Pelo Mundo

Escritora diz que democracia no Chile não está ameaçada

24/09/2004 00:00

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Créditos da foto: Divulgação

Buenos Aires - A escritora chilena Marcela Serrano não acredita que uma eventual vitória da direita nas eleições presidenciais de 2005 no Chile possa pôr em risco a democracia no país, "porque ninguém, salvo quatro loucos, quer voltar à ditadura". A escritora também afirmou que à margem de uma eventual "reconciliação política" da sociedade chilena, "as feridas emocionais não acabarão até que morra o último protagonista" do golpe de setembro de 1973 e da ditadura de Augusto Pinochet. Escritora premiada, Marcela é conhecida pela militância feminista e por obras que tratam do universo feminino. Uma de suas novelas é ambientada no território mexicano de Chiapas, sede da luta zapatista. 

Nas últimas semanas, o Chile empreendeu uma grande revisão de suas leis, ainda originárias da ditadura de Pinochet. Parte da classe política considerou que o país deu um grande passo para encerrar "tutela militar" sobre o sistema político vigente. O presidente Ricardo Lagos valorizou a aprovação recente no Senado das reformas à Constituição herdada da ditadura de Augusto Pinochet, que havia sido até agora uma espécie de segurança do poder militar. As reformas devolvem ao presidente a incumbência de remover os chefes das Forças Armadas, elimina os senadores vitalícios, quatro deles designados pelos militares, e modifica as atribuições do Conselho de Segurança Nacional.

Em entrevista concedida com exclusividade, Marcela afirmou que a direita "fundamentalista, conservadora e pouco democrática através da história de meu país, estará obrigada a ser 100% democrática" se vencer as eleições presidenciais de 2005. "Com essa direita, o Opus Dei também chegaria ao governo, mas as estruturas democráticas não estarão em perigo, porque ninguém quer voltar à ditadura", acrescentou a escritora, que está em Buenos Aires para a apresentação de seu último livro, "Hasta siempre, mujercitas".

Questionada sobre o desassossego e a auto-complacência de suas personagens femininas, Marcela comentou: "Sinto que a humanidade me decepcionou e então minhas protagonistas são menos heróicas que há uma década". Um claro exemplo disso é Luz Martínez, uma das personagens do livro, que morre na África depois de trabalhar como voluntária. Enquanto ela agoniza, parece se arrepender de sua própria bondade. "Há dez anos, Luz havia sido recompensada por ter se jogado pelo mundo", admitiu a escritora. No livro, dois primos são denunciados como "subversivos" depois do golpe de setembro de 1973, em vingança por um episódio da adolescência ocorrido em uma comunidade rural.

"Houve muitas denúncias desse tipo depois do golpe, porque a ditadura pediu que delatassem os vizinhos. Então houve muitas vinganças privadas. Eu tive um amigo arquiteto que foi morto por uma dessas delações", lembrou. Conseqüentemente, para a escritora, existe no Chile "uma convivência pacífica que faz pensar que a reconciliação política é possível, mas as feridas emocionais nunca fecharão, ou pelo menos até que morra o último protagonista" do golpe.

Mulher do atual embaixador chileno na Argentina, Luis Maira Aguirre, Marcela viveu durante uma década no México. Ela afirma que a cultura mexicana "tem uma força que lhe permitiu sobreviver à pressão dos Estados Unidos, apesar de dividir milhares de quilômetros de fronteira". "Eu sempre disse que, se o Chile ocupasse a localização geográfica do México, teriam nos tragado". 

Se no México se refugiava nas montanhas para escrever, no Chile comprou uma casa a duas horas de Santiago, onde se isolou, "porque não resisto à vida cotidiana com as ligações telefônicas, os horários de comer e as exigências dos filhos adolescentes quando começo o primeiro rascunho de minhas novelas". Para ela, o golpe militar de 1973 e suas seqüelas são uma constante na literatura chilena porque "não depende de nossa vontade, e sim que essa ditadura foi tão armada e legalizada por sua própria Constituição, que se transformou em uma anomalia muito forte para nossa história, em uma ferida para sempre, que vem sem que nós a chamemos", disse Marcela.


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