Pelo Mundo

O ''Trumpeamento'' da França

Mesmo sem nem dizer que vai concorrer na eleição presidencial francesa do ano que vem, Éric Zemmour, o ensaísta francês de extrema-direita e cabeça falante televisivo, deu a todos os outros partidos muito com o que se preocupar. O que quer que decida, já é certo que sua campanha focará nas questões desagregadoras que os extremistas favorecem

21/10/2021 14:31

(Bertrand Guaypool/AFP/Getty Images)

Créditos da foto: (Bertrand Guaypool/AFP/Getty Images)

 
PARIS – De acordo com uma nova pesquisa que arrepiou a França, Éric Zemmour, o ensaísta de extrema-direita e cabeça falante televisivo, teria 17% das intenções de voto se concorresse na próxima eleição presidencial. Isso o coloca em segundo lugar, a frente de Marine Le Pen da Frente Nacional de extrema-direita.

Conhecido desde os anos 2000 por suas populares aparições televisivas e por sua coluna no jornal conservador Le Figaro, Zemmour se tornou uma peça importante em um jogo político que espera desestabilizar – embora permaneça vago sobre sua própria aposta presidencial. Seu megafone político é a CNews, um canal de TV influente apoiado pelo bilionário Vincent Bolloré, sócio majoritário do grupo Vivendi. Embora seus programas mais assistidos não atraiam mais de 800.000 telespectadores, a CNews dobrou sua audiência em quatro anos, se posicionando em segundo lugar entre os canais de notícias 24 horas da França.

O modelo de negócios da empresa combina cobertura de notícias pertinentes com comentários e debates que simplificam assuntos complexos, frequentemente se baseando em posicionamentos extremos. A chave para o recente sucesso da CNews e de Zemmour é que absorveram uma lição de Donald Trump: seja extremista e provocativo. O último desabafo mais importante de Zemmour, por exemplo, foi pedir pelo banimento de nomes “estrangeiros” como Mohammed.

Enquanto a extrema-direita francesa tem essa fixação com o Islã, imigração, falhas educacionais, e o suposto declínio da civilização francesa há 30 anos, a retórica extremista de Zemmour trouxe à tona essas questões. “Extremista” não é eufemismo: nos últimos anos, Zemmour foi indiciado duas vezes por discurso de ódio e incitação à violência racial.

Zemmour enfatiza os mesmos tópicos incendiários em seu novo livro, “A França não disse sua última palavra”. Confundindo o Islã com o Islamismo, ele espera estigmatizar a religião inteira e alimentar oposição à imigração. Ele diz que imigrantes muçulmanos irão “inundar” e superar os habitantes europeus nativos, e que a “islamização das ruas das cidades” pelos novos “colonizadores” ameaça a sobrevivência da nação francesa. “Nenhuma cidade pequena, vilarejo pequeno na França está a salvo dos grupos selvagens de gangues africanas ou da Chechênia, Kosovar e Magreb, que roubam, estupram, saqueiam, torturam e matam”, ele escreve.

Não surpreendentemente, Zemmour distorce a história descaradamente. O regime Vichy alinhado ao nazismo, ele diz, “protegeu judeus franceses” durante a 2ª GM. Sua misoginia e homofobia agressivas são similarmente de praxe.

Zemmour quer que esses temas estejam no centro do debate na próxima eleição presidencial. O Conselho Superior de Audiovisual, o regulador francês de transmissões, já resolveu tratá-lo como candidato, rastreando o tempo que tiver na TV, para que não tenha mais do que outros candidatos.

O fenômeno Zemmour preocupa os partidos políticos franceses no espectro político, embora não pelos mesmos motivos. Preocupa Le Pen porque ela espera ser a candidata representante da extrema-direita. Tradicionalmente, o voto de protesto na França tem sido dividido entre populistas e abstinentes, e, ao menos, até a eleição de 2017, essa tendência favoreceu principalmente seu partido.

Para se apresentar como candidata presidencial legítima em 2017, Le Pen moderou a mensagem do partido e se distanciou de seu pai (fundador e ex-líder do partido) e de sua retórica reacionária, racista e anti-semita. No ano seguinte, ela até mudou o nome do partido. Mas a moderação não deu muito certo com boa parte da sua base - uma parcela significativa que se voltou para Zemmour. Uma pesquisa publicada em 28 de setembro indicou que o apoio a Le Pen estava em 16%, uma baixa em relação aos 28% no primeiro round da eleição presidencial de 2017.

Zemmour também preocupa o tradicional partido de centro-direita, Les Républicains. Se muitos conservadores franceses se sentiriam envergonhados de votar na Frente Nacional, a luz do seu passado anti-semita, eles podem ver Zemmour, um judeu sefardita, como um porta-voz aceitável do posicionamento contemporâneo da direita sobre a imigração.

Ainda mais enganoso, Zemmour também tem se colocado como campeão do Gaullismo, assumindo três dos temas favoritos de Charles de Gaulle: independência nacional, política social e a ideia de uma França cristã. Ao jogar com as fronteiras fluidas entre a direita e a extrema-direita, ele está angariando votos dos Republicanos que Le Pen nunca imaginaria conquistar.

Mas enquanto uma candidatura Zemmour poderia prejudicar a direita, também lhe poderia ser útil. Se Zemmour rebaixar Le Pen, outro candidato de direita, como Xavier Bertrand, atual favorito nas pesquisas de opinião, pode prevalecer como o desafiador do presidente Emmanuel Macron no segundo round das eleições. Macron teria muito mais com o que se preocupar em uma disputa contra Bertrand, um candidato que poderia conquistar apoio amplo, incluindo de eleitores de esquerda e de centro que querem evitar um segundo mandato de Macron a qualquer custo.

Macron também poderia ser prejudicado pelo efeito negativo que os temas de extrema-direita terão no debate em geral. Ele terá que salientar suas conquistas econômicas e sociais, suas medidas educacionais e suas convicções pró-Europa. Mas isso não será fácil enquanto estiver concorrendo com um oponente que só tem “Islã” e “imigração” nos lábios.

Se Zemmour concorrerá ou não, são cenas para os próximos capítulos. Alguns analistas duvidam que ele consiga agrupar os patrocínios necessários de ao menos 500 prefeitos. Mas os 17% de eleitores franceses que apoiam a sua candidatura não podem ser ignorados. Uma parcela significativa do público está claramente desiludida com a safra atual das elites políticas.

O que quer que Zemmour decida, ele, junto com a CNews e outros veículos de imprensa de direita, mudaram o debate, forçando todos os candidatos a focarem em imigração e crime. Macron também teve que se ajustar, com base em sua decisão de impor restrições mais rígidas às autorizações de vistos para marroquinos, argelinos e tunisianos. Mesmo sem se tornar um candidato, Zemmour já é uma força para a eleição do ano que vem.

*Publicado originalmente em 'Project Syndicate' | Tradução de Isabela Palhares



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