Pelo Mundo

Pensamento Crítico. O anti-imperialismo e a esquerda no Oriente Médio

 

21/10/2021 13:13

(Justmedude/Dreamstime.com)

Créditos da foto: (Justmedude/Dreamstime.com)

 
A sequência complexa de acontecimentos que sacudiu o mundo árabe na última década suscitou intensas controvérsias na esquerda. Não é fácil distinguir as tendências progressivas e regressivas no disputado e cruel cenário do Oriente Médio.

Somente a enorme esperança que acompanhou a estreia da primavera árabe gerou posturas majoritariamente favoráveis. Prevaleceu o apoio à inquestionável legitimidade de massivos protestos, que impuseram a deposição dos repudiados presidentes da Tunísia e do Egito. Também foram nítidas as vitórias democráticas consecutivas no primeiro país e as derrotas que foram impostas pelo golpe militar na segunda nação.

Mas o ocorrido na Líbia precipitou um forte debate na hora de avaliar a deposição de Kaddafi. Uma polêmica igualmente acalorada gerou a guerra na Síria e o rumo seguido pelo movimento curdo.

Nos três casos, os posicionamentos da esquerda se contrapuseram a uma corrente que privilegia as batalhas geopolíticas globais contra o imperialismo norte-americano, com outra vertente que ressalta a primazia das demandas democrático-populares em cada país.

Com esses dois parâmetros foram definidas atitudes muito distintas frente aos dramáticos enfrentamentos que a zona encarou. Ambas propostas enfrentam problemas que induzem à reflexão crítica. Essa análise é vital para afinar as estratégias de emancipação a luz das experiencias do Oriente Médio. O que ocorreu nessa região proporciona ensinamentos para a luta anti-imperialista em todo o mundo.

SIMPLIFICAÇÕES E OMISSÕES

Os pensadores que analisam a entrada dos conflitos do Oriente Médio na confrontação global, contrapõem o bloco ocidental liderado pelo imperialismo norte-americano ao alinhamento comandado pela Rússia e pela China. Situam o papel representado pelos principais aliados de ambos os grupos (Israel e Arábia Saudita vs. Irã e Síria) no grande choque entre as principais potências do planeta.

Essa análise contrasta o projeto de dominação unipolar de Washington com a perspectiva multipolar de Moscou e Pequim. Destaca a progressividade desse último bloco e salienta a conveniência dos seus êxitos. Detalhamos os diversos exponentes dessa postura no nosso primeiro texto sobre a guerra na Síria (Katz, 2017).

O foco primordialmente geopolítico convoca acertadamente a focalizar todo o fogo sobre o alvo principal, relembrando que os inimigos mais poderosos não podem ser dobrados sem a construção de um contrapeso equivalente. No Oriente Médio, esse adversário é o imperialismo norte-americano e sua rede de sócios, vassalos ou apêndices.

Mas essa correta constatação constitui tão somente o ponto de partida de um posicionamento à esquerda. A prioridade em combater o imperialismo norte-americano é inquestionável, mas essa definição não alcança o esclarecimento de posturas no labirinto do “mundo islâmico”.

Nessa região não somente se chocam forças afins e hostis aos EUA, como ela também prova o real confronto do Pentágono com os mercenários jihadistas que ele inicialmente financiou e treinou. Há uma multiplicidade de batalhas que devem ser ordenadas seguindo a lógica do imperialismo e do subimperialismo, com decisões que não se reduzem a optar entre o branco e o preto.

O simples registro de dois campos em disputa global não resolve os enigmas da intervenção política na região. Acaba sendo indispensável compreender a complexidade desses dilemas, para superar a crença ingênua de que o inimigo do meu inimigo se converteu em um bom amigo das causas progressistas.

A análise binária de dois grupos em confronto não se adapta ao cenário gerado com a implosão do “bloco socialista”. As convulsões do Oriente Médio já não diferem entre si, observando as tensões nessa região como uma simples derivação da disputa entre os EUA e a União Soviética. Os velhos aliados de ambos os campos na zona (monarquias petrolíferas vs. governos nacionalistas) mudaram. O contexto de 1950-1980 ficou para trás e as forças em confronto se diversificaram. O conflito entre setores progressistas e reacionários persiste, mas com modalidades mais sinuosas.

As convergências paradoxais entre Putin e Erdogan não apresentam, por exemplo, o mesmo conteúdo dos acordos entre Nasser e Krushev e se situam há anos luz de distância dos enlaces anti-imperialistas entre Lênin e Ataturk. É necessário registrar essas diferenças.

Uma análise meramente geopolítica costuma avaliar somente as tensões interestaduais, observando as transformações progressistas como um mero resultado das quedas de braço entre potências ou governos. Por esse motivo costumam realizar a identificação de cada figura de cada zona no mapa das facções globais. Esse registro exclusivo dos acontecimentos por cima obstrui a percepção das sucessões que se desenvolvem por baixo. O sujeito popular de qualquer transformação progressista é desconsiderado.

O registro unilateral dos conflitos no auge do poder induz a avaliar com desconfiança a própria primavera árabe. Como esse levantamento não ficou restrito a batalhas contra os governos apadrinhados pelos EUA, seu desenvolvimento é desqualificado. Mas com uma abordagem que ignora a gravitação das demandas populares, fica muito difícil desenvolver uma política de esquerda.

O COMPLÔ DA PRIMAVERA?

As análises mais extremas do enfoque geopolítico impugnam diretamente a primavera árabe. Identificam esse processo com um complô ditado pelos EUA, para depor governos hostis e frear a influência da Rússia e da China. Assemelham a grande sublevação do Oriente Médio com as denominadas “revoluções coloridas”, que a CIA costuma propiciar para instalar servidores da Casa Branca em pontos distintos do planeta (Korybko, 2017).

Essa interpretação observa as ações populares como simples peças de um xadrez global. A existência de movimentos sociais que demandam de forma ativa suas próprias reivindicações é desconhecida ou identificada como sendo ação de infiltrados e conspiradores.

Com essa abordagem, fica desconhecido o fato de que, na maioria dos casos, os protestos massivos são respostas ao sofrimento popular. Esses levantes estouram periodicamente em distintas localidades no planeta, com modalidades adaptadas à cada tradição, liderança e experiência de cada comunidade. A primavera árabe se moldou com esses padrões de sublevação que imperam no mundo todo.

Como ocorre também em outras zonas, o desenvolvimento desse levante ficou marcado pelas forças políticas atuantes e teve resultados muito díspares. A primavera foi neutralizada na Tunísia, esmagada no Egito, anulada na Líbia e triturada na Síria, em um dramático contexto de repressão, guerras e terrorismo. O complô foi somente um componente dessa complexa variedade de desenlaces.

Certamente o imperialismo norte-americano ativou sua vasta rede de órgãos especializados em capturar, deformar e aniquilar as revoltas populares. Utilizou plenamente o enorme novelo de fundações e órgaõs que as embaixadas estadunidenses monitoram. Mas essa habitual intervenção ianque não transformou a multifacetada primavera árabe em um complô da CIA.

É totalmente válido denunciar a ingerência imperialista do vendaval de acontecimentos que comoveram o Oriente Médio na década passada. Washington recorreu a incontáveis ações para direcionar os protestos populares na direção de caminhos ligados à sua estratégia. Mas não tem nenhuma credibilidade a identificação de todo o processo da primavera – que sacudiu vários países e envolveu milhões de pessoas - como uma empreitada estadunidense.

Basta observar as comparações que foram estabelecidas com outras convulsões para descartar essa interpretação. Por seu vertiginoso encadeamento regional em tão curto prazo, alguns historiadores assemelham a primavera árabe às guerras de emancipação hispano-americanas (1810-1825), às revoluções europeias (1848-1849) e à implosão do “bloco socialista” (1989-1991). Nenhuma dessas comoções é compreendida por meios conspiratórios. Os complôs existentes representaram somente um componente secundário de processos gigantescos.

A REGRESSÃO DO VELHO NACIONALISMO

A análise que reduz os conflitos do Oriente Médio a uma simples contraposição entre dois campos, não permite analisar os dilemas tão complexos como os enfrentados pelo movimento curdo. Essa minoria desenvolveu uma resistência extraordinária em sua confrontação com os jihadistas, contando com o aceno de Washington e a segurança de Tel Aviv. Se a mera classificação das forças no tabuleiro global – a favor ou contra o inimigo imperial – bastasse para caracterizar todas as conjunturas bélicas, não haveria forma de classificar o papel das heroicas guerrilheiras de Rojava.

Esse caso peculiar não desqualifica a análise com parâmetros de confrontação com a dominação imperialista. Somente recorda que esses critérios tão somente fornecem o pontapé inicial para caracterizar os sucessos do Oriente Médio.

O prisma exclusivo de duas facções globais em disputa também não permite registrar outro dado importante: a regressão dos regimes de origem nacionalista. No esquema binário continuamos observando esses governos em seu formato inicial dos processos radicais, liderados por monarcas e empresas estrangeiras. É omitido o abandono generalizado dessas bandeiras.

A era de Nasser no Egito, de Abd al-Karim Qasim no Iraque, de Salah Jadid na Síria e Kamal Jumblat no Líbano ficaram para trás. A subsistência de certos discursos ou símbolos dessa época não altera a reviravolta introduzida pelos herdeiros desse processo. Em sua grande maioria se adaptaram à ordem neoliberal das últimas décadas.

Essa regressão foi consumada mediante à sistemática reversão dos avanços anti-imperialistas e, por esse motivo, estourou o descontentamento popular na Tunísia, Egito, Síria e Iraque. Esses levantes tiveram significados diferentes em cada país, mas salientaram o mal-estar com governos alienados de sua avançada conformação inicial.

É certo que em muitos lugares se preservaram modalidades parciais de laicismo que obstruíram a restauração teocrática. Mas essa barreira coexistiu com outras formas de opressão, como a perseguição a minorias e opositores e o sufocamento das dissidências.


Essa repressão foi um símbolo generalizado da regressão dos regimes de origem nacionalista e é importante levantar a voz contra a violência estatal que impera nesses países. Basta recordar quanto dano gerou ao socialismo o silêncio perante os massacres de Stálin, para mensurar as consequências do aval político aos governos autoritários.

Convém recordar também que os sucessores do nacionalismo árabe compartilharam da regressão anticomunista, que incluiu a censura e o encarceramento de militantes de esquerda.

Na Síria, o período de transformações progressistas e de conflitos do Partido Baath com o poder religioso foi cancelado com a vitória das vertentes direitistas. Esse desenlace incluiu, nos anos 80, uma escalada repressiva, que inaugurou o padrão de matanças posteriormente implantado por Assad (Rowell, 2017). A mesma conduta se repetiu no papel policial exercido pelas tropas sírias contra os palestinos no Líbano.

A reviravolta do Baath explica a participação do país na coalizão internacional que forjou os EUA nos anos 90 para atacar o Iraque. Ainda que na década posterior reapareceu o choque com Washington, a convergência contra Sadam ilustrou quão sepultado estava o anti-imperialismo entre os mandatários de Damasco.

Kaddafi não enfrentou um levante democrático na Líbia. Mas sua regressão anterior apresentou muitas semelhanças com a trajetória de Assad. Seu governo atravessou três etapas. Entre 1969 e 1990 desmantelou as bases militares estrangeiras, nacionalizou o petróleo e sustentou um intenso desenvolvimento econômico. Em 1991 iniciou uma reviravolta em direção à privatização de empresas estatais e à liberalização dos preços. Nos últimos anos buscou uma reconciliação com o ocidente que não impediu sua derrubada (Armanian, 2018).

No Iraque a regressão do Baath começou em 1963, para domesticar um movimento operário muito combativo e influenciado pelo Partido Comunista. Essa marca repressiva de Sadam se verificou também nos massacres contra os curdos e na terrível guerra que mobilizou contra o Irã para cair nas graças dos EUA. Antes de sucumbir perante os fuzileiros navais, Hussein exibiu provas irrefutáveis do caráter retrógrado do seu governo.

Essa mesma conduta se verifica no regime dos Ayatolás iranianos. Comandam uma teocracia que reprime opositores, degrada as mulheres, criminaliza protestos e persegue a esquerda. A batalha contra o imperialismo exige transparecer essa realidade e expor o que acontece nos países hostilizados por Washington. A séria confrontação do governo iraniano com o imperialismo norte-americano não situa esse regime na órbita do progresso.

AS INDEFINIÇÕES NEUTRALISTAS

A visão do “Grande Oriente Médio” como um terreno de mera confrontação global entre um grupo progressivo e outro retrógrado suscitou reações simétricas. Esse conflito é observado sob outra análise como um choque de forças igualmente nocivas. Nesse caso, se nota a centralidade da luta popular perante as potências externas, que compartilham da mesma hostilidade em relação às aspirações das grandes maiorias. Por isso, se salienta que a coalizão forjada pela Síria, Rússia e Irã é tão questionável quanto o alinhamento dos EUA com Israel e a Arábia Saudita. Também se destaca que é necessário batalhar com a mesma firmeza contra essas duas alianças (Alba Rico, 2017).

Essa postura relembra de forma implícita que a Rússia já não é a URSS e que a China abandonou seu velho anti-imperialismo. Mas omite que essa mudança drástica não alterou o contínuo protagonismo do poderio norte-americano. A primeira potência do planeta persiste como a principal garantia da dominação mundial capitalista e se mantém como a grande força a ser derrotada nas batalhas em curso. Qualquer fracasso significativo do Pentágono em alguma área do mundo, debilita sua capacidade de intervenção em outros pontos no planeta. Essa adversidade para Washington favorece a resistência dos oprimidos.

Por esse motivo, o resultado dos conflitos geopolíticos entre as potências não é indistinto para as lutas populares. É um erro omitir esse feito e postular a indiferença frente às disputas globais. Com essa neutralidade fica desconhecido o caráter mutável da capacidade danosa do imperialismo e da sua incidência sobre as relações de força. Esse balanceamento é chave para consolidar ou obstruir a resistência dos povos.

Os EUA perderam poder de ataque quando foram derrotados no Vietnã e retomaram impulso ofensivo quando colapsou a URSS. No primeiro cenário a nação ficou impactada pela grande ascensão da esquerda e do nacionalismo radical em toda a periferia. No segundo contexto, aproveitou o cenário criado pelo neoliberalismo para ocupar o Afeganistão, devastar o Iraque e demolir a Líbia.

Essa mesma avaliação se aplica ao contexto atual. As derrotas acumuladas nos últimos anos pelo Pentágono limitam, por exemplo, a intervenção dos fuzileiros navais na América Latina. É importante registrar esse efeito para desenvolver uma estratégia vitoriosa da esquerda.

Desde a metade do século XX, os EUA são a grande sustentação da ordem capitalista mundial e os grandes opositores a qualquer transformação progressista. Esse pressuposto se corrobora no Oriente Médio, onde Washington tentou uma reformulação baseada na aliança militar com Israel e o suporte petrolífero da Arábia Saudita. O Pentágono é o principal causador das tragédias que acontecem na região. A Rússia e a China não são alheias a esses padecimentos, mas estão bem longe de partilhar uma responsabilidade equivalente ao poderio norte-americano.

“SÃO TODOS IGUAIS?”

O foco da neutralidade global se relaciona com pressupostos ingênuos de distanciamento da geopolítica, como se os desenlaces nesse campo fossem irrelevantes para as batalhas travadas em cada país. Esse posicionamento frequentemente leva a ressaltar a centralidade dos problemas econômicos ou as demandas sociais, com certa desconexão do cenário em que surgem.

Uma versão contemporânea dessa abordagem reivindica a micropolítica, a horizontalidade e as iniciativas locais cooperativas. Omite que, especialmente no Oriente Médio, essas experiências se desenvolvem em um contexto tormentoso de invasões e guerras.

Na tragédia do mundo árabe se torna decisivo recordar quem é o inimigo principal. Essa sinalização da responsabilidade imperial estadunidense não implica em apoiar o autoritarismo dos regimes ex-nacionalistas, nem embelezar a política externa da Rússia. Tampouco supõe negar o direito à rebelião dos povos. Simplesmente visa remarcar qual é o adversário central no conjunto da região.

A crença simplificada da escala global “são todos iguais” obstrui a avaliação das forças em disputa e a consequente concretização dos triunfos exigidos para avançar em um projeto de emancipação.

O cenário atual é certamente diferente do período de pós-guerra, quando as velhas potências coloniais e seu substituto norte-americano lidavam com os movimentos de liberação na Ásia, África e na América Latina. O lugar da esquerda nessa etapa não suscitava grandes discussões. A única divergência significativa girava em torno das posturas de maior crítica à URSS por sua atitude ambivalente frente a essas proezas.

No contexto complexo atual é vital recordar que o Pentágono, a CIA e os fuzileiros navais persistem como os inimigos principais dos povos. Essa constatação permite definir posturas nos conflitos entre o insultado poder norte-americano e os odiosos governos da periferia.

O choque entre o invasor Bush e o tirano Hussein foi um clássico exemplo dessa encruzilhada. Nessa confrontação cabia se situar no campo dos iraquianos, não somente pelo caráter explicitamente agressivo do agressor ianque. Essa incursão implicou em uma ação imperialista contra um país do universo dependente. Esse posicionamento dos oponentes na ordem geopolítica mundial constitui um elemento mais definidor da postura da esquerda do que o ocasional perfil dos mandatários de Washington e Bagdá.

Essa abordagem é frontalmente contraposta ao enfoque liberal, que enaltece a “democracia” ocidental frente aos “populismos” da periferia, para justificar os atropelos imperialistas com disfarces civilizatórios. A esquerda deve levantar sua voz contra essa inversão da realidade, recordando, por exemplo, que o imperialismo inglês era o inimigo principal nas Malvinas, apesar da existência de um governo ditatorial na Argentina.

Em algumas análises, a equiparação neutralista dos grupos geopolíticos como um bloco indistinto remonta à existência da URSS. É considerado que Moscou já interveio nessa época como potência agressora ao invadir o Afeganistão (1979-89). Essa incursão é tão contestada quanto a que foi implementada posteriormente por seus rivais ocidentais (Achcar, 2011).

Mas essa avaliação pressupõe, de forma equivocada, que a URSS desenvolvia políticas imperiais quando regia um sistema não capitalista nesse país. Ainda considera de forma negativa uma ação externa positiva desse regime. Moscou socorreu nesse momento um governo progressista atacado pelos Talibãs treinados pela CIA (Ramos, 2021).

Reconsiderar esse episódio é chave para definir posturas anti-imperialistas. Se em um conflito entre a URSS e os Talibãs a esquerda não pode tomar partido, se perdem todos os critérios para avaliar quem são os aliados e os inimigos de um projeto de emancipação. O Afeganistão foi testemunha da ação regressiva posterior dos jihadistas em todo o mundo árabe. Junto ao seu padrinho estadunidense, se colocava no grupo reacionário na batalha diante da URSS.

Como os conflitos globais e as confrontações de cada país se cruzam de forma muito complexa em todo o “Grande Oriente Médio”, pode ser útil retomar outros antecedentes históricos para clarificar a intervenção da esquerda. Os sucessos na região têm, atualmente, mais pontos de contato com o cenário da 2ª GM, do que com o contexto da primeira conflagração global.

Nesse último caso prevalecia uma disputa entre potências pelos mercados e colônias e cabia postular uma oposição frontal a todos os adversários. No segundo conflito, se combinaram os choques anti-imperialistas com as resistências democráticas ao fascismo e a defesa da URSS diante da restauração capitalista. Essa conjunção determinou o alinhamento da esquerda no campo dos aliados (Mandel, 1991).

O que ocorreu nesse último choque esclarece a reação popular que costuma irromper frente a perigos maiores. Muitos analistas registraram, por exemplo, que uma parte da população síria contrária a Assad optou por aguentar passivamente esse governo, frente à ameaça da selvageria jihadista ou da ocupação estrangeira (Munif, 2017). O mesmo aconteceu na URSS, quando Stálin conseguiu um surpreendente apoio interno frente aos massacres que agouravam o triunfo de Hitler.

(continua...)

*Publicado originalmente em 'Resumen Latinoamericano' | Tradução de Isabela Palhares

Conteúdo Relacionado