Política

“Não há espaço no governo para discutir um projeto de nação”

20/06/2004 00:00

Agência Carta Maior – O senhor utiliza uma expressão – e provavelmente seja um dos primeiros apoiadores do governo a fazê-lo - que é rotineiramente empregada pela oposição que é “o governo tinha um projeto de poder, mas não tinha um projeto para o futuro do país”. Isso não pode ser encarado pelo presidente como uma crítica desleal?
Cristovam Buarque – São duas coisas diferentes: se [a crítica] é ou não leal ou se é certa ou errada. O presidente poderia dizer: “É desleal fazer isso em um artigo em vez de me dizer”. Mas eu já disse, na medida do possível. Só que não há grandes espaços para conversas dentro do governo. Em nenhuma reunião de Ministérios houve qualquer discussão. As reuniões de Ministérios eram para cada ministro falar o que estava fazendo. Eu me atrevi a fugir disso umas duas ou três vezes e acho que não fui bem recebido. O próprio Lula disse, saiu no jornal: “O Cristovam vem aqui e fala de outra coisa e não da pasta dele”. E olha que eu não consegui falar tanto. Eu tive duas, três, quatro audiências. Talvez nem isso. E também não ia falar de outra coisa quando tinha que resolver problemas do Ministério.

Não é deslealdade nesse sentido de ir para o jornal por falta de espaço. E mesmo assim eu disse: fiz essa carta ao Gushiken e eu mandava muitos e-mails para o presidente por meio da secretária dele. E-mails bem curtinhos para não tomar tempo que o presidente não tem. Inclusive em letras bem grandes, porque ele, como eu, precisa ler de óculos. Até a gente botar o óculos, a gente que é ocupado já duvida se lê. Escrevia parágrafos com letras bem graúdas para não precisar usar óculos. Então, não foi desleal nesse sentido.

Agora, se foi equivocada ou não? Eu acho que não foi equivocada e eu comecei a perceber isso no começo do governo, quando, nos primeiros despachos com o chefe da Casa Civil, eu percebi que não havia espaço para discutir nada conceitual. Não havia espaço para discutir um projeto de Brasil. As discussões eram pontuais, como essa aqui [do Senado]: ganha ou não ganha o salário mínimo.

Quando eu levei a proposta de garantir uma vaga para cada criança no dia em que ela fizer 4 anos de idade na escola mais próxima de onde ela mora - que está no programa de governo -, não houve uma discussão do que isso representaria do ponto de vista transformador. A discussão foi: “Mas isso vai criar problemas com os prefeitos porque quem vai por nas escolas são os prefeitos e não vai custar nada ao governo federal”. Na verdade, não vai custar nada aos prefeitos. Na hora em que você colocar uma criança dentro da escola, ela vai ficar sentada no chão. Uma hora depois vai aparecer uma cadeira para ela. Ela vai dividir a merenda que já está lá. Mas daí a um mês aparece mais merenda. A gente transformaria necessidade em demanda. Necessidade é uma criança na calçada da escola. Demanda é ela dentro da escola sem banco para sentar. Lá fora ela não demanda, ela necessita.

Senti desde esse início que não havia espaço nem interesse de conversar projetos de nação. Salvo com o Gushiken. O Gushiken ainda tentava discutir algo maior, mas ele também caiu no pontual do gerenciamento da comunicação. Acho que a crítica que faço não é desleal e não está equivocada. Posso até ser convencido de que esteja...

Por outro lado, mesmo que eu fosse e conversasse com o presidente – e depois que eu saí do Ministério eu não tive mais nenhum contato, ninguém me ligou, ninguém me chamou, a não ser agora na hora do salário mínimo, quando eu disse que votaria “não” ou me absteria se não houvesse a negociação de um choque social, aí o Palocci esteve comigo -, morreria ali dentro. Essa falta de diálogo é ruim. Todo presidente tem um grupo de pessoas, em geral críticas, com quem ele conversa de vez em quando. Todos. Amigos e nem tão amigos. Os empresários hoje se ressentem muito da falta de diálogo também para dizer o que pensam. Um dia desses esteve aqui uma investidora americana de bilhões de reais que não conseguiu uma audiência com ninguém do governo. O Fernando Henrique organizava encontros desses que ninguém sabia e recebia empresários para conversar no Alvorada. Agora eu acho que o Lula não pode ficar conversando só com empresários. Ele tem que receber também outros grupos. Quando foi a última vez que o Lula sentou para conversar não como presidente falando, mas como presidente ouvindo pessoas relacionadas com o problema da terra, do meio ambiente? Não lembro. Não sei. Ou pessoas que nem nessas corporações estão. Pessoas que pensam o Brasil. Quando foi a última vez que o Lula sentou calmamente, durante uma tarde inteira - em um fim-de-semana ou até em um dia da semana em que não foi ao Palácio do Planalto -, com Hélio Jaguaribe, com Cândido Mendes, com Celso Furtado, com Aziz Ab´Saber, com Antônio Cândido? É preciso. Os grandes presidentes, como [Franklin] Roosevelt [dos EUA], tiveram esses grupos, grupos diferentes, que não estão atrás de cargo, que não estão atrás - como nós ministros sempre estamos, não vamos mentir – de parecer bem com presidente. Ministro tem que sair da audiência deixando o presidente contente. Se não, o cargo dele dança. O ministro senta ali diante de um chefe. Esses nomes que eu disse sentariam diante de uma pessoa que eles respeitam: não é o chefe, é o presidente. Ministro raramente tem peito para dizer as coisas para valer.

Leia a abertura desta entrevista em:
“Lula não tem o direito de terminar o governo sem deixar uma marca”
e a continuação em:
"Se o Lula não der certo, não há salvação para ninguém do PT"

Leia carta do início de 2004 de Buarque a Gushiken:
"Até aqui agimos como se o social e o econômico disputassem"


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