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Esgoto e política: os traços constitutivos de um projeto de dominação

 

07/01/2022 10:54

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Créditos da foto: (Reprodução)

 
Quando os esgotos transbordam, revelam a sujeira armazenada. Os engenheiros dedicados à gestão do saneamento urbano garantem que a cada seis anos, mais ou menos, toda a imundice vem à tona, junto com os desperdícios da sociedade argentina.

Parece ser o caso do que acontece hoje em dia: o vídeo de Marcelo Villegas, ex-chefe da Secretaria de Trabalho da Província de Buenos Aires, que exerceu esse cargo durante a gestão da ex-governadora María Eugenia Vidal (macrista), o mostra acompanhado por um funcionário da AFI (Agência Federal de Inteligência da Argentina), revelando outra camada de sujeira que foi enterrada durante os quatro anos de governos macristas.

A avalanche de notícias e revelações faz com que o fio da história se perca: poucos lembram que o neoliberal Mauricio Macri foi o primeiro presidente a ser processado por estar ligado a uma rede espionagem. A denúncia contra ele foi arquivada pela Justiça uma semana depois de sua posse na Casa Rosada.

Na ocasião, se descobriu que foram grampeados os telefones de parentes sobreviventes da causa AMIA – o ataque terrorista à Associação Mutual Israelita Argentina, no dia 18 de julho de 1994 – e de empresários concorrentes do Grupo Macri.

“É realmente nojento, e portanto inadmissível”, definiu o presidente Alberto Fernández ao se referir à “Gestapo macrista”, usando a metáfora que o próprio Villegas mencionou no vídeo para explicar o esquema de espionagem ilegal organizado durante o governo anterior. O atual presidente ordenou uma investigação interna na AFI, com o objetivo de apresentar à Justiça “as ações do governo anterior que promoveram a espionagem ilegal e diversos processos judiciais contra sindicalistas e opositores”.

No início de 2019, faltando dez meses para o fim do mandato de Macri, o falso advogado Marcelo D’Alessio foi preso por extorsão e espionagem. Segundo o juiz Alejo Ramos Padilla, que investigou o caso, D’Alessio realizou trabalhos de espionagem com a cumplicidade do promotor Carlos Stornelli e do jornalista Daniel Santoro, do Grupo Clarín.

Durante os anos do auge do governo de Mauricio Macri, entre 2016 e 2018, Stornelli e D’Alessio foram extremamente bajulados pela imprensa, o primeiro como promotor e o segundo como um suposto advogado especializado em direito internacional. Esse tratamento foi similar ao dado no Brasil aos responsáveis pela Operação Lava Jato, como o procurador Deltan Dallagnol.

Naquele mesmo 2019, o juiz de garantia Luis Carzoglio se negou a expedir um mandado de prisão contra o dirigente sindical Pablo Moyano, razão pela qual sua família passou a receber ameaças. Meses depois, a coalizão neoliberal Juntos Pela Mudança (macrista), que ainda governava a Casa Rosada e a Província de Buenos Aires, pressionou o Poder Judiciário até conseguir a suspensão de Carzoglio.

Os dirigentes sindicais Pablo e Hugo Moyano (o segundo é pai do primeiro), foram demonizados pelo macrismo e seus aliados jornalistas, por insistir em defender as centrais sindicais e os demais líderes dessas entidades, sem aceitar os acordos oferecidos por personagens ligados ao macrismo, como Luis Barrionuevo.

Não foi surpresa para ninguém a notícia que surgiu, naquele então, de que as prisões federais estavam infestadas de microfones escondidos, e que tanto os detentos quanto seus advogados de defesa eram espionados. Tampouco a informação de que a senadora e ex-presidenta Cristina Kirchner também era alvo de espionagem, assim como os militantes que frequentavam o Instituto Pátria, ligado a ela.

Em seguida, soube-se que desembargadores federais roubaram os arquivos do sistema de justiça provincial, mas a imprensa tratou o caso como se fosse uma bobagem cometida por autônomos da AFI. Poucos relacionaram essas operações com o paradeiro de um funcionário do governo macrista que estava foragido: Fabián “Pepín” Rodríguez, que tinha escritório na Casa Rosada e havia coordenado a perseguição judicial aos donos do canal C5N, o mais crítico ao governo de Macri. O lawfare contra a emissora tinha como objetivo garantir um ambiente homogêneo e favorável ao governo na mídia.

Esses imundice é apenas uma pequena parte de tudo o que aconteceu, mas poder conectada a outros casos, se analisada com mais detalhes. Em meio a esse esquema podemos ver, por exemplo, a guerra jornalístico-judicial articulada pelos serviços de inteligência para enfraquecer as maiorias populares, colocando rótulo de “delinquente” a toda figura importante da oposição, demonizando dirigentes sindicais não vinculados aos patrões (especialmente os grandes empresários), fragmentando os movimentos sociais para impedir que estes se consolidem como um ator político autônomo unificado.

Finalmente, ao criminalizar os protestos sociais, foi possível prender alguns dos seus líderes e semear o terror por meio da repressão judicial, aliada a um aumento da violência por parte dos órgãos de segurança – que levou inclusive a casos fatais, como os de Santiago Maldonado e Rafael Nahuel.

O formato proposto pelas elites corporativas tem origem na doutrina neoliberal. Foi estabelecido pela primeira vez na Argentina, a partir da ditadura genocida de 1976, e no Chile, com o também ditador Augusto Pinochet, em 1973.

Este compêndio tem quatro objetivos:

– Impedir o pleno emprego, para que a precariedade impeça a existência de um movimento operário forte.

– Garantir a manutenção de um modelo extrativista e financeiro que permita a seguir com o esquema endividamento-sonegação-fuga de capitais.

– Impedir que os movimentos sociais se organizem e consigam formar instituições de trabalho eficientes, reconhecidas e assistidas pelo Estado, capazes de disputar espaços de poder econômico com as grandes corporações.

– Desmantelar a organização das centrais de trabalhadores, movimentos sociais, além de pequenas e médias empresas, e também de sua articulação em coordenadoras que pretendam promover o poder popular.

Enfim, não se trata apenas de espionagem. É um projeto político de dominação.

Jorge Elbaum é sociólogo, doutor em Ciências Econômicas e analista sênior do Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)

*Publicado originalmente em estrategia.la | Tradução de Victor Farinelli




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