Pelo Mundo

Muito além de Trump: o modelo de democracia que Biden também quer exportar

 

09/01/2022 11:58

 

 
O discurso de Joe Biden, atual presidente “democrático” estadunidense, talvez possa servir aos seus cidadãos, bombardeados permanentemente, durante décadas, pela ideia de que há uma luta democracia e autocracia dentro e fora dos Estados Unidos, que contrapõe as aspirações da maioria e a ganância de poucos. Mas, na realidade, isso serve muito mais como um espelho dos Estados Unidos.

A realidade do modelo norte-americano mostra um enorme poder concentrado no grande capital e na mídia dominante, tão forte que influencia todas as decisões políticas e impõe uma agenda que passa por cima da vontade popular, e que, na prática, anula os alegados direitos iguais dos cidadãos. Isso sem contar o racismo estrutural, que mantém milhões de pessoas fora do sistema político, condenadas a ser bucha de canhão para as aventuras imperiais, para o mercado armamentista e da guerra transnacional.

Biden recordou Donald Trump e o acusou de impedir uma sucessão pacífica, denunciou a teia de mentiras da campanha trompista nas eleições de 2020, e lembrou, um ano depois, da invasão do Capitólio promovida pelos fãs do magnata. “Não se enganem, estamos passando por um ponto de inflexão na história. Tanto aqui como no exterior, estamos novamente na luta entre a democracia e a autocracia”, destacou o estadunidense, em um renascimento de discursos de décadas atrás.

O atual presidente tentou colocar toda a culpa pela crise em seu antecessor. “Agora depende de todos nós defender o Estado de Direito, preservar a chama da democracia e manter vivo o nosso modelo de vida americano. Este modelo está em risco, atacado por poderes que valorizam a força bruta sobre a santidade da democracia, o medo sobre a esperança, o ganho pessoal sobre o bem público” disse o mandatário.

Enquanto isso, seu governo aprovou o maior orçamento militar da história do país, e seus soldados continuam participando de massacres, torturas e execuções em todo o mundo.

O ex-presidente Barack Obama enfatizou que o ataque ao Capitólio deixou claro o quão frágil é a experiência estadunidense em democracia, e advertiu que esta democracia está em maior risco hoje do que há um ano. “Historicamente, nós norte-americanos defendemos a democracia e a liberdade no mundo… mas não podemos desempenhar esse papel quando há, em um dos nossos principais partidos políticos, líderes que estão minando ativamente a democracia, aqui mesmo em nossa casa”.

Um momento de silêncio observado no plenário da Câmara de Representantes dos Estados Unidos, nesta semana, em homenagem às vítimas da violência durante a invasão ao Capitólio. Apenas dois membros do Partido Republicano estavam presentes: o ex-vice-presidente Dick Cheney e sua filha, a deputada Liz Cheney. O vice-presidente de George W. Bush se tornou, repentinamente, uma espécie de dissidente dentro de seu partido. Para alguns analistas, isso mostra a deterioração do terreno político tradicional no país.

David Remnick, editor da revista The New Yorker, observou que pela primeira vez em 200 anos, estamos em uma disputa de modelos entre democracia e autocracia. “Em 6 de janeiro de 2021, quando uma gangue de supremacistas brancos e partidários de Trump invadiram o Capitólio, para tentar reverter os resultados da eleição presidencial, deixamos de ser uma democracia plena. Os Estados Unidos não podem mais afirmar que são a mais antiga democracia contínua do planeta”, observou o jornalista.

O congressista democrata Jamie Raskin, que faz parte do seleto comitê que investiga o ataque ao Capitólio, publicou artigo no The Washington Post lembrando que naquele dia 6 de janeiro, quando o resultado da votação presidencial estava sendo analisado pelos parlamentares, havia a ideia de que a segurança do local estava preparada para qualquer tipo de situação. “Logo, perceberam que ninguém havia previsto aquele tipo de violência fascista e coordenada, e uma tentativa de golpe de Estado”, argumentou.

A chegada de uma figura como Donald Trump ao mundo da política é produto de uma longa e profunda crise econômica, que afeta muitos diferentes setores da população, enquanto algumas instituições já acumulam décadas em que não conseguem (ou mão desejam) satisfazer as necessidades sociais. Também é fruto de um legítimo descontentamento das maiorias, pela falta de solução a essa crise, que requer mudanças sociais e políticas, sem as quais será impossível desarmar o risco de que o próprio Trump ou outro personagem similar use essa ira das maiorias empobrecidas para minar os fundamentos da democracia.

Todo o mundo conhece o desprezo de Trump pela legalidade, pelas formas democráticas e pelos padrões mínimos de decoro institucional, mas a crise moral em que a sociedade estadunidense está submersa começou em 2015, quando ele anunciou sua candidatura. O trumpismo é uma consequência da disfuncionalidade do sistema político e de sua crescente incapacidade de responder às demandas da sociedade.

Esse modelo democrático que Biden quer vender ao mundo vem sofrendo um esvaziamento do seu conteúdo ser verdadeiramente democrático, e corre o risco de ser reduzida a um mero espetáculo, uma simulação de governo do povo, com sua oligarquia bipartidária intacta, uma classe política desconectada da realidade e um sistema de voto indireto em que é possível ganhar uma eleição sem ter a maioria dos votos, como aconteceu com George W. Bush e o próprio Trump.

Além desses problemas óbvios, há uma incompatibilidade palpável entre os princípios políticos declarados e a realidade social e institucional. Tudo isso leva a um divórcio final entre a classe política e a sociedade, que desacredita completamente o sistema e contribui para o surgimento de expressões radicais, como é o caso do próprio trumpismo.

Donald Trump não aguentou ficar calado depois do discurso de Biden e afirmou que seu sucessor está “destruindo nossa nação, com políticas malucas de fronteiras abertas, entre outras”, o acusou de destruir as provas da fraude nas eleições de 2020 e de aproveitar o aniversário da invasão ao Capitólio para alimentar medos e dividir os Estados Unidos.

Álvaro Verzi Rangel é sociólogo, codiretor do Observatório em Comunicação e Democracia e analista sênior do Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)

*Publicado originalmente em estrategia.la | Tradução de Victor Farinelli




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