Poder e Contrapoder

Apocalypse tomorrow: Latente ameaça de guerra terminal

 

06/01/2022 11:02

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Não é para assustar as pessoas, mas a verdade é que Estados Unidos, Rússia e China, armados com artefatos químicos e biológicos, além de enormes arsenais de ogivas nucleares e termonucleares, têm a capacidade destrutiva suficiente para transformar o planeta no campo de batalha da Terceira Guerra Mundial, que seria a terminal, razão pela qual o diálogo com extrema atenção aos nós geoestratégicos é fundamental, começando com os casos da Ucrânia e de Taiwan.

Mas esqueça o que dizem os noticiários dos canais de televisão hegemônicos e veja o mundo de frente: as forças militares russas aglomeram na fronteira com a Ucrânia, Moscou exige que a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) se afaste de suas fronteiras, enquanto a China insiste em seu direito de retomar Taiwan, inclusive pelo uso da força, se necessário. Os Estados Unidos querem usar a OTAN como um instrumento para canibalizar e estrangular o espaço estratégico da Rússia.

A Etiópia está em uma guerra civil, o conflito separatista na Ucrânia já custou mais de 14 mil vidas desde 2014, a insurgência na Síria continua fervendo e o chamado Estado Islâmico conquista territórios na África. As “guerras do futuro” já estão aqui.

Se as forças hegemônicas se tornarem hostis, a primeira coisa que poderia acontecer é uma série de ataques cibernéticos massivos, de ambas as partes. Haveria tentativas de “cegar” o outro destruindo suas comunicações, incluindo satélites ou mesmo cortando cabos submarinos vitais que transportam dados.

“A China criou uma nova agência chamada Força de Apoio Estratégico, que se concentra no espaço, na guerra eletrônica e nas capacidades cibernéticas”, informa Meia Nouwens, pesquisadora do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, em entrevista à BBC.

O maior perigo militar é o aumento não planejado da beligerância. Se um país observa que seus satélites não estão se comunicando, e seus estrategistas, sentados em seus bunkers de comando subterrâneos, não podem ter certeza do que está acontecendo, poderia achar extremamente difícil avaliar uma reação, e teria como a opções uma resposta “minimalista” ou “maximalista”, gerando o risco de agravamento das tensões.

Um fator que provavelmente terá um papel importante nas guerras do futuro será a inteligência artificial. Isso poderia acelerar tremendamente a tomada de decisões e os tempos de resposta para os comandantes, permitindo que processem as informações com mais rapidez.

Mas há uma área onde o Ocidente está perigosamente atrás da Rússia e da China, que é a dos mísseis hipersônicos, projéteis superpoderosos que podem voar em qualquer lugar entre 5 e 27 vezes a velocidade do som, e transportar ogivas convencionais ou nucleares.

A Rússia já anunciou testes bem-sucedidos com seu míssil Zircon, proclamando que ele pode destruir defesas em qualquer lugar do mundo. O presidente russo, Vladimir Putin, afirmou que sua linha vermelha é a Ucrânia e que ele não tinha mais espaço para recuar, ao levantar três questões perturbadoras: “o que os Estados Unidos diriam se posicionássemos nossos mísseis em suas fronteiras com o Canadá e o México? Os Estados Unidos tiveram disputas territoriais no passado? A que país pertence a Califórnia?”. Com essas declarações, Putin concluiu que ninguém fala sobre esses temas como fala sobre a Crimeia.

Parece algo óbvio: a Rússia nunca aceitará a instalação de mísseis estadunidenses perto da sua fronteira com a Ucrânia, a cinco minutos de Moscou, nem Washington aceitará os mísseis russos no Golfo do México ou no Mar do Caribe, uma reminiscência da crise dos mísseis em Cuba, em 1962, no calor de Guerra Fria.

Alerta máximo

Quando estão em alerta máximo, os perigosos sistemas balísticos intercontinentais - Rússia e Estados Unidos possuem 90% do arsenal nuclear mundial – podem devastar a civilização e deixar a vida na Terra em um estado terrível, na melhor das hipóteses.

As potências atuam quando querem impor sua hegemonia, como ocorreu em 1945, quando os Estados Unidos lançaram as bombas atômicas sobre o Japão, impactando o pós-guerra, principalmente com um alerta aos militares soviéticos, que foram os que realmente venceram a guerra contra a Alemanha nazista.

Quando Washington usou essas armas, a guerra acabou e o Japão foi derrotado. O então presidente estadunidense Harry Truman decidiu usar o monopólio atômico no posicionamento militar de seu país na sucessão hegemônica dos impérios britânico e francês, com a vantagem de ter uma indústria intacta e elevada capacidade econômica, bancária e financeira.

Desde 1945, muito sangue passou sob a ponte, e os fracassos militares colecionados pelos Estados Unidos na Coréia, Vietnã, Iraque, Afeganistão, Líbia, e Síria passaram a formar uma longa e desumana lista de massacres, posteriormente batizados como guerras anti terroristas (mas sem terroristas). É a dinâmica que surgiu desde os ataques ainda obscuros às Torres Gêmeas e ao Pentágono, no dia 11 de setembro de 2001, e que levou a casos como os das prisões clandestinas de Abu Ghrabi e Guantánamo, e às torturas desumanas realizadas em nome da democracia.

Tudo isso é acompanhado por suculentos contratos com empresas mercenárias e fabricantes de armas, além de múltiplas crises e pânicos financeiros, em meio a uma super extensão imperial, golpes e o encobrimento de uma ação diplomática baseada em agressões, com efeitos que precipitam a deterioração hegemônica, como já analisava o acadêmico Emmanuel Wallerstein, que afirmou que a partir da Década de 1970 o declínio gradual da hegemonia dos Estados Unidos se tornou mais perceptível.

A invasão do Iraque, em 2003, transformou a situação: de um lento declínio hegemônico, passou-se a um colapso precipitado. Os Estados Unidos perderam sua credibilidade não apenas como líder econômico do sistema mundial, mas também como potência militar dominante.

Em 2011, os acontecimentos militares e o persistente desastre econômico, financeiro e trabalhista confirmaram que se tratava de um alerta de importância capital, devido aos graves riscos que acarretaram, especialmente para a América Latina, a intenção dos Estados Unidos em acentuar sua projeção militar para neutralizar sua desestruturação econômica-fiscal e monetária-financeira.

Só a paz garante a sobrevivência terrestre

Hoje, para se alcançar a paz mundial, é necessária uma garantia por escrito de não ampliação da OTAN, e sua não entrada na Ucrânia. Porém, a realidade é que nem mesmo o que está escrito é respeitado. Lembramos o fiasco do acordo entre Mikhail Gorbachev e George Bush (o pai) para desativar o Pacto de Varsóvia em troca de não mover a OTAN um centímetro para o Leste: que não foi reconhecido pelos sucessores de Bush.

Incentivados pelas sanções econômicas de Washington, que são verdadeiros atos de guerra, os destacamentos militares da OTAN em países próximos à Rússia e à China são ameaçadores. Essa unilateralidade belicosa se assemelha às que realizaram os nazistas na Segunda Guerra Mundial.

Documentos públicos do Departamento de Defesa dos Estados Unidos relatam a criação do Conselho Nacional de Inteligência, órgão que começou a funcionar durante o governo George W. Bush (o filho), após o 11 de setembro, para coordenar a vasta e proliferante burocracia de inteligência e segurança dos Estados Unidos. O primeiro líder do Conselho foi John Negroponte, ex-embaixador de triste memória em Honduras, promotor de operações de repressão urbana e rural.

O Global Times, jornal ligado ao Partido Comunista Chinês, expôs a vice-presidenta dos Estados Unidos, Kamala Harris, depois que ela disse à CBS que seu país está se preparando para lançar sanções nunca antes vistas contra a Rússia, no caso de sua invasão à Ucrânia.

“Os Estados Unidos e a Rússia já se culpam mutuamente pela situação na Ucrânia. Os Estados Unidos exclamam que os exercícios militares da Rússia perto das fronteiras podem ser o prelúdio para uma invasão da Ucrânia, enquanto a Rússia argumenta que tem o direito de mobilizar seu exército em seu próprio território, e exigiu uma promessa de que a OTAN não desdobraria suas forças na Ucrânia”, informou o Global Times.

Após sua derrocada no Afeganistão, os Estados Unidos não têm chance de uma nova aventura militar, em meio ao agravamento da pandemia, hiperinflação e as eleições de meio de mandato de novembro de 2022, na qual o Partido Democrata não parece muito otimista.

O Global Times argumenta que os Estados Unidos “aumentam continuamente” as tensões no leste da Ucrânia. Desde o início deste ano, enviou bombardeiros estratégicos, incluindo o B-52 e o B-1B, para atacar áreas como o Mar Negro. Em novembro, despachou bombardeiros estratégicos e realizou ataques nucleares simulados contra a Rússia, além de penetrar no espaço aéreo a 20 quilômetros da fronteira russa, em um movimento obviamente provocativo.

Para o diário chinês, a manobra do presidente Joe Biden é como “jogar em lenha seca, mas evitar deliberadamente as chamas”, pois quanto mais tensa a situação na Ucrânia, mais os países europeus dependerão dos Estados Unidos, o que coloca o país norte-americano como o principal beneficiário desse jogo perigoso.

Finalmente, o Global Times também argumenta que os Estados Unidos transformaram a Ucrânia em um peão no tabuleiro de xadrez europeu, à medida que a empurra o país para o Leste, para chocar com os 1.944 km de limites com a Rússia, a maior de suas sete fronteiras, enquanto Washington está a 7.855 km de distância de Kiev.

Álvaro Verzi Rangel é sociólogo, codiretor do Observatório em Comunicação e Democracia e analista sênior do Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)

*Publicado originalmente em estrategia.la | Tradução de Victor Farinelli




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