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Pedro Castillo assume o Peru com o desafio de superar instabilidade e fazer primeiro governo progressista

A cerimônia oficial mesclou a posse do presidente com a celebração dos 200 anos da independência do país. No dia seguinte, o presidente irá ao sul do país, onde será realizada uma tomada de posse simbólica na região onde está a grande maioria de seu eleitorado

28/07/2021 16:53

(Gian Masko/AFP)

Créditos da foto: (Gian Masko/AFP)

 
O Peru já tem um novo presidente. Na manhã desta quarta-feira (28/07), foi realizada na sede do Congresso Nacional a cerimônia de posse de Pedro Castillo, que recebeu a faixa presidencial, momento que marcou o início de seu mandato como novo presidente do país andino.

O líder do jovem partido Peru Livre foi eleito no dia 6 de junho, quando ganhou o segundo turno presidencial com 8,8 milhões de votos e uma vantagem muito apertada, de pouco mais de 43 mil votos, sobre a direitista Keiko Fujimori. A apuração tardou quase dez dias em ser concluída, e em seguida começou uma longa disputa judicial por denúncias de fraude, razão pela qual o JNE (Júri Nacional Eleitoral do Peru) só pôde anunciar os resultados oficiais há uma semana.

Pedro Castillo é um professor de escola básica que trabalhou durante décadas em pequenas cidades de setores rurais do sul do Peru. Se tornou uma figura conhecida nacionalmente em 2017, quando liderou uma greve de professores que mobilizou todo o país e exigia aumento salarial e o pagamento de uma dívida histórica do Estado com a categoria – os objetivos não foram alcançados daquela vez, mas a imagem de Castillo como defensor dos direitos dos trabalhadores ficou instalada. Com ele, assumirá a vice-presidência a advogada Dina Boluarte.

O mandato de Castillo deve durar cinco anos, embora o passado recente da política peruana exija alguma cautela ao se dizer qualquer coisa sobre o futuro. O último quinquênio teve quatro homens diferentes no escritório principal do Palácio Pizarro: o primeiro foi Pedro Pablo Kuczynski, vencedor das eleições de 2016, que renunciou em março de 2018 após envolvimento em atos de corrupção; em seguida, assumiu o vice-presidente Martín Vizcarra, o que mais tempo permaneceu no cargo, até novembro de 2020, quando foi destituído pelo Congresso e substituído por Manuel Merino, justamente o presidente do Congresso que liderou a ação política contra Vizcarra, razão pela qual enfrentou um fortíssimo repúdio da população, que o obrigou a renunciar após cinco dias no cargo, que terminou nas mãos de Francisco Sagasti, aquele que, finalmente, concluiu o mandato e entregou a faixa a Castillo nesta quarta.

Claro, superar essa instabilidade será um dos grandes desafios de Castillo. Além disso, o político carrega alguns estigmas: é uma figura de esquerda, o que provavelmente o obrigará a enfrentar o discurso da direita midiática, ávida em associá-lo a Maduro e ao “castrochavismo bolivariano”, mas não faz parte da que é considerada a esquerda tradicional do país.

Das 130 cadeiras do Congresso peruano, seu partido Peru Livre tem apenas 37. O apoio de outras forças progressistas, como o movimento Juntos por el Perú (de Verónika Mendoza) ou a Frente Ampla, não seria suficiente para alcançar a maioria. Então, ele precisará negociar permanentemente com as forças do centro e talvez até com as da direita.

Três celebrações

A cerimónia em que se realiza a posse no Peru tem uma particularidade este ano, já que nesta mesma data o país comemora os 200 anos da proclamação da sua independência. Por isso, o protocolo cerimonial terá uma segunda jornada durante a tarde.

Entre os chefes de estado presentes estarão Alberto Fernández, da Argentina; Luis Arce, da Bolívia; Iván Duque, da Colômbia; Sebastián Piñera, do Chile; Guillermo Lasso, do Equador; além do Rei Felipe VI, da Espanha. O Brasil enviou o vice-presidente Hamilton Mourão como seu representante, enquanto o Uruguai e o México enviaram seus chanceleres, Francisco Bustillo e Marcelo Ebrard respectivamente.

A outra peculiaridade é que, no dia seguinte, haverá uma nova cerimônia em Ayacucho, local onde aconteceu a batalha que selou a independência do país.

Na ocasião, será realizado um juramento simbólico, não só pela sua relação com o acontecimento histórico, mas sobretudo pelo fato de que Pedro Castillo o fará no sul do país, região na qual ele trabalhou como professor e onde obteve a grande maioria de seus votos – em alguns departamentos da zona, o progressista superou 80% das preferências.






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