Pelo Mundo

No projeto de López Obrador cabem todos, principalmente os esquecidos

Alfonso Romo, empresário e apoiador da candidatura de centro-esquerda, assegura que "a coalizão 'Juntos Faremos História' vem para governar um país de 120 milhões de mexicanos, não somente para 20 milhões"

15/05/2018 09:17

AMLO Lado.mx

Créditos da foto: AMLO Lado.mx

 

O pedido foi feito pelo próprio candidato Andrés Manuel López Obrador no encontro recente celebrado na cidade de San Nicolás de los Garza: “levantem as mãos os que têm confiança em Alfonso Romo”. Uma multidão de mãos alçadas foi o prelúdio de um grito potente, que terminou comovendo o empresário: “não está sozinho, não está sozinho!”.

Com um nó na garganta e os olhos emocionados, assim estava o homem que levou López Obrador a se aproximar do setor empresarial, que o olhava de forma desconfiada e que finalmente o aceitou, embora alguns dos demais apoiadores do candidato ainda não. “Há uma campanha contra de Poncho (Romo)” – diz o Obrador à multidão –, mas eu pergunto a vocês: “creem que Poncho é um homem bom e honrado?”. As pessoas respondem com um “sim” forte e claro.

Alfonso Romo lembra desse momento memorável com certa timidez: “me dá um pouco de pena, não esperava aquilo e é muito comprometedor, não só emocionante. Esqueça os aplausos de San Nicolás! O que eu já vivi nos lugares do país que percorremos junto com Andrés (Obrador) é incrível. E isso é o que me faz comprometido (com a candidatura)”.

Está sentado em frente à pista de salto com obstáculos do Club Hípico Monterrey, enquanto um de seus cavalos trota em ritmo uniforme. Ele, vestido com camisa bege e calça de cor caqui, se mostra animado pelo bom resultado das recentes pesquisas em favor do candidato progressista, e reconhece que a vida lhe transformou, mas sem tirar seu equilíbrio emocional e racional.

“Tive a grande oportunidade de conhecer o México verdadeiro, não o das cúpulas”, diz ele no começo da entrevista com o La Jornada e logo conta o que significou o contato com esses seguimentos da população que ele nunca havia sentido de tão perto.

“As pessoas me dizer `senhor Romo, que bom que estamos todos juntos´. `que bom que os empresários estão conosco´, `não falhem com a gente´. A expectativa é tão grande que não podemos nem imaginar que vamos falhar”, comenta.

La Jornada: Não teme que, com a alta expectativa que existe sobre López Obrador, o povo possa se sentir frustrado depois? Vocês poderão mudar tudo em seis anos?

Alfonso Romo: Não, mas acho que podemos mudar o rumo do barco significativamente. Não vamos frustrar ninguém. Andrés Manuel tem uma única paixão: entrar para a história. Trabalha 20 horas por dia. Está completamente enfocado em seu projeto. Sequer tem hobbies.

La Jornada: O beisebol.

Romo: Mas nunca dedica tempo a isso (risos). Eu dedico parte do meu tempo a montar a cavalo, ele não. Ele está enfocado em percorrer o país, em fazer uma mudança de verdade no México e convencer as pessoas de que isso é possível. E isso me convenceu mais. Andrés é um profissional da política, um líder que vai governar para todos.

La Jornada: sente que é um triunfo seguro?

Romo: Não se pode ter certeza de nada, porque sempre pode haver um acontecimento inesperado, mas hoje não vejo nada que possa mudar isso. Não é só por Andrés Manuel, o país sente que este é o momento do Morena (principal partido da coalizão). Tenho fé de que vamos vencer!

A reconciliação

O engenheiro agrônomo Alfonso Romo, sobrinho neto de Francisco I. Madero, bisneto de Gustavo A. Madero, é um dos empresários mais importantes de México, dono do Grupo Vector e investidor fundador da Synthetic Genomics e da Nature Source Improved Plants, líder em tecnologias para o tratamento genético em cultivos tropicais.

Sua ampla experiência empresarial tem sido crucial para a sintonia da candidatura de López Obrador com os empresários mexicanos, e sobretudo para amenizar conflitos recentes entre alguns deles e o candidato: “com vários deles, tive conversas bastante produtivas, porque no fim das contas ninguém quer brigar, nem eles, nem nós”.

La Jornada: Então, o que acontece?

Alfonso Romo: Os preconceitos. Há um precedente desde 2006, quando houve uma campanha muito agressiva contra Andrés, sobre o perigo para o México. E isso, embora já tenha ficado no passado, permanece no subconsciente, ou no inconsciente, e despertam essas desconfianças que hoje já não deveriam existir.

La Jornada: E como você lidou com isso?

Romo: Me sentando com eles (da campanha de López Obrador). Eu disse a eles, “senhores, estamos no mesmo barco, ninguém é contra o motor do setor privado, nem contra um governo forte, ninguém é contra o Estado de direito, a liberdade, a defensa da propriedade privada. Quando você se senta com eles e conversa, tudo se acalma, porque no final todos queremos o mesmo: um México melhor.

La Jornada: Há uma guerra suja por parte de alguns membros do empresariado mexicano que sustentam que López Obrador significa a chegada do socialismo…

Romo: Se analisamos o Plano Nação (programa da candidatura), ninguém fala de nacionalismos, socialismos ou extremismos. É um plano onde cabem todos. E principalmente os esquecidos, alguns setores da população e regiões completas do país. E isso não é ser contra o que está dando certo no México. Tem aqueles que estão bem, mas há 70% da população que não está.

La Jornada: Alguns empresários pensam que, por dar ênfase aos pobres, aos esquecidos, significa um modelo populista…

Romo: Não por dar ênfase a todos esses problemas significa uma volta ao passado. O que acontece é que essas regiões vivem sim no passado, e é preciso tratá-las, dar a elas soluções diferentes que as que damos às zonas prósperas e aos setores prósperos. Este é o diagnóstico: temos que dar atenção a isso, sem prejudica-los, mas deste lado acreditam que isso pode prejudicar. Não, isso é simplesmente a soma de todos os Méxicos. Andrés vai governar para um país de 120 milhões, não somente para 20 milhões.

La Jornada: Não foi essa a mensagem entregue pelos integrantes do Conselho Coordenador Empresarial…

Romo: Se você lê esse comunicado, o que defende o Conselho, e o compara com o Plano Nação, é exatamente a mesma coisa. A grande e única diferencia é que estamos dando muito peso a todos esses Méxicos esquecidos.

La Jornada: Este grupo de empresários que se opõe a López Obrador pertence ao grupo de privilegiados, de empresários sonegadores de impostos…

Romo: Eu não diria isso. Em certos setores da população acreditam que estamos muito bem. O crescimento do México é bastante pobre. Se vemos todas as mortes (220 mil), México está se incendiando. Como podemos dizer que estamos bem? Este país está nos últimos lugares de transparência, de corrupção, pobreza, renda per capita, poder aquisitivo, com os níveis escolares que são os piores do mundo. O México continua caindo. Não estamos bem.

La Jornada: Há setores que estão muito bem.

Romo: Sim, mas o México não está bem.

La Jornada: Então, os empresários e López Obrador estão reconciliados?

Romo: Estou convencido de que sentarmos na mesa foi um gesto visando um acordo mútuo por mudanças para o bem de todos. Conversando com esses grupos, concordamos em que há incertezas sobre o Tratado de Livre Comércio da América do Norte e os índices de insegurança e violência. O que nos resta agora é unir esforços para empurrar o México para frente, mesmo que não estejamos de acordo em tudo.

La Jornada: Mas eles têm medo…

Romo: Fora do México não se percebe medo. Aqui dentro, certos setores têm medo porque as mudanças sempre representam certo grau de incerteza. Ou corrigimos o que está errado ou até mesmo o que está bem hoje pode se descompor amanhã.

La Jornada: Sabemos que muitos empresários entre os que se opõem a López Obrador enriqueceram com negócios amparados pelo Estado. Isso vai acabar realmente?

Romo: O combate à corrupção será total no plano de Andrés Manuel. Os que estão fazendo as coisas de forma correta não têm porque se preocupar. Os que estão fazendo errado devem se colocar em ordem e passar para o lado certo da história.

Debates e guerra suja

Para Alfonso Romo, os dois debates presidenciais já ocorridos não significaram uma grande mudança nas preferências eleitorais: “os debates, honestamente, não mudam o panorama. Não servem para analisar a essência da corrida eleitoral, o que está em jogo. Andrés Manuel já anunciou seu plano, e até o seu gabinete, com quem pretende governar. Não há, na história do México, uma equipe que haja trabalhado 18 meses num plano de nação, explicando com tanta antecipação o que pretende fazer nos primeiros 180 dias de governo, e com projetos com os pés bem firmes no chão, sem devaneios. Estamos muito adiantados”.

Romo: O debate não mudou a tendência.

La Jornada: Anaya subiu (Ricardo Anaya Cortés, candidato de ultradireita do Partido da ação Nacional, o PAN).

Romo: Mas outros dois caíram: Margarita (Zavala, ex-primeira-dama e candidata independente de extrema direita) e (o governista José Antonio) Meade. Entretanto, Andrés Manuel não, e agora está começando a subir mais.

La Jornada: Parece que você e Anaya já esclareceram seu conflito. O que você acha dele como candidato?

Romo: Quem colocaria no comando de um país a um garoto de 37 anos que não tem experiência, e não conhece o México profundo? Anaya quebrou o PAN no meio, o fraturou. Quando vemos uma pessoa que divide um partido para chegar ao poder sabemos muito mais sobre essa pessoa. Não o conheço pessoalmente, mas não gosto daquilo que sei – Romo se refere à disputa interna do PAN que terminou com a Margarita Zavala, a outra pré-candidata do partido e mulher do ex-presidente Felipe Calderón, lançando sua candidatura de forma independente.

La Jornada: Pensa que a sombra da traição e da corrupção o persegue?

Romo: Ele tem muitas sombras. Ele fala bem, é eloquente e está preparado, mas isso não quer dizer que saiba manejar um país tão complexo, com desafios tão difíceis. Quem o rodeia? Quem é a sua equipe? Não vejo uma equipe forte, sólida, com experiência para enfrentar os grandes problemas do país.

La Jornada: E Meade?

Romo: Para eles (Meade y Anaya), a estratégia é seguir Andrés Manuel. O PRI (Partido Revolucionário Institucional, de Meade e do atual presidente Enrique Peña Nieto) e o PAN são os verdadeiros perigo para o México. O verdadeiro perigo é continuar como estamos. Seja através de Anaya ou Meade. O que nós oferecemos é uma mudança real e verdadeira. Estamos há 18 meses trabalhando, nosso grupo é apartidária e plural. É um plano de cima para baixo e de baixo para cima, onde estão incluídos todos os setores.

La Jornada: A que atribui o fato de que a guerra suja (contra Obrador) já não tenha tanto efeito?

Romo: Creio que em 2000, quando Vicente Fox foi o candidato, oferecendo uma mudança que nunca aconteceu, e depois veio Calderón e tampouco houve mudança. Voltou o PRI ao poder com uma nova geração, e novamente nada. E agora as pessoas dizem: “aqui temos um líder que está há mais de 30 anos lutando contra isso, com um discurso muito consistente, um homem honesto, íntegro, familiar.

La Jornada: O voto do medo?

Romo: Acho que é um percentual pequeno, o medo é mais com respeito ao sistema. Atualmente, 80% das pessoas quer mudanças.

La Jornada: Não teme que Andrés Manuel mude ao chegar ao poder e vocês tenham que romper relações?

Romo: Estou trabalhando como Andrés desde 2011, convivo com ele e com sua equipe, nos conhecemos perfeitamente, embora tenhamos origens diferentes.

La Jornada: São origens muito diferentes…

Romo: A origem não tem nada a ver. Não sou um indispensável na equipe de Andrés Manuel, sou mais um. Gostaria que os leitores analisassem todo o gabinete, não somente o nome de Poncho Romo, eu sou só mais um.

La Jornada: E se chegam ao governo, em que cargo estará?

Romo: Não quero estar em nenhuma posição que crie suspeitas de que quero me aproveitar ou fazer negócios. Sou muito cuidadoso com isso. Andrés defende um discurso de corrupção zero e aqui não haverá beneficiários de nada. Quero ser muito transparente com o que vou fazer no governo, mas que vou estar lá ajudando, não tenho dúvidas. Como e em que? Não sei. Há muita confiança mútua. Em resumo, não sei onde, mas vamos estar lá.

La Jornada: Como será o dia 2 de julho (o dia seguinte após as eleições que serão em turno único)?

Romo: Gostaria de chegar no dia 2 de julho como todos sentados na mesa. Nós queremos mudar, mas não excluir ninguém no processo. O objetivo é estar com pelo menos 80% dos setores sentados conosco para discutir o que será o país depois, sem medos. Se isso acontecer, a transição será menos tensa, o que é conveniente tanto aos que se vão quanto aos que chegam.

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