Pelo Mundo

Os Pandora Papers mostram a verdadeira face da Grã-Bretanha global

Por meio de sua rede de paraísos fiscais, o Reino Unido é o fulcro de um sistema que beneficia os ricos e poderosos

07/10/2021 14:11

Tony e Cherie Blair estão entre os mencionados nos Pandora Papers (Phill Lewis/WENN.com/Alamy)

Créditos da foto: Tony e Cherie Blair estão entre os mencionados nos Pandora Papers (Phill Lewis/WENN.com/Alamy)

 
Talvez mais do que qualquer outra coisa, os Pandora Papers - a extensa coleção de documentos publicados no domingo (3), que revelam a riqueza secreta dos ricos e poderosos do mundo - contam uma história sobre a Grã-Bretanha.

Há o papel, por exemplo, desempenhado pelas Ilhas Virgens Britânicas, um território ultramarino do Reino Unido que funciona como um paraíso fiscal. O multimilionário primeiro-ministro tcheco usou o território para esconder sua propriedade de um castelo na França. Outros, incluindo a família do presidente queniano Uhuru Kenyatta e o relações-públicas de Vladimir Putin, fizeram uso semelhante das ilhas para esconder riquezas - enquanto Tony e Cherie Blair economizaram £ 312.000 em impostos quando compraram uma propriedade em Londres de uma empresa registrada nas Ilhas Virgens Britânicas em 2017.

Depois, há a própria Londres. Os documentos que vazaram mostram como o rei da Jordânia esbanjou dinheiro pessoal no mercado imobiliário da capital, assim como fizeram aliados importantes de Imran Khan, o presidente do Paquistão.

Mais detalhes surgirão nos próximos dias. Mas uma coisa é clara. Esta não é uma história sobre países da periferia da economia mundial. É uma história sobre como o estado britânico dirige um sistema global no qual os mais ricos extraem riqueza dos demais.

Britânico da cabeça aos pés

As Ilhas Virgens Britânicas foram capturadas pela Inglaterra aos holandeses em 1672. A essa altura, a população indígena já havia partido - ou massacrada em um genocídio não registrado ou fugido por medo de um. As ilhas têm sido um refúgio para piratas de vários tipos desde então.

Mas esta é apenas uma parte da rede offshore da Grã-Bretanha. Existem cerca de 18 legislaturas em todo o mundo pelas quais Westminster é, em última análise, responsável. Isso inclui alguns dos piores criminosos do mundo em lavagem de dinheiro, sonegação de impostos e sigilo financeiro. As Ilhas Cayman são britânicas. Gibraltar também. Assim como Anguila e Bermudas.

Esses lugares não são apenas britânicos em um sentido abstrato. De acordo com a Lei dos Territórios Britânicos Ultramarinos de 2002, seus cidadãos são cidadãos britânicos. Eles operam sob a proteção do serviço diplomático britânico. E, quando necessário, podem contar com as Forças Armadas de Sua Majestade: nos últimos 40 anos, a Grã-Bretanha foi duas vezes à guerra para defender Territórios Ultramarinos. Uma vez foi quando a Argentina tentou reivindicar de volta as Falklands / Malvinas. A outra vez foi a invasão do Iraque, quando o governo britânico afirmou que o programa de armas de Saddam Hussein ameaçava suas bases militares em Akrotiri e Dhekelia, na ilha de Chipre.

Essa complexidade não é acidental

No total, estimam os especialistas, a Grã-Bretanha e seus territórios ultramarinos são responsáveis por facilitar cerca de um terço do total de impostos não pagos em todo o mundo. E isso antes de considerarmos o dinheiro roubado por governantes corruptos ou produto do crime. Sem falar na maneira como a riqueza oculta dos bilionários permite que influenciem secretamente nossos sistemas políticos.

Essa complexidade não é acidental. O Reino Unido, ao contrário de quase qualquer outro país do planeta, carece de uma constituição escrita. As regras sobre como as regras são feitas são estabelecidas por meio de 'convenção', uma farsa sem fim na qual elas acabam sendo inventadas por nossos governantes à medida que avançam.

Vemos isso mais claramente na forma como os territórios domésticos do estado britânico são governados: Escócia, País de Gales, Irlanda do Norte, Grande Londres e a cidade de Londres têm seus próprios arranjos, cada um absurdo à sua maneira. Essa confusão deixa diferentes emaranhados em que os vigaristas do mundo podem esconder seu dinheiro.

Visto da perspectiva do capital internacional, porém, são os Territórios Ultramarinos, bem como as Dependências da Coroa de Jersey, Guernsey e Mann, que formam a parte mais significativa deste complexo. Eles usam a maleabilidade da constituição britânica para formar uma rede de cofres nos quais os ricos podem esconder seu dinheiro.

Uma nova era

Embora ninguém saiba ao certo quanto dinheiro está escondido em paraísos fiscais, dos quais os territórios britânicos representam uma parcela significativa, os números envolvidos são tão vastos que acadêmicos do Instituto Transnacional da Holanda os descreveram como “a espinha dorsal do capitalismo global".

Vista dessa forma, a flexibilidade constitucional do Estado britânico não é apenas uma ressaca pós-medieval. É uma ferramenta hiper-moderna em uma era de capitalismo de vigilância global, onde os ricos podem voar em alto-mar enquanto o resto está para sempre preso nas fronteiras.

Através de seu império, o estado britânico desempenhou um papel fundamental na invenção do capitalismo moderno. Agora, o Reino Unido está ajudando a reinventar o capitalismo mais uma vez, ao estender a proteção de uma constituição desenhada pelos poderosos, para os poderosos, aos bilionários, oligarcas e criminosos do mundo.

*Publicado originalmente por Open Democracy | Traduzido por César Locatelli

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