Pelo Mundo

Para os palestinos, transferência da embaixada dos EUA consolida o status quo da ocupação

Realocação controversa não mudará o 'desejo dos palestinos', dizem moradores de Jerusalém, em meio a pedidos por protestos

15/05/2018 09:52

Ammar Awad/Reuters

Créditos da foto: Ammar Awad/Reuters

 

Jerusalém Oriental ocupada – Dezenas de milhares de colonizadores judeus, cercados por proteção policial, marcharam ao redor da Cidade Velha, celebrando o Dia de Jerusalém às vésperas da mudança da embaixada dos EUA de Tel Aviv.

O evento anual, que comemora a anexação israelense de Jerusalém Oriental ocupada em 1967, é visto pela população palestina da cidade como provocação deliberada.

Os eventos passados viram lojas palestinas destruídas e protestos contrários palestinos sendo reprimidos violentamente pela polícia israelense.

Como nos anos anteriores, fechamento de rodovias e barricadas foram montadas no domingo para restringir o acesso dos palestinos à rodovia até o Portão de Damasco, uma das entradas à Cidade Velha.

“O palestino morador de Jerusalém hoje em dia, vive com milhares de porretes cainda sobre sua cabeça”, disse Osama Barham, ativista na cidade, ao Al Jazeera.

“Isso quer dizer, é oprimidos de todas as direções.”

Barham estava em pé de um lado perto do Portão de Damasco, onde um pequeno grupo de palestinos e veículos de imprensa árabaes estavam reunidos.

Abaixo deles, uma grande congregação de branco e azul se acumularam nos degraus de pedra. Alguns dançavam em anéis de uma maneira frenética. Outros gritavam palavras de ordem com fervor.

“A mudança da embaixada dos EUA não é o assunto maior aqui”, disse Barham, explicando que para os moradores palestinos tal acontecimento foi meramente o resultado esperado de décadas de ocupação.

“Não ficamos chocadas ou surpresos em ouvir as notícias quando o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou [em dezembro de 2017] seu reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel”, ele adicionou.

“O que é muito mais perigoso para nós do que a transferência de uma embaixada, é nossa realidade: a investida da judaização da cidade, a israelificação da nossa sociedade, o exílio de moradores palestinos, a demolição de casas palestinas e o ataque ao complexo Al-Aqsa pelos colonizadores”.

“Jerusalém está ocupada, então não sentimos que estamos repentinamente em perigo por causa da nova localização da embaixada em Jerusalém Ocidental”, disse Barham.

A cantoria dos colonizadores afogou as baterias e trompetes de uma banda em seu meio. Um grande estrondo foi ouvido quando a polícia israelense removeu uma barricada e permitiu a entrada dos colonizadores na Cidade Velha.

'O coração da causa palestina”

Centenas de colonizadores atacaram o complexo da mesquita Al-Aqsa, o terceiro local mais sagrado do Islã. Levantaram a bandeira israelense e rezaram.

Confrontos com palestinos seguiram, resultando em ao menos uma prisão, antes de os colonizadores deixarem o complexo.

Dentro da Cidade Velha, no bairro de Sheikh Lulu, Umm Jihad ficou do lado de fora de sua cada, olhando suas crianças e dando direções aos homens que não conseguiam achar as próprias casas devido aos fechamentos impostos pelos israelenses.

“Eu espero que muitas pessoas estarão protestando amanhã porque precisamos do maior apoio possível”, ela disse ao Al Jazeera, se referindo às manifestações planejadas na segunda-feira contra a realocação da embaixada.

“Hoje não podemos andar pela cidade porque as forces israelenses praticamente nos barricaram dentro de nossas próprias casas.”

Ela disse que a mudança da embaixada dos EUA não irá mudar “o desejo dos palestinos”.

“Ninguém permanecerá em silêncio em face ao que os EUA e Israel estão fazendo”, ela disse.

“Jerusalém é o coração da causa palestina, e todo palestino que mora aqui sente seu significado nos próprios ossos.”

Mundo árabe em ‘silêncio’

A abertura official da embaixada dos EUA, que aconteceu 13h no horário local contou com a presença da delegação norte-americana, que inclui a filha de Trump, Ivanka e seu marido Jared Kushner, que também é conselheiro do presidente.

O Primeiro Ministro israelense Benjamin Netanyahu foi anfitrião de uma recepção de gala no domingo para a delegação norte-americana.

A recepção convidou todos os membros do Knesset. Dignitários estrangeiros também foram convidados, mas a maioria dos embaixadores europeus disseram que iriam boicotar o evento.

Parada na rodovia do lado oposto ao Portão de Damasco, Afaf al-Dajani, líder de uma associação de orfanatos na Cidade Velha, parecia uma figura solitária enquanto olhava as multidões de colonizadores judeus.

“Claro que vamos sofrer com essa nova realocação da embaixada”, ela disse ao Al Jazeera.

“Já sofremos com a presença de todos esses colonizadores, e eu imagino que a nova localização da embaixada dos EUA irá encorajar mais disso”.

Ela respirou fundo enquanto a policia israelense atacava os soldados ali perto.

“Eu não entendo porque o mundo árabe está em silêncio sobre tudo isso e estão vendo todos esses eventos como se fosse um filme no cinema”, ela disse. “Onde estão suas consciências?”

Mas para Barham, o destino dos moradores palestinos da cidade estava claro desde a ocupação israelense mais de 50 anos atrás.

“Nunca confiamos em intervenção estrangeira ou nos exércitos árabes para nos resgatarem”, ele disse.

“Entendemos que estaríamos sozinhos nessa batalha contra a ocupação”.

*Publicado originalmente na Al Jazeera | Tradução de Isabela Palhares

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