Política

“Se o Lula não der certo, não há salvação para ninguém do PT”

20/06/2004 00:00

Agência Carta Maior – Qual o objetivo do senhor com as críticas públicas do artigo?
Cristovam Buarque - Eu creio que é hora de despertar o PT. Eu escrevi pensando no leitor petista, não vou mentir para vocês. Eu pensei no que a gente chama de 800 mil membros da nação petista que, a meu ver, hoje, estão calados. Ou abandonando o barco. E não estão a meu ver sintonizados com o Estado petista. E eu não vejo nenhum futuro para “desestancar a revolução” que não seja por meio do PT e também do Lula. Mas, como o diálogo com o Lula não é um diálogo simples e fácil, então eu vou dialogar com o PT. Nenhum outro partido que está aí é capaz de carregar essa bandeira. E eu ainda coloquei no final do artigo que se o PT não carregar, outro carregará. Mas eu não vejo, dos que estão aí, nenhum com essa possibilidade.

CM –Qual deve ser o papel do PT daqui para frente? Como fazer essa pressão pela mudança e construir essa ideologia do “petismo” à qual o senhor se refere?
CB – Existe um caminho lento, que é simplesmente falar, falar, falar... Mas isso vai se “plasmar” [concretizar] numa realidade em dois momentos: no próximo Congresso do PT [previsto para o início do ano que vem] e nas prévias para a escolha do próximo candidato à presidente. Aí vai ser o grande debate. Aí vai surgir o grande projeto de nação. Por quê? Porque com o Lula não houve prévia. O projeto do PT, meu, era o Lula. Nosso projeto era o Lula. Eu, na minha cabeça, tinha um projeto de Brasil. O [ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Luiz Fernando] Furlan tinha um projeto de Brasil. O [Miguel] Rossetto [ministro do Desenvolvimento Agrário] tinha o projeto de Brasil. O [ministro da Cultura, Gilberto] Gil tinha o seu projeto. Mas não havia “o” projeto. O que nos unificava era o Lula.

O próximo candidato à presidente vai ser escolhido por meio de um debate. Não existe uma figura como o Lula. Nem o José Dirceu é unanimidade no PT. Acabou a unanimidade dentro do PT. Essa é uma mudança substancial. Em 2006, se o Lula for candidato à reeleição, dificilmente haverá prévia. Mas se o Lula não for em 2006, ou até em 2010, haverá uma prévia. E aí certamente surgirão projetos de nação. Mas eu tenho esperança de que esse projeto surja antes disso.

CM – Comandado por quem?
CB – Hoje não tem comandante. Hoje há vozes. O único comandante do PT é o Lula. Se o Lula assumisse, seria ele. Essa era a grande coisa: o Lula assumir a bandeira de toda criança na escola. Aliás, como ele assumiu o Fome Zero. Se em vez do Fome Zero, fosse um conjunto de medidas e de propostas com uma palavra nova, como foi o “desenvolvimentismo”, aí não haveria problema. Estaríamos todos com ele. Se não for agora, vai ser ninguém sabe na vez de quem. Até porque 2010 está muito longe. Vamos ter grandes prefeitos.

CM – Estamos falando de um cenário em que não haja grande frustração...
CB – Eu estou falando dentro do PT. Agora, se esse candidato que surgir desse discurso vai ganhar ou não é outro problema. Se houver a frustração, não vai ganhar. Não tem salvação para ninguém do PT se o Lula não der certo. Qualquer petista que apostar no fracasso do Lula pode guardar a gravata e a chuteira. Acabou o seu projeto pessoal. Ele pode se eleger deputado, senador, mas até para governador vai ser difícil. 

Mas, mesmo o Lula fracassando, haverá um grande debate. Talvez o debate seja ainda maior dentro do PT se [o governo Lula] não der certo. Porque, se der certo, será porque o debate terá sido feito antes, comandado por ele. Ou o comandante é Lula ou não tem comandante, ainda. E de repente pode ser um nome que ninguém nunca ouviu falar ainda. Seis anos é muita coisa.

Leia a abertura desta entrevista em:
“Lula não tem o direito de terminar o governo sem deixar uma marca”
E o trecho intermediário em:
“Não há espaço no governo para discutir um projeto de nação”

Leia carta do início de 2004 de Buarque a Gushiken:
"Até aqui agimos como se o social e o econômico disputassem"


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