Pelo Mundo

Esquerda européia busca respostas no movimento social

17/10/2004 00:00

Londres – O mundo mudou desde Marx, o proletariado não é mais a grande força motora das mudanças que se fazem necessárias no sistema neoliberal e o centralismo verticalizado da esquerda tradicional é um modelo ultrapassado e profundamente rejeitado pelas novas gerações. Não por acaso, o Fórum Social Europeu (FSE) se caracterizou, desde a sua primeira edição em 2002, por uma "infestação" de partidos de esquerda que, a despeito da carta de princípios do Fórum Social Mundial (FSM) – que os exclui da organização do processo FSM, reservada à “sociedade civil” –, disputam espaços no evento na busca de uma legitimação perdida por força de velhos vícios, praticas e ideologias.

A necessidade de reformar as políticas da esquerda na Europa, tema de seminário do FSE que reuniu, neste sábado (16), personalidades como o deputado europeu pela Itália, Vitorio Agnoletto, ex-coordenador do Fórum Social de Genova, a vice-presidente do Partido do Socialismo Democrático alemão e diretora da Fundação Rosa Luxemburgo, Katja Kipping, e o economista egípcio Samir Amin, coordenador do Fórum Mundial das Alternativas, foi a base desta análise que, a partir do debate sobre as demandas e possibilidades que se apresentam na nova ordem mundial, detectou um fenômeno interessante: na falta de eficácia dos partidos para responder à nova conjuntura política da Europa, dirigentes de esquerda se integram cada vez mais a movimentos e organizações sociais.

Segundo Agnoletto, o fenômeno se explica pelo apelo da crescente mobilização da sociedade civil européia, que trouxe três grandes inovações ao debate político das esquerdas: culturalmente, os movimentos têm como referência a discussão sobre o futuro do planeta e sobre os elementos que o ameaçam, como o modelo neoliberal. Segundo, implantaram uma nova lógica organizativa, plural, não piramidal que se articula em redes e permite uma comunicação ágil e eficiente entre os vários segmentos. E, por fim, trouxe para o debate global questões específicas, como gênero, meio ambiente, exclusão e racismo, entre outros, que, apesar da defesa de interesses “corporativos”, se integraram às lutas gerais de forma muito positiva.

Por outro lado, avalia o parlamentar, os partidos têm dificuldade de se adaptar a um debate mais global e, calcados em suas estruturas envelhecidas, acabam muito mais suscetíveis à cooptação e à corrupção. Nesse sentido, Katja Kipping acrescenta que a sensação hoje é de que "ser dirigente de um partido não é tão bom como ser membro de um movimento social".

"Acabamos tendo a idéia de que, ao se ficar longe da disputa partidária pelo poder, mantemos as nossas mãos limpas. Isto é uma questão bastante perigosa, uma vez que, estando o poder nas mãos de quem está, os representantes dos grandes interesses econômicos, a sociedade acaba modelada de acordo com suas necessidades e vontades", diz Katja.

Disputa de poder
Em se tratando da disputa do poder, um dos grandes problemas das estruturas partidárias, analisa o sindicalista russo Boris Kagarlitzky, é que internamente a resistência dos velhos dirigentes dificulta tremendamente o surgimento e a aplicação de novas práticas e idéias, o que, em muitos casos, impede que cheguem ao debate parlamentar ou às esferas superiores do poder.

Para Kagarlitzky, não há dúvida de que o poder tem que ser almejado, e que os ideais socialistas ainda devem permear as lutas sociais, mas há que se abrir mão de modelos pré-fabricados ou ideais, uma vez que é cada vez mais claro de que os modelos mais eficientes se constroem de forma pluralista e durante o processo das lutas cotidianas.

Por outro lado, pondera Agnoletto, há que se tomar cuidado com uma exaltação ufanista dos movimentos sociais, mesmo que, em muitos casos, eles acabem desafiando o poder neoliberal de forma mais eficiente do que os governos, partindo-se do princípio de que governo não é sinônimo de poder. "As mobilizações massivas são eficientes sim, mas há que se avançar para além dos protestos. Eventos como o FSE, com seus grandes debates e afirmações de posição, são uma escola imprescindível para a juventude, mas nós, as raposas velhas, temos que ir além, temos que criar novos mecanismos de ação política concretamente aplicáveis e eficientes".

Neste sentido, Samir Amim também pondera que, apesar das enormes mobilizações da sociedade européia e de sua crescente conscientização sobre questões macro-econômicas e sociais, principalmente em relação à política externa da União Européia e dos governos domésticos, até agora não se obteve nenhuma vitória significativa na luta contra a militarização e a implantação do neoliberalismo no velho continente.

Para Amim, a crise política européia é, entretanto, um reflexo direto da crise política e da representatividade partidária em âmbito global. Um dos sintomas mais claros desta crise, afirma o sociólogo, é que a Europa deixou de construir um projeto próprio para se transformar em uma versão piorada do projeto norte-americano para o planeta.

"Eu parto do princípio de que há que se separar a política partidária das políticas do mercado, uma vez que estas não têm nenhuma relação com a democracia. Mercado e democracia são completamente incompatíveis pelo simples fato de que o primeiro se baseia no princípio da competição. E este está se tornando o problema da Europa, ou do mundo, em função do modelo norte-americano de liberalização irrestrita da economia para proveito de suas multinacionais. Houve uma fusão dos vários centros de poder, que antes disputavam entre si, como a Europa, o Japão e os EUA. Hoje, estes grupos se fundiram em um único coletivo imperialista, unificado contra o hemisfério sul em todas as instâncias multilaterais, seja a Organização Mundial do Comércio (OMC), sejam os órgãos das Nações Unidas".

Como um analista "que vê de fora", afirma Amim, as proposições advindas da sociedade civil organizada, sejam movimentos anti-guerra, ambientalistas ou anti-globalização neoliberal, apontam um caminho bastante claro para a Europa: um projeto europeu só será possível se o continente se desvincular dos EUA e enfrentar como oposição o seu modelo. "A Europa só se viabiliza como projeto independente se for para a esquerda e assumir uma postura socialista", conclui.


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