Pelo Mundo

Em três anos, 477 morreram no mar tentando chegar à Itália

22/10/2004 00:00

Agência Ansa

Créditos da foto: Agência Ansa

Florença, Itália – Todos os dias centenas de pessoas arriscam suas vidas ao tentar atravessar o Mar Mediterrâneo com a esperança de encontrar, no velho continente, uma oportunidade de emprego ou asilo político. Na Itália, um dos destinos preferidos, quase 477 pessoas morreram de fome, de frio ou afogadas nas águas do Mediterrâneo entre 2001 e 2003, segundo pesquisa realizada pelo sítio italiano Terre Libere. Apesar de não haver dados oficiais sobre as mortes ocorridas neste ano, sabe-se que a cada momento que um barco ou um “gommone” (barco feito com pneus de borracha) com imigrantes clandestinos é encontrado, seja pela polícia marítima, pela guarda costeira ou por embarcaçoes privadas, se têm notícias de que pessoas morreram em alta mar.

Dia 4 deste mês, um barco que transportava 75 imigrantes clandestinos, 70 do Marrocos e 5 da Tunísia naufragou. Morreram 22 pessoas e outras 42 continuam desaparecidas. No dia 8 de agosto, a polícia interceptou um barco que vinha da Líbia com 72 clandestinos. Descobriu-se que o barco havia partido com 100 imigrantes, mas que 28 morreram durante a viagem. Seus corpos foram atirados no mar, entre eles, o corpo de um menino.

Um caso mais conhecido que esteve nas manchetes dos jornais de todo o mundo aconteceu em julho passado, quando 37 clandestinos naufragados, a maioria sudanese, foram recolhidos pelo barco alemao “Cap Anamur”. O barco pertence à associaçao que leva o mesmo nome e que percorre alto mar para levar ajuda humanitária a quem tenta fazer a travessia rumo à Europa. Após 25 anos de ajuda, a “Cap Anamur” é hoje testemunha de que o mar Mediterrâneo se transformou em um gigantesco cemitério para aqueles que tentam fugir da guerra, da fome e da pobreza.

A tabela abaixo mostra o numero de pessoas que morreram tentando atravessar o mediterraneo nos ultimos três anos (2001 a 2003).



























































































Data

Local

Mortos

09/07/2001

Após cair de um barco, quatro clandestinos morrem afogados ao tentar chegar na costa italiana (Puntasecca e Scoglitti) nadando.

4

10/06/2001

Doze clandestinos, de origem albanesa, morrem proximo Bari, e suspeita-se que tenham caído do barco que os trazia.

12

07/03/2002

Doze clandestinos morrem quando o gommone naufraga no canal de Sicília, próxima a Lampedusa.

12

11/03/2002

Seis pessoas morrem quando o gommone, que havia partido da Albânia, pega fogo. São salvos outros 23 clandestinos.

6

08/06/2002

Quarenta pessoas são jogadas no mar pelo capitão da barca que os trazia ilegalmente a Itália.  Sao recuperados ao todo apenas 4 cadáveres.

4

12/06/2002

Onze imigrantes clandestinos morrem em Kelíbia, Tunísia.

11

22/07/2002

Em Valona, Albania, dois imigrantes morrem após um encontro de um gommone com o barco da polícia marítima.

2

15/09/2002

Um barco afunda próximo a Capo Rosselo, litoral de Agrigento. Trinta e sete corpos sao recuperados.

37

22/09/2002

Quatorze pessoas, vindas da Tunísia, morrem afogadas a 300 metros da praia de Scoglitti, na região de Regusa.

14

01/12/2002

Dois barcos naufragam na costa da Líbia e de Marrocos, e são recuparedos apenas 44 corpos. Não se sabe o número total de vítimas.

44

19/01/2003

São encontrados seis corpos de pessoas de origem curda iraquiana. O pequeno barco em que viajavam foi intercepitado por um petroleiro russo chamado “Brother 4”. Seis pessoas foram salvas, mas 23 desepareceram no mar.

29

19/01/2003

Annegano, região de Marrocos – dezoito clandestinos mortos.

18

01/05/2003

Um cadáver é encontrado no mar na região de Lampedusa.

1

17/06/2003

Um barco naufraga na região de Lampedusa. Seis corpos são recuperados, mas sabe-se que haviam cerca de setenta pessoas na embarcação. Três são salvas.

70

20/06/2003

Um barco com cerca de 250 pessoas afunda na costa da Tunísia. São recuparados vinte corpos.

180

29/06/2003

Três pessoas morrem em um naufrágio próximo à Lampedusa. São salvas trinta e cinco pessoas.

3

03/10/2003

Lampedusa – um pequeno barco afunda e faz uma vítima.

1

17/10/2003

Um barco com cerca trinta imigrantes afunda na região de Lampedusa, quatro morrem afogados.

4

20/10/2003

Lampedusa - Um barco pesqueiro salva a vida de oitenta pessoas que estavam a bordo de um bote. Sabe-se que cerca de treze pessoas morreram de fome e sede durante a viagem.

13

21/10/2003

Um barco lotado de clandestinos afunda na costa da Tunísia. A guarda costeira recupera cinco corpos e salva dez pessoas. Mas pelo menos outras setes desaparecem no mar.

12

total.

477

 Fonte: www.terrelibere.org e jornal Corriere della Sera

 

Mas, essas pessoas, de onde vêm? Os que usam rotas de fuga via Mar Mediterrâneo são provenientes de países como Libéria, Moldávia, Somália, Sudão, Turquia, Filipinas e Iraque. Aqui um pouco da história recente desses países.

Libéria – O país esta renascendo apos 14 anos de terror, quando famílias inteiras foram assassinadas e milhares de crianças usadas como soldados de guerra. Segundo dados da ONU, cerca de 150 mil pessoas morreram durante o período de guerra e 700 mil se refugiaram em países vizinhos. A guerra terminou, mas o que sobrou no país? Hoje ser escravo nas minas de diamante é um dos poucos “trabalhos” capaz de absorver a mão-de-obra dos liberianos.

Moldávia – É um dos países mais pobres da Europa. Entrou em crise após a desagregação da ex-União Soviética. Com a crise socioeconômica disso decorrente, vieram a violência, a prostituição e as drogas. Os moldavos fogem de um país dominado pelas máfias. Hoje a Moldávia é um dos recordistas europeus em tráfico de mulheres e crianças destinados a prostituiçao internacional. Segundo dados da Caritas, vivem na Itália 30 mil moldavos.

Somália – Aqueles que vêm da Somália percorrem um longo caminho, atravessam a Etiópia, o Quênia e o Sudão. Fogem da violência e da pobreza. Em 1989, com o final da guerra civil que durou 13 anos, a Somália passou a ser governada por mais de 20 clãs armados que lutam entre si. Durante três anos os EUA intervieram no país. A situação hoje não é melhor do que em tempos passados.

Sudão – Muitos vem de de uma região chamada Darfur, que fica no oeste do país. Fogem do pesadelo vivido pela pior crise humanitária do planeta. Até hoje, a guerra civil, que já tem mais de vinte anos, produziu 1,5 milhao de vítimas e 4,5 milhoes de refugiados. As milícias árabes, conhecidas como Janjaweed, usam o estupro em massa como arma contra os africanos não-árabes. A Anistia Internacional acusa o governo sudanes de apoiar as milícias e a comunidade internacional por não fazer o mínimo necessário para salvar as mulheres e crianças de Darfur. 

Turquia – Além dos turcos que moram em cidaded pobres próximas ao Mar Mediterrâneo, iraquianos, filipinos e curdos também usam essa rota de fuga. Os iraquianos fogem da guerra civil que se seguiu à ocupação militar norte-americana. Os filipinos, de uma guerra sem fim entre mulcumanos militantes da Frente de Libertaçao Islamica dos Moro (MILF) e governo. E a população curda tenta escapar da repressão turca e iraquiana. 

A imigração rumo à Europa ganhou repercussão mundial nas últimas semanas. Raymond Hall, diretor do Departamento Europeu das Nações Unidas para Refugiados (UNHCR), denunciou que, com base a dados fornecidos pelas autoridade italianas, cidadãos de origem somália e etíope têm tido seus pedidos de asilo sumariamente negados. “Estamos preocupados que este método de seleção com base na nacionalidade possa conduzir uma pessoa que realmente precise de proteção de volta ao país em que sua vida esteja ameaçada”, diz ele. Segundo o artigo 14 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, todo indivíduo sujeito à perseguição tem o direito de procurar e de se beneficiar de asilo em outros países. 

“Estamos cientes da forte pressão criada com a contínua chegada de imigrantes, mas com base na Convenção para refugiados de 1951, todos que pedem asilo deveriam ter acesso a um verdadeiro processo para verificar sua eventual necessidade de proteção. A UNHCR está pronta para assegurar, junto ao governo, que aqueles que precisam de proteção a obtenham”, disse Hall. A UNHCR pediu as autoridades italianas permissão para ter acesso aos que pedem asilo político. Um funcionário foi enviado a Lampedusa na esperança de obter uma resposta favorável ao pedido, mas o governo italiano ainda não se manifestou.







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