Pelo Mundo

Esquerda reúne-se com um olho no passado e outro no futuro

25/02/2005 00:00

Montevidéu – Diferentes gerações e linhagens da esquerda latino-americana começam a se reunir em Montevidéu para a posse do presidente Tabaré Vázquez, no dia 1° de março. A data é histórica, não só para os uruguaios, mas também para velhos e novos militantes de vários países do continente. Um continente que, ao longo do século XX, viu sucessivas experiências de governos de esquerda fracassar, seja em virtude de seus próprios erros, seja em função de golpes militares. Ou ainda, em função de uma articulação entre esses dois fatores. Nos dias que antecedem a posse do novo governo uruguaio, paira no ar a sensação de que a América Latina vive um novo período histórico que representa uma nova oportunidade para a esquerda. Fala-se muito de não repetir erros do passado, remoto e recente, de construir caminhos novos que levem a uma inédita integração política, econômica e cultural. Os projetos e ambições são grandiosos. Os desafios, também.

Mas não foi só a esquerda que, de um ponto de vista estratégico, fracassou durante o século XX. As elites conservadoras e suas experiências institucionais e ditatoriais deixaram um rastro de destruição social, política, econômica e cultural. Agora, no início do século XXI, a América Latina busca reconstruir sua memória e sua história, apostando fortemente na idéia de uma integração que seja algo mais do que um mercado secundário da potência mais forte do continente e do mundo. Neste sentido, o caráter simbólico da vitória de Tabaré Vázquez no Uruguai é muito expressivo e prenhe de significados. A reunião de líderes latino-americanos como Tabaré, Lula, Kirchner, Chávez e Fidel fala por si só. Com todos os limites, contradições e diferenças de conjuntura que caracterizam estes governos, um fato é inegável: o seu encontro em Montevidéu assinala que a América Latina vive um novo período, onde a esquerda renasce e enfrenta velhos e novos fantasmas.


Uma encruzilhada e um desafio

Esses espectros, antigos e contemporâneos, aparecem na forma de uma encruzilhada. E essa encruzilhada coloca um desafio: como construir um novo modelo de desenvolvimento para o continente, pela via eleitoral, aprofundando a democracia e revertendo séculos de apropriação privada da esfera pública? Ou, de um modo mais próximo à linguagem econômica dos dias de hoje: como enfrentar o problema das desigualdades sociais e da indigência política que continua a assolar a maioria dos países da região, tendo, sob o pescoço, a espada de uma dívida que, todos sabem, dificilmente será paga integralmente? Ou ainda: como fazer tudo isso sem repetir experiências passadas sufocadas a ferro e fogo? De diferentes formas, os mortos e desaparecidos do passado também estarão em Montevidéu, presentes na memória de seus contemporâneos e nas dúvidas e angústias das novas gerações, ansiosas em, finalmente, acertar o caminho.

E as chances de acertar não são desprezíveis, uma vez que os governos das principais economias do continente vêm se dedicando, com intensidades e inflexões diferenciadas, a colocar em prática um projeto de integração que há décadas não sai do papel. Mais do que isso, após décadas de governos conservadores, alinhados incondicionalmente com as políticas do Consenso de Washington, a região tem dois governantes que afrontam diretamente o poder imperial dos Estados Unidos. Fidel Castro e Hugo Chávez são as presenças mais esperadas em Montevidéu. Há atos públicos marcados com os dois líderes que devem falar diretamente com a população. Nos muros da capital uruguaia, pode-se ver pichações saudando e xingando a presença dos dois. Mais do que reafirmar sua pregação bolivariana, Chávez vem a Montevidéu para fazer política e negócios, assim como a maioria de seus colegas. E, neste caso, a política e os negócios têm um objetivo comum.


Um novo impulso e conhecidos temores

Esse objetivo comum é fortalecer um projeto de integração regional diferente daquele proposto nos moldes da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA). Assim como já fez com Cuba, Chávez está oferecendo petróleo mais barato para o Uruguai. Assim como o Brasil vem fazendo, o governo venezuelano vem firmando parcerias para construir gasodutos, pontes, estradas, refinarias e usinas no continente. A vitória da Frente Ampla no Uruguai, um país comandado há mais de um século pelas mesmas forças políticas (blancos e colorados), representa um novo impulso para este projeto. Um impulso, porém, que não esconde as imensas dificuldades para os países da região, que seguem asfixiados por uma dívida que impõe políticas orçamentárias extremamente restritivas. O exemplo do governo Lula, no Brasil, está muito presente para os uruguaios. A possibilidade de manutenção de um modelo econômico ortodoxo está presente no horizonte próximo.

Um rápido olhar sobre a imprensa uruguaia já permite ver conflitos que os brasileiros presenciaram nos dois primeiros anos do governo Lula. Dias atrás, o escritor Eduardo Galeano e o prêmio Nobel da Paz Adolfo Perez Esquivel encabeçaram uma carta aberta dirigida ao futuro presidente Tabaré Vázquez. A carta pede que Tabaré rejeite a instalação de duas gigantescas fábricas de celulose junto ao rio Uruguai, cuja concretização, segundo eles, “completaria o modelo neoliberal” ao incentivar uma monocultura florestal com pesados impactos sociais e ambientais. Em um artigo intitulado “Primeira advertência”, o jornalista uruguaio Raúl Zibechi, do semanário Brecha, cita essa carta e a reação do novo ministro da Economia, Danilo Astori, que a considerou “absolutamente incompreensível porque investimentos deste tipo são um instrumento formidável da mudança de que precisamos no Uruguai”. 
     

Um governo em disputa?

Com uma mistura de ironia e maldade, alguns militantes da Frente Ampla já chamam Astori de “Pallocci uruguaio”, numa referência às políticas implementadas pelo ministro da Fazenda brasileira. O certo é que o governo Tabaré Vázquez já começa sob o signo da disputa. Em um artigo intitulado “Um governo em disputa”, publicado no mesmo semanário Brecha, o economista Antonio Elias, eleitor de Tabaré, define do seguinte modo este quadro: “Existem, esquematizando, duas tendências: uma que exige equilíbrios fiscais, estabilidade macroeconômica e respeito às regras do jogo, apostando nos investimentos privados nacionais e estrangeiros que permitiriam um processo de crescimento que sustentaria os projetos sociais, proposta que se identifica com o que vem sendo feito pelos governos do Brasil e do Chile”.  Essa é a tendência representada exemplarmente pelas posições defendidas pelo ministro da Economia, Danilo Astori.

“A outra”, complementa Antonio Elias, “defende uma nova estratégia de desenvolvimento produtivo para superar uma crise estrutural de larga data através de processos de participação crescente das organizações sociais e de mudanças culturais e institucionais que fortaleçam o papel do Estado como orientador do processo econômico”. E conclui: “a predominância de uma ou outra posição dependerá de múltiplos fatores, entre os quais se destacam os níveis de consciência e de organização da sociedade”. Ou seja, antes mesmo de começar, o governo Tabaré já está em disputa, uma formulação que os petistas brasileiros conhecem bem. Mas como a história não costuma se repetir, a não ser como farsa, a esquerda uruguaia tem esperança de que a visão de Astori não triunfará e de que o novo governo ajudará a América Latina a encontrar, finalmente, um novo caminho. Alimentam essa esperança, com um olho no passado e outro no futuro.


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