Pelo Mundo

Juiz francês alerta para risco de novos atentados na Europa

09/11/2004 00:00

Paris – "A França está em alerta elevado contra um possível atentado", afirma o juiz Jean Louis Bruguière, um dos maiores especialistas mundiais em terrorismo islâmico e responsável pela divisão anti-terrorismo da polícia francesa, criada há mais de vinte anos. Nos anos 80, ele participou das investigações que conduziram à prisão de Carlos, o Chacal, um dos terroristas mais perigosos e procurados do mundo. Este francês de 63 anos, discreto, com ar de gentleman inglês, já foi ele mesmo vítima de uma tentativa de assassinato na porta de seu apartamento em 1986, assunto sobre o qual ele prefere não comentar.

Mas quando o assunto é a Al Qaeda, o juiz Bruguière deixa bem claro que hoje a imprensa fala demais da organização, "mas não tem consciência da complexidade do contexto atual". "A imprensa tem tendência a atribuir todos os atentados a Al Qaeda, pois é mais fácil responsabilizar um único grupo. Claro que a organização existe e é dirigida por Bin Laden e Ayman Al-Zawahuri, seu ideólogo. Mas não podemos esquecer que em torno dela se associaram, depois do 11 de setembro, vários grupos obscuros e organizações islâmicas originárias de diferentes regiões do mundo. Elas mudaram suas estratégias para se aproximarem da Al Qaeda, porém, não recebem ordens de Bin Laden. O que acontece hoje é que estamos diante de atentados organizados por indivíduos ou por pequenos grupos que agem de maneira independente. Antes, eles atuavam no Afeganistão, mas após a intervenção americana no país, eles operam em outras regiões do planeta, como o Cáucaso e o Iraque, que é uma "tentação" para estes grupos. Na verdade, a Al Qaeda apela à Jihad (o Corão se refere a uma Guerra Santa entre muçulmanos e não-muçulmanos), e a maioria dos atentados no Iraque são realizados por estes grupos filiados a ela", explica.

Segundo Bruguière, desde 1997, a ameaça se dirige para o Afeganistão que se torna base de treinamento e rota para formação de candidatos a Jihad, na maioria compostos de jovens islâmicos radicais, que são recrutados nas periferias das grandes cidades européias, onde atuam as filiais dos grupos terroristas. Estes jovens são geralmente de origem magrebina (norte da África) ou se converteram ao Islã. Depois de recrutados são enviados para bases de treinamento, algumas controladas pela Al Qaeda. Em seguida vão para zonas de combate como Bósnia, Kosovo e atualmente vão para a Tchetchênia. "Em 2002, desmatelamos nesta região uma organização que tinha capacidade para cometer um atentando biológico ou químico", conta. "É uma nova ameaça proveniente de redes islâmicas radicais como a Al Qaeda e suas filiais que se instala na Europa. O continente é hoje uma base destes grupos, que são muito ativos e difíceis de serem controlados, porque – devido à grande fragmentação destas organizações – seus indivíduos agem sozinhos ou em pequenos grupos difíceis de identificar. Os atentados de Madrid (200 mortos) mostraram bem esta realidade. São grupos muito profissionais."

Últimos atentados
Diante desta situação, prevenir um atentado se tornou missão quase impossível. Os atentados de Madri e o cometido na Arábia Saudita, no mês de maio, provam isto. Brugière explica que "é sempre difícil prever uma ação terrorista, mas no caso da Espanha, que sempre esteve confrontada a um outro tipo de ameaça, representada pelo ETA, foi ainda mais complicado. O país não deu importância suficiente ao perigo que representam os grupos islâmicos radicais, pois nunca tinha sido atacado por eles em seu solo, como foi a França, o Reino Unido ou mesmo a Itália."

Em relação aos atentados na Arábia Saudita, ele afirma não ter maiores informações. Lembra que o país é aliado dos Estados Unidos e não da Al Qaeda, como afirmam alguns especialistas em geopolítica. "A Arábia Saudita não é um país terrorista, ela está sendo atacada por grupos internos, que ao mesmo tempo também apóiam o governo", declara o juiz. É bem provável que este atentado seja mais uma ação organizada por movimentos ligados à Al Qaeda, pois apresentam a mesma estratégia. Bruguière explica que atentados como este têm dois objetivos: desestabilizar o governo saudita, importante aliado dos Estados Unidos no Oriente Médio, e atacar a economia internacional, desestabilizando um dos maiores produtores de petróleo do mundo."

A importância da cooperação internacional
Bruguière se recorda de ter sido o primeiro a tomar consciência da importância da cooperação internacional nesse tema e da conseqüente necessidade de abrir as fronteiras, consolidar parcerias durante as investigações e compartilhar melhor as informações "A cooperação internacional ainda é delicada e não está à altura do perigo que representa a ameaça". O caso de Ahmed Ressam ilustra a evolução da internacionalização do risco. Este argelino residente no Canadá foi preso em 1999 tentando entrar ilegalmente nos Estados Unidos tendo no porta-malas do carro uma quantidade significativa de explosivos destinados a um atentado contra o aeroporto de Los Angeles. "Já investigávamos seu envolvimento com tráfico de passaportes marroquinos na França que nos conduziu a Montreal (Canadá), aos Estados Unidos, à Turquia, ao Afeganistão e ao extremo Oriente (Austrália e Coréia do Sul). Descobrimos pouco antes de todos a dimensão planetária da Al Qaeda", se entusiasma. 

Por outro lado, ao falar de Guantanamo – base norte-americana em Cuba, onde estão presos suspeitos de envolvimento nos atentados do 11 de setembro, entre eles, franceses – Bruguière responde secamente que os Estados Unidos nunca forneceram qualquer informação ao serviço secreto francês.

Apesar de Guantanamo, a parceria entre os dois países é anterior aos atentados de Nova York, pois a França é um dos precursores na luta anti-terrorismo, principalmente o islâmico, tendo que se confrontar com esse problema desde o início dos anos 80. Na época, ela sofreu dois atentados graves, o da Rua Copernic, em 1980, (4 mortos e 20 feridos) e o da rua de Rennes, em 1986, (7 mortos e 54 feridos), ambos em Paris, esse último de autoria do Comitê de Apoio aos Prisioneiros árabes (CSPP), ligado ao grupo palestino Hezzbolah. "Foi a partir destes anos que a divisão foi criada e eu escolhido para ser o responsável", conta. 

Além de conduzir todas as investigações, os juízes integrantes da divisão anti-terrorista possuem autonomia para atribuir mandados de apreensão e mesmo de prisão. Todo o trabalho é centralizado e realizado em conjunto com a polícia e com a Direção da Segurança Territorial (DST) que é o serviço secreto francês, nos moldes do FBI americano, mas com competências jurídicas. No entanto, as investigações destes juízes à la James Bond não permanecem limitadas às fronteiras francesas. "Fui o responsável pelas investigações do atentado contra o avião DC10 da companhia UTA (170 mortos) que explodiu sobre o deserto do Saara em 1989 e investiguei o atentado que matou 200 pessoas numa discoteca em Bali, onde havia vítimas francesas", conta Bruguière.

As parcerias entre a França e outros países da Europa nasceram antes mesmo da criação da União Européia. O juiz se orgulha ao declarar que "já tínhamos desenvolvido uma política de cooperação internacional, não somente com os parceiros europeus, mas também com países estrangeiros, com os quais a França não tem acordos assinados, como os países do Extremo Oriente e países árabes, e o que se estabeleceu foi uma cooperação eficaz e uma relação de confiança mútuas".

Mesmo o Brasil já fez parte do roteiro de investigações de Bruguière. Ele explica que os países da América Latina não enfrentam o problema do terrorismo islâmico radical – "o que existe são pessoas de origem palestina que operam na tríplice fronteira (Brasil, Argentina e Paraguai)" – e demonstra entusiasmo ao lembrar da ajuda da polícia brasileira nas investigações sobre a explosão do avião DC10 e também sobre um assassinato, cuja vítima ele prefere não identificar, cometido pelo serviço secreto iraniano. "No decorrer das investigações surgiram elementos que nos levaram ao Brasil. A cooperação se passou bem, estive em Brasília e São Paulo", afirma, evitando dar detalhes.

Evolução do terrorismo
Até o início da década de 90, a França enfrentou problemas com certos grupos radicais nacionais, como o movimento separatista da Córsega ou basco tendo ainda seu território utilizado como base de preparação de atentados por grupos estrangeiros como o ETA (País Basco) e o IRA (Irlanda do Norte). Ainda havia os chamados "euroterrotistas", que lutavam contra o imperialismo, mas também só agiam em seus países respectivos, caso do Ação Direta, na França, as Brigadas Vermelhas, na Itália, e a Fração Armada Vermelha, na Alemanha.

Com o fim do comunismo e a queda do muro de Berlim, apareceram novas formas de ameaças. O seqüestro do Airbus em Marselha e os atentados no metrô parisiense em 1995 e 1996, com saldo de 12 mortos e mais de 150 feridos, demonstram o nível de tensão existente nas relações entre França e Argélia na época. Ambos de autoria do Grupo Armado Islâmico (GIA), as ações representam uma resposta à interrupção das eleições argelinas em 1992 e o conseqüente impedimento de o partido islâmico FIS chegar ao poder. Porém, "nos anos seguintes, este tipo de organização é desmantelada e seus dirigentes presos graças ao nosso trabalho de investigação", comemora o juiz Bruguière. "Mas depois a ameça se dirigiu para o Paquistão com apoio das filiais destes grupos na Europa".

"No contexto atual, os principais responsáveis da Al Qaeda foram identificados e presos", afirma o juiz. Serviços como a divisão anti-terrorismo francesa são de extrema importância, muitas vidas são salvas, graças ao trabalho realizado por Bruguière e tantos outros juízes e investigadores no mundo. Porém, grupos como a Al Qaeda e seus associados recrutam e instigam ações terroristas baseados na frustação e na miséria de milhões de pessoas. Os atentados cotidianos no Oriente Médio são exemplo disto e enquanto soluções para estes problemas não forem encontradas, o juiz Bruguière e seus colegas terão ainda muito trabalho pela frente.


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