Pelo Mundo

Energia é peça-chave para projeto de integração

24/02/2005 00:00

São Paulo - Os acordos no setor energético que vêm sendo firmados entre governos sul-americanos cumprem uma função estratégica para o projeto de fortalecimento da integração econômica e política no continente. Após os acordos assinados recentemente pelos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Hugo Chávez que resultarão, entre outras coisas, na construção de uma nova refinaria petrolífera no Brasil, a próxima etapa deste processo ocorrerá em Montevidéu, durante a posse do novo presidente uruguaio, Tabaré Vázquez. Vázquez e Chávez assinarão um acordo energético que permitirá ao Uruguai receber petróleo venezuelano a um preço mais barato. Parte do petróleo será paga através de uma linha especial de crédito e o restante se dará por meio de trocas. O Uruguai fornecerá a Venezuela carnes, lãs e laticínios. Além disso, o governo uruguaio fornecerá assistência técnica para aperfeiçoar a pecuária venezuelana.

A embaixadora da Venezuela no Uruguai, Maria Lourdes Urbaneja, informou que o acordo de cooperação energética que será firmado no dia 2 de março, em Montevidéu, tem como objetivo central fortalecer os mecanismos de solidariedade, complementaridade e cooperação para dar respostas aos problemas de ambas as nações. Trata-se de uma iniciativa, acrescentou a diplomata, que se inscreve no esforço de criação da Comunidade Sul-americana de Nações. A empresa Petróleos de Venezuela (PDVSA) abrirá um escritório na capital uruguaia, dando prosseguimento ao projeto do governo Chávez de estabelecer acordos estratégicos na área de infra-estrutura com os países do Mercosul. Um dos planos do presidente venezuelano é criar a Petrosur, uma empresa petrolífera multiestatal sul-americana. Além dos acordos com o Brasil e o Uruguai, a Venezuela já firmou convênios com empresas petrolíferas do Paraguai e da Argentina.

A atuação do BNDES
No Brasil, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) vem desempenhando um importante papel neste processo, dando prosseguimento a um projeto desenhado ainda durante a gestão de Carlos Lessa. A mais recente decisão do banco neste sentido foi a aprovação de um crédito de 200 milhões de dólares para a ampliação de um gasoduto na Argentina. Segundo comunicado do BNDES, esses recursos financiarão a exportação de bens e serviços de empresas nacionais para o projeto de expansão da capacidade de transporte de gás natural da Companhia de Investimentos de Energia (Ciesa). A empresa está ligada à filial Argentina da Petrobrás (Petrobrás Energia S/A, ex-Perez Companc). A ampliação do gasoduto aumentará a oferta de gás natural e eletricidade na região da Grande Buenos Aires. Desde 2004, a Argentina enfrenta uma grave crise energética com ameaças de apagões e racionamento.

Esse crédito, ainda segundo o BNDES, representa o reinício, após cinco anos, da utilização do Convênio de Pagamentos e Créditos Recíprocos, da Associação Latino-americana de Integração (Aladi). Através desse convênio, é possível compensar pagamentos de exportações e importações entre países sul-americanos, constituindo-se em um mecanismo destinado a estimular o aumento do comércio e projetos de infra-estrutura. A relação entre essas operações e o projeto de integração continental fica explícita no comunicado do banco: “a integração sul-americana é prioridade da política externa do governo brasileiro e tem o BNDES como importante instrumento”. O projeto de expansão do gasoduto argentino permitirá ampliar em até 2,9 milhões de metros cúbicos por dia a capacidade de transporte dos gasodutos General San Martín e Neuba II. A construção e a montagem da tubulação, em um trecho de 508,85 quilômetros, deve ser concluída ainda em 2005.

Brasil e Venezuela na ofensiva
Brasil e Venezuela vêm jogando pesado para ampliar as parcerias no continente. Boa parte destes esforços concentram-se na área energética. A Petrobrás e a PDVSA assinaram 15 acordo que incluem, entre outros projetos, a exploração de gás e extração de petróleo pesado, pela indústria brasileira, na região do rio Orenoco, e a construção de uma nova refinaria no Brasil, com investimento previsto de cerca de 2 bilhões de dólares. A idéia é que a nova unidade de refino tenha uma produção diária entre 150 e 220 mil barris. O ingresso de empresas brasileiras na exploração de gás na Venezuela também é uma novidade. Atualmente, essa atividade é controlada por empresas dos Estados Unidos e da Europa. Brasil e Venezuela também estão firmando acordos para a produção de energia elétrica e para a mineração de carvão. Toda essa movimentação não é vista com muita simpatia por Washington que até agora, porém, mantém sua inquietação em silêncio.

A vitória de Tabaré Vázquez, no Uruguai, deve fortalecer ainda mais essa série de iniciativas. As presenças de Lula, Chávez, Néstor Kirchner, Ricardo Lagos, Fidel Castro, Evo Morales e outras lideranças latino-americanas comprovam essa tendência. Durante a recente visita que fez a Venezuela, o presidente brasileiro fez um apelo aos empresários dos dois países para que não tenham medo de negociar entre si. O projeto estratégico de integração que está na base dos acordos nas áreas de energia e infra-estrutura foi resumido do seguinte modo por Lula: “a solução para a economia da Venezuela, do Brasil e de outros países da América do Sul não está no Norte, além do oceano, mas na nossa integração”. Mais um capítulo dessa história começará a ser contado neste dia 1° de março, em Montevidéu, com a posse de Tabaré Vázquez.


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