Pelo Mundo

Se Bolsonaro é potencialmente culpado por crimes pandêmicos, Trump também é?

 

25/10/2021 14:33

(Alex Brandon/AP)

Créditos da foto: (Alex Brandon/AP)

 
O presidente brasileiro Jair Bolsonaro pode ter cometido crimes contra a humanidade, entre outros atos ilícitos, ao longo da pandemia. Esse é o veredito de um relatório da Comissão Parlamentar de Inquérito do Senado brasileiro que foi apresentado na quarta-feira aos senadores do país. O documento de mais de mil páginas apresenta um indiciamento comprometedor de como Bolsonaro e seus aliados na administração lidaram com o surgimento da pandemia e falharam em conter a disseminação do vírus.

Contém alegações contra mais de 60 pessoas – incluindo o atual e o ex-ministro da Saúde de Bolsonaro, seu chefe de gabinete, se ex-ministro das Relações Exteriores e três dos seus filhos – bem como duas empresas envolvidas com aquisição de vacinas. “O Brasil poderia ter reduzido a transmissão do coronavírus em 40% - e, com isso, salvado estimadas 120.000 vidas – se o governo de Bolsonaro tivesse imposto e não resistido a medidas de prevenção da doença como máscaras, vacinas e distanciamento social”, notaram meus colegas, citando o relatório.

Os redatores do relatório decidiram abandonar acusações contra Bolsonaro e seus aliados de assassinato em massa e genocídio contra a população indígena, cujas comunidades estavam particularmente vulneráveis ao vírus. Mas o relatório sugeriu que Bolsonaro foi responsável por crimes que poderiam ser processados em tribunais, bem como “crimes de responsabilidade” que poderiam embasar seu impeachment.

Nada disso significa que Bolsonaro está em qualquer prejuízo político ou legal eminente. O advogado geral do país – aliado de Bolsonaro – precisa consentir com um julgamento do presidente no tribunal. E o líder da Câmara do Congresso brasileiro até agora protegeu Bolsonaro de tentativas de procedimentos de impeachment. “Eles não produziram nada além de ódio e mágoa entre alguns de nós”, disse Bolsonaro na quarta-feira sobre o painel do Senado que produziu o relatório. “Mas sabemos que não somos culpados: fizemos o certo desde o início.”

Essa é uma alegação dúbia, tendo em vista o número chocante de mortes por covid no Brasil, que é mais de 600.000 pessoas. Por meses, uma legião de especialistas em saúde pública criticou a negligência da resposta de Bolsonaro, sua oposição a medidas obrigatórias e vitais de distanciamento social e sua insistência por ciência ruim. Bolsonaro, enquanto isso, ficou na defensiva, culpou seus rivais políticos e a China pelas desgraças pandêmicas do seu país, e fulminou em outras frentes, levantando dúvidas sobre a integridade das eleições do ano que vem enquanto alimentava medos sobre a possibilidade de um golpe anti-democrático para expurgar seus oponentes.

Mas atribuir culpa política – e culpabilidade criminal – pelas desgraças de uma pandemia viral é um exercício sombrio. Outros governos na América Latina e na Europa com lideranças bem menos pedagógicas viram taxas de mortes por covid piores das que no Brasil. Se Bolsonaro é culpado de crimes contra a humanidade relacionados à pandemia, aparentemente também são outros chefes de governo e líderes de Estado, incluindo o presidente mexicano Andrés Manuel López Obrador e o presidente Donald Trump.

O último, é claro, provavelmente perdeu uma eleição às custas de uma performance pandêmica caótica. Um estudo do início do ano feito por um pesquisador da Universidade da Califórnia em Los Angeles concluiu que a implementação de esforços robustos para evitar a disseminação do vírus na última primavera, incluindo a ampla testagem e o uso obrigatório de máscaras, poderiam ter mantido o número de mortos nos EUA abaixo dos 300.000 no total. (O número atual, ao invés, é mais do que o dobro e ainda cresce.)

Trump, ao invés, subestimou conscientemente a ameaça do vírus e fez política com a saúde pública. Ele brigou com governadores Democratas, lamentou o aumento das testagens como algo que prejudicou a imagem da sua administração e transformou os imperativos do distanciamento social em batalhas bipartidárias que ainda causam furor mesmo após o fim da sua presidência. Ele leva o crédito pelo apoio a empresas farmacêuticas que produziram a vacina do coronavírus, mas presidiu uma entrega de vacinas lenta e bagunçada, que acelerou após o início da administração Biden.

Trump também pareceu inspirar Bolsonaro. O presidente brasileiro visitou Trump em março de 2020, em uma viagem que infectou diversos membros da delegação de Bolsonaro com coronavírus. Ainda assim, Bolsonaro voltou de seu tempo com Trump com um ceticismo partilhado em relação aos consensos científicos em vigor sobre a pandemia.

“Ele disse que sua viagem foi incrível, que eles passaram muito bem, que a vida estava normal em Mar-a-Lago, tudo estava curado, e que a hidroxicloroquina era o remédio que deveria ser usado”, disse o ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que foi demitido no final desse mesmo ano por Bolsonaro após entrar em confronto com a abordagem do presidente, segundo o NYT. “A partir daquele momento, foi muito difícil fazer com que ele levasse a ciência a sério.”

Nos EUA, agora, há um ímpeto para o tipo de inquérito do Senado conduzido pelos rivais de Bolsonaro em Brasília. Isso porque o número de mortes por covid nos EUA quase dobrou desde a saída de Trump e legisladores no Congresso estão focados em outros supostos atos ilícitos, principalmente o papel de Trump na incitação da insurreição do 6 de janeiro. Ser impichado duas vezes pela Câmara dos Deputados foi pouco para ofuscar a estrela política de Trump, e o ex-presidente mantém um domínio da base Republicana.

No caso de Bolsonaro, analistas sugerem que mesmo que o inquérito sobre a sua gerência da pandemia possa ter poucas amarras legais, ainda extrairá um preço político.

“A primeira consequência política da comissão especial era reunir uma parte das forças de esquerda que não estavam mobilizadas”, disse Esther Solano, cientista política da Unifesp, aos meus colegas. “Também teve um impacto nos apoiadores moderados de Bolsonaro, que ficaram chocados após todas as informações, vídeos e depoimentos que viram e ouviram. A rejeição à sua gerência da pandemia fundamentalmente explica a queda da popularidade de Bolsonaro, e o painel é, de muitas maneiras, responsável por isso.”

A The Economista observou: “Bolsonaro e membros da sua família já estão sendo investigados por espalharem fake news e corrupção, eles negam tudo. Mesmo que as últimos acusações não perdurem, ano que vem, Bolsonaro poderá lutar por uma eleição e para não passar tempo na cadeia.”

Trump, por outro lado, está quase certamente se preparando para reivindicar a presidência.

*Publicado originalmente em 'The Washington Post' | Tradução de Isabela Palhares



Conteúdo Relacionado