fato, em diálogo recente com o veículo Russia Today, Medrano considerou “uma ilusão” o suposto declínio nos números de migrantes, que a administração Bukele atribui às suas políticas públicas de combate à violência.

“Ver oficiais se gabando de que a diminuição da migração para os EUA é por causa do sucesso do Plano Controle Territorial, somente evidencia a falta de compreensão e entendimento das temáticas de mobilidade humana por parte desses oficiais”, afirmou.

VOLTAR PARA... CASA?

Bukele disse que uma das aspirações do seu governo é construir um país no qual valha a pena viver, com as condições básicas para que ninguém sinta necessidade de fugir, de se arriscar em busca de algo parecido com a vida que se sonha.

Tal perspectiva coincide com a ideia de Biden, que conseguiu a aprovação de um orçamento de quatro bilhões de dólares para programas de desenvolvimento local na América Central, focados em atacar a violência e a pobreza.

No entanto, analistas internacionais questionam se somente o dinheiro solucionará o problema, por causa da corrupção encrustada na região e o ressentimento com o Estado de direito, que causa dúvidas em relação à transparência e eficiência com as quais seriam usados tais fundos.

Assim, a zona entra em uma espécie de roda gigante fatal, com milhares de pessoas fugindo dos seus países e milhares sendo deportadas de volta para as mesmas – ou piores – condições que as forçaram a fugir.

Existem certas organizações não governamentais que atendem a muitos desses deportados, encontram empregos para eles, os representam e assessoram, mas a reintegração desses grupos não é fácil: se os que ficaram conseguem apenas trabalho, o que restará para os que se foram.

Além disso, a Agência das Nações Unidos para os Refugiados (Acnur) alertou sobre o problema dos deslocamentos internos de centenas de milhares de pessoas, vítimas de desastres naturais, da miséria, da insegurança, da violência e da discriminação.

Segundo a Acnur, 12% das solicitações de asilo em nível mundial foram feitas por cidadãos do Triângulo Norte da América-Central, onde cerca de noves milhões de pessoas sofrem com uma crescente insegurança alimentar.

El Salvador não escapa dessa realidade. Nem sequer a promessa de um futuro melhor, reiterada pelos porta-vozes do partido governante Nuevas Ideas, freou o aumento que teve a migração irregular quando o desespero bateu mais forte que o medo da pandemia.

NINGUÉM ABRIU A PORTA

Para Medrano, a chegada de Biden deixou para trás o “discurso xenofóbico, racista e anti-imigrante” de Trump, mas ratificou sua mensagem para os centro-americanos que planejam ir aos EUA de maneira irregular: nem sequer tentem.

Igualmente, Bukele solicitou, em julho passado, que Biden cumprisse sua promessa de campanha e fornecesse uma solução permanente para os migrantes com TPS, o benefício criado em 1990 que concede vistos de emprego a migrantes de países afetados pela guerra, pela delinquência ou pela perseguição política.

Washington estendeu até 31 de dezembro de 2022 tal programa para os migrantes de El Salvador, Haiti, Honduras, Nicarágua, Nepal e Sudão, depois que as tentativas de Trump de revogá-lo colidiram com uma resolução judicial no caso Ramos vs. Nielsen.

“A única solução completa para os ‘tepesianos’ é legislativa, que conceda a possibilidade de solicitação de residência permanente nos EUA para todos: qualquer outra coisa que surja, acaba sendo superficial e não resolve a situação”, comentou em 2020 para a Prensa Latina a advogada Helena Olea, da organização Aliança América.

Para Olea, a meta deveria ser que as pessoas tenham a opção de emigrar, e não que se vejam forçadas a deixar o seu país. Contudo, o caminho a frente parece longo e custoso, e nem todos têm a paciência – nem a vida – para esperar por uma utopia.

*Publicado originalmente em 'Resumen Latinoamericano' | Tradução de Isabela Palhares



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