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Quando a Argentina reivindicará o Che Guevara?

Oxalá as condições internacionais permitam que, assim como os restos de José San Martín e Evita Perón encontraram descanso em sua pátria depois de longos períodos de percalços, também os de Ernesto Che Guevara possam receber a merecida homenagem que seus compatriotas ainda lhe devem

20/09/2021 13:13

(Andrew Saint-George)

Créditos da foto: (Andrew Saint-George)

 
A nossa Argentina não reivindicou com justiça um de seus filhos mais famosos no mundo: Ernesto Che Guevara. Isso porque a direita teme seu exemplo e compromisso, e continua a impor censura e descrédito à sua memória, enquanto a esquerda é estrategicamente preguiçosa em reclamar a Cuba pelo uso de sua imagem. Nem o peronismo é capaz de atuar nesse sentido, apesar da conversão do Che, que passou do antiperonismo de sua adolescência, influenciado por sua família, ao respeito por Perón e seu movimento, que ele expressou anos depois e de várias maneiras – por exemplo, ajudando a financiar a primeira tentativa de retorno de Perón à Argentina, quando era funcionário do governo cubano.

Ernesto Guevara de la Serna nasceu na cidade de Rosário, portanto é argentino de nascimento. E embora durante alguns anos tenha partilhado essa nacionalidade com a cubana, quando deixou a ilha a caminho da sua experiência africana, deixou uma carta a Fidel na qual renunciava a essa nacionalidade. Em outras palavras, ele morreu exclusivamente argentino.

Por outro lado, seu apelido, “Che”, não deixava dúvidas sobre a sua argentinidade, que também se expressava no fato de que era um obsessivo bebedor de mate. Aqueles que o visitavam sabiam que não havia presente mais grato do que um pacote de erva mate. Além disso, Guevara, quando lia ou escrevia, distraído, cantava tangos, algo desafinado, porque a música nunca esteve entre seus dons. Em privado, nunca abandonou sua entonação argentina, portenha, apenas cubanizou seu discurso em eventos públicos.

O inevitável interesse do Che pelos assuntos argentinos pode ser atestado por aqueles que, como Gabriel García Márquez, Rodolfo Walsh ou Rogelio García Lupo, trabalharam na agência Prensa Latina, fundada por ele com o consentimento de Fidel Castro, para contrariar a visão tendenciosa da imprensa internacional, que difamava a Revolução Cubana e os movimentos progressistas na América Latina. Ele ligava para a redação quase todas as noites para saber as novidades sobre sua terra natal. Esse mesmo interesse esteve presente nas cartas que enviou à família.

Como revolucionário, a Argentina nunca ficou fora de seus projetos. A tentativa mais vigorosa foi a coluna comandada por seu amigo Jorge Ricardo Masetti, o primeiro diretor da Prensa Latina, com quem tentou organizar uma rebelião na Província de Salta, no Noroeste do país, região que Guevara havia diagnosticado como tendo condições semelhantes às da Sierra Maestra. Para se ter uma ideia da importância que Che e o governo cubano deram à tentativa, digamos que Masetti foi um de seus amigos e colaboradores mais próximos, e que homens de sua confiança mais íntima entraram com ele em Cuba, como foi o caso de Alberto Castellanos, em cuja casa foi celebrado o casamento de Che com Aleida March. Também há de se recordar o chefe dos guarda-costas de Guevara em Havana, Hermes Peña, e o comandante Ulises Rosales, que anos depois se tornou chefe do Estado-Maior das Forças Armadas Revolucionárias. Outro que participou foi o comandante Abelardo Colomé Ibarra, então chefe da Polícia de Havana, e que depois se tornaria Ministro do Interior.

Masetti adotou o apelido de “Segundo Comandante”, porque o “Primeiro Comandante” seria justamente o Che, quando ele pudesse se juntar ao grupo, uma vez consolidado o avanço da guerrilha em Salta. Segundo outras testemunhas, o revolucionário argentino havia adotado o pseudônimo de “Martín Fierro”, evocando um dos maiores clássicos da literatura do país, e portanto Masetti, também em alusão à obra, seria o “Segundo Sombra”.

Os membros do EGP (Exército Guerrilheiro do Povo) chegaram à cidade de Orán em meados de 1963, após uma primeira tentativa abortada. Mas a experiência fracassou, ao ser rapidamente desarticulado pela polícia argentina, devido a um erro de estratégia e também pela direção autoritária de Masetti, que chegou a impor a execução de dois integrantes pelas mãos dos seus companheiros. Entre os outros integrantes mais conhecidos, Peña terminou perdeu a vida, Castellanos passou muitos anos na prisão sem que as autoridades argentinas detectassem sua proximidade com o Che, e os demais salvaram sua pele milagrosamente. Masetti, por sua vez, foi para a selva com outros guerrilheiros e nunca foi encontrado. Se supõe que morreu de fome ou foi comido por feras e insetos. Assim terminou a tentativa de Che de exportar a revolução para sua pátria, sendo uma das primeiras experiências de levante guerrilheiro em nosso território.

Anos depois, a escolha equivocada – por muitos motivos – da zona para a guerrilha de Ñancahauzú, na Bolívia, que foi decisiva para seu fracasso, foi influenciada geograficamente por sua localização a poucas centenas de quilômetros da fronteira com a Argentina, embora não se levasse em consideração que a impenetrável selva do Chaco estava no meio caminho. Ao que tudo indica, o Che planejava fundar um campo de treinamento para alimentar as colunas que entrariam na Argentina, e também no Peru.

Quem quer que tenha sido, no período anterior ao de López Rega – fundador do grupo de extermínio conhecido como Triple A, a Aliança Anticomunista Argentina –, o fato é que o escritor Enrique Pavón Pereyra, que foi secretário e biógrafo de Perón, ao ser entrevistado para minha biografia de Che, revelou detalhes da visita secreta do Che à Puerta de Hierro, o sítio onde o caudilho argentino passou alguns anos exilado, nos Anos 60.

– Um sacerdote está chegando.

– É o Che Guevara – respondeu Perón.

O disfarce era obrigatório porque Franco ameaçava o líder peronista de expulsá-lo da Espanha caso recebesse visitas comprometedoras, como estava prestes a fazer quando Salvador Allende, então senador chileno, o visitou. O objetivo era obter colaboração para seu projeto boliviano, já ciente da deserção do Partido Comunista Boliviano. Perón, com uma lucidez antecipada, desviou o assunto e pediu ao seu interlocutor que cuidasse de sua asma, um pretexto que usou para recomendar a ele que abortasse o projeto, para não se suicidar. Também esclareceu que o seu partido estava banido na Argentina e ele mesmo estava no exílio, razão pela qual poderia dar pouca ajuda, embora não faria objeções se algum peronista quisesse se juntar à sua coluna.

A busca pelo apoio argentino seria renovada meses depois, quando Che mandar chamar Ciro Bustos e Eduardo Jozami para confiar-lhes o recrutamento de voluntários.

Os fatos aqui expostos são apenas alguns dos muitos que apontam para a argentinidade do Che Guevara. No entanto, poucas ou talvez nenhuma tentativa foi feita por sua terra natal para reivindicá-l0. As ruas e escolas que levam seu nome são contadas nos dedos de uma mão. O único monumento de corpo inteiro, erguido por assinatura popular, fica em Rosário e é assediado por insistentes ordens e tentativas de demolição. Seus restos mortais tampouco foram reclamados, quando os encontraram escondidos no aeródromo de Vallegrande e rapidamente transportados a Cuba.

Ernesto Guevara é, sem dúvida, uma figura mundial, uma das biografias mais destacadas do Século XX e sua influência se estende até os dias atuais, presente em faixas e cartazes de protestos sociais em nossa Argentina, mas também nos países mais diversos, como Peru, Polônia ou Coréia. Num mundo materialista, hipócrita, relativista, ele representa a ética da solidariedade, o exemplo de que se pode entregar uma vida ao compromisso com os mais humildes.

Oxalá as condições internacionais permitam que, assim como os restos de José San Martín e Evita Perón encontraram descanso em sua pátria depois de longos períodos de percalços, também os de Ernesto Che Guevara possam receber a merecida homenagem que seus compatriotas ainda lhe devem.

*Publicado originalmente em 'Página/12' | Tradução de Victor Farinelli

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