Pelo Mundo

Palestinos e israelense pedem no Fórum sanções contra Israel

16/10/2004 00:00

Londres - Apesar da letargia com que os governantes europeus têm acompanhado o conflito no Oriente Médio, a sociedade civil vem se envolvendo de forma cada vez mais ativa na defesa dos direitos humanos do povo palestino e em campanhas contra a ofensiva israelense nos territórios ocupados. E foi em função dessa conjuntura favorável que, em uma das plenárias mais concorridas do Fórum Social Europeu 2004, dois dos expoentes desta luta, o piloto israelense Yonathan Shapira, primeiro militar a se recusar oficialmente a lutar nos territórios ocupados, e o médico palestino Mustapha Bargouthi lançaram sexta-feira (15) uma campanha por sanções internacionais contra o governo de Israel nos moldes das ações que acabaram derrubando o regime do Apartheid na África do Sul – única forma, segundo os ativistas, de frustrar os planos de aniquilação da Palestina do primeiro-ministro israelense Ariel Sharon. 

Em tom emocionado, Shapira, ex-capitão das forças armadas israelenses por 10 anos e especialista em resgate e salvamento, iniciou sua fala afirmando que tudo que fez e falou desde o seu rompimento com o governo foi por amor a sua cultura e seu povo que, “por culpa de um governo demente, está mergulhado em sangue palestino”. “O que fazemos no Oriente Médio, os crimes de guerra que cometemos, são resultados de uma liderança corrupta e de uma eficiente campanha de lavagem cerebral. As forças armada são uma família muito unida, onde nos ensinam cações sobre honra, liberdade e justiça, e quando me disseram que, se um dia alguma ordem dos superiores contrariasse minhas convicções éticas, eu poderia recusá-las, nunca pensei que isso poderia acontecer”, conta o piloto. 

Quando, há seis anos, ele finalmente se opôs oficialmente a lutar nos territórios ocupados, liderando um grupo de 26 pilotos de elite, houve uma comoção sem precedentes no país, que acabou expondo uma chaga latente da comunidade militar. “Depois da apresentação pública de nossa recusa, um número crescente de militares aderiu ao movimento dos ‘refusniks’. Além dos que abertamente seguiram o nosso exemplo, recebemos milhares de mensagens de apoio de soldados que, por medo da prisão ou de perder o emprego, não têm coragem de se manifestar publicamente. Hoje, pesquisas apontam que mais de 40% dos jovens universitários de Israel são contrários às ofensivas do governo contra o povo palestino, e isto é muito bom”, afirmou Shapira. 

Mas, segundo ele, o tempo está se esgotando. “Israel e Palestina estão para desabar, e é por isso que necessitamos com tanta urgência a solidariedade da comunidade internacional, precisamos que vocês pressionem seus governos a pressionar o meu. É por isso que conclamo a comunidade européia a liderar uma campanha mundial por sanções contra o governo israelense. Sei que Sharon preferiria que eu estivesse em alguma prisão ao invés de estar aqui no FSE, falando com vocês. Mas, de todas as missões de resgate que fiz em minha vida, creio que esta, aqui e agora, é a mais importante”, conclui sob aplausos estrondosos da platéia. 

Para Bargouthi, a adoção de sanções oficiais – econômicas políticas – contra o governo de Sharon se justificam pelas mesmas razões que justificaram as ações contra o Apartheid sul-africano. Segundo ele, o primeiro ministro israelense já afirmou publicamente que, após a retirada israelense de Gaza, o plano de paz seria enterrado, que o Estado Palestino nunca seria uma realidade. 

“O objetivo de Israel é muito claro. Com a construção do muro que cerca o nosso território, Sharon quer transformar Gaza em uma enorme prisão a céu aberto, cercada de todos os lados e sem saída para parte alguma. Isto caracteriza o apartheid. Mas falemos em números. Israel tem 763 ‘checkpoints’ nas fronteiras entre os nossos territórios, transformando uma viagem de 45 minutos em uma jornada de nove horas. Isso caracteriza apartheid. Setenta e dois por cento dos palestinos vivem abaixo da linha da pobreza (menos de US$ 2 por dia), e 60% estão desempregados. Isso caracteriza o apartheid. Quarenta por cento da população palestina, que é de 3,6 milhões de pessoas, já foi aprisionada pelo governo israelense, incluindo mulheres e crianças. Dos mais de 3,5 mil palestinos assassinados, 82% eram civis, 645 eram crianças. Se o mundo entendeu o problema do Vietnã, se compreendeu o drama sul-africano, tem que agir em relação ao Oriente Médio. O tempo perdido na região significa sangue derramado, não ha mais tempo a perder”. 

Em entrevista a Agência Carta Maior, Bargouthi explicou que a delegação palestina no FSE está articulando uma série de encontros com parlamentares europeus para discutir a proposta de sanções contra o governo israelense. Segundo ele, a iniciativa tem base legal no direito internacional, e deve começar com pressões sobre o acordo bilateral de comércio Israel-União Européia, no sentido de suspender as transações que incluem principalmente armamentos e intercâmbio tecnológico. “Sabemos que não será uma missão fácil. Mas estamos preparando uma declaração neste sentido, a ser apresentada aos delegados do Fórum. Foi do FSE que partiram as grandes marchas internacionais contra a invasão americana do Iraque, e acreditamos na força da sociedade civil européia”, afirma Bargouthi. 

Concomitantemente, o palestino também quer aprofundar as articulações com os movimentos israelenses. “Já fui preso algumas vezes em Israel, e em outras entrei clandestino no país. Se o governo de Sharon não permitir os nossos encontros, criaremos uma Aliança Shapira-Bargouthi Contra a Lei”, brincou ao final de sua fala.



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