Política

14 mentiras e distorções contadas por Bolsonaro na Assembleia Geral da ONU

Jair Bolsonaro discursou ontem (21) na Assembleia Geral da ONU, em Nova York. Sua fala foi marcada por distorções sobre a real situação do Brasil. Listamos as principais delas

22/09/2021 14:57

(Alan Santos/PR)

Créditos da foto: (Alan Santos/PR)

 
1.“Estamos a dois anos e 8 meses sem qualquer caso concreto de corrupção”. Diversos casos de corrupção se tornaram públicos desde o início do mandato de Bolsonaro, em janeiro de 2019. Um dos mais notáveis e recentes foi a denúncia de tentativa de propina na compra de vacinas pelo líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (PP). Outros escândalos envolveram a própria família do presidente, como é o caso das “rachadinhas” no gabinete de seu filho, Flávio Bolsonaro, quando ainda era deputado estadual do Rio de Janeiro. Também foram levantadas evidências e suspeitas do envolvimento da família com as milícias cariocas.

2.“Nossas estatais davam prejuízos de bilhões de dólares”. De 1997 até 2013, as estatais brasileiras (Petrobras, Banco do Brasil e Eletrobras) foram sempre lucrativas. Nos anos de 2014, 2015 e 2016, diante da crise, o lucro líquido das empresas foi negativo, situação que se reverteu em 2017. Naquele ano, as estatais brasileiras se tornaram lucrativas novamente, com um crescimento de 214%. Em 2018, o crescimento foi de 147%. Em 2019, as estatais na mira da privatização pelo ministro da economia, Paulo Guedes, bateram recorde de lucro de R$ 57 bilhões. Se contarmos todas as 46 empresas estatais e seu desempenho no ano de 2020, mesmo com a pandemia, o lucro total foi de R$ 60,6 bilhões.

3.“Meu governo recuperou a credibilidade externa e hoje se apresenta como um dos melhores destinos para investimentos”. O investimento estrangeiro no Brasil atingiu o pior patamar dos últimos 12 anos, segundo uma pesquisa publicada em agosto de 2021 pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), ligada a Organização das Nações Unidas (ONU). Além disso, o Brasil vem ocupando com frequência as manchetes de jornais estrangeiros, que escrevem com preocupação sobre as ações políticas do governo Bolsonaro, em especial aquelas relacionadas ao desrespeito dos direitos humanos e das normas de proteção ambiental. Após os atos do 7 de setembro convocadas pelo presidente, a bolsa teve uma queda de quase 4%; especialistas apontam para a perda de confiança do mercado no governo diante da instabilidade política.

4. “Grande avanço vem acontecendo na área do saneamento básico. O maior leilão da história do setor foi realizado (...) com a concessão ao setor privado do serviço de distribuição de água e esgoto no RJ”. Enquanto o Brasil avança para a privatização dos serviços de saneamento, outros países fazem o movimento contrário. De acordo com um mapeamento feito por onze organizações europeias e publicado pela BBC, de 2000 a 2017 foram registrados 267 casos de reestatização de sistemas de água e esgoto na Europa. A privatização levou a serviços inflacionados, ineficientes e com investimentos insuficientes em cidades como Paris e Berlim.

5.“Nossa moderna e sustentável agricultura de baixo carbono alimenta mais de 1 bilhão de pessoas no mundo e utiliza apenas 8% do território nacional”. Em pesquisa publicada em março deste ano, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) afirmou que o agronegócio brasileiro é responsável por alimentar 800 milhões de pessoas no mundo. Contudo, uma reportagem publicada pelo O Joio e o Trigo, portal de jornalismo investigativo sobre alimentação, apurou que o cálculo utilizado pelos pesquisadores foi uma simples regra de três. Para calcular a contribuição da produção brasileira de grãos e carnes bovinas em relação à produção mundial destas commodities, foram usadas as seguintes constantes: população mundial, produção brasileira e produção global de grãos, enquanto a incógnita era a população alimentada pelo Brasil. Como o Brasil é responsável por cerca de 10% da produção mundial de trigo, soja, milho, cevada, arroz e carne bovina, os pesquisadores concluíram que atualmente estaríamos alimentando 10% da população mundial – 800 milhões de pessoas. O problema é que diversas variáveis foram excluídas do cálculo, tais como: a destinação dos grãos, os desperdícios na cadeia produtiva, desigualdades de consumo e dados sobre insegurança alimentar.

“Confundiram alimento com ração, pressupondo que a população mundial poderia ser alimentada com soja e milho”, afirmou o engenheiro agrônomo Leonardo Melgarejo, ao Joio e o Trigo. Walter Belik, professor aposentado do Instituto de Economia da Unicamp e diretor-geral adjunto do Instituto Fome Zero, também ouvido pela reportagem, criticou o fato da pesquisa considerar que toda a população brasileira está “alimentada adequadamente” pelo Agro. “Não dá pra dizer que você está alimentando o mundo se você mal alimenta a população do seu país (...) A disponibilidade do alimento é um dos problemas, mas há um outro fator, mais importante até que é o acesso à alimentação” afirmou. Segundo um estudo do grupo Alimento para Justiça: Poder, Política e Desigualdades Alimentares na Bioeconomia, da Universidade Livre de Berlim, na Alemanha, 59,3% da população brasileira sofreu com insegurança alimentar durante a pandemia; a pesquisa foi realizada entre agosto e dezembro de 2020. Contraditoriamente, o PIB do agronegócio teve recorde de 24,31% no mesmo ano, com a alta de exportações – em especial da soja.

6.“Promovemos o ressurgimento do modal ferroviário. Como reflexo temos menos consumo de combustíveis fósseis e barateamento da produção de alimentos”. No final de agosto deste ano, Bolsonaro editou uma medida provisória que institui o novo marco legal do transporte ferroviário. O texto altera o atual regime jurídico da categoria, permitindo construções sem a obrigatoriedade de licitações, com o objetivo de liberar o setor à iniciativa privada. No sistema anterior, as ferrovias eram consideradas de domínio público e só poderiam ser operadas por um parceiro privado em regimes de concessão ou permissão, via licitação. Não existem resultados em relação ao desenvolvimento do modal ferroviário.

7. “Os recursos humanos e financeiros destinados ao fortalecimento dos órgãos ambientais foram dobrados, com vistas a zerar o desmatamento ilegal”. Apesar do aumento de incêndios na Amazônia, Pantanal e Cerrado, Bolsonaro cortou os orçamentos do Ibama e do ICMBio em 2021. Mesmo após a Cúpula do Clima, em abril deste ano, o presidente cortou novamente a verba para o meio ambiente: foram R$ 240 milhões que deveriam ser destinados ao combate às mudanças climáticas, ao controle de incêndios florestais e fomento de projetos de conservação do meio ambiente. O desmatamento vem aumentando desde a posse de Bolsonaro: de julho de 2019 a agosto de 2020, houve uma alta de 34% no desmatamento na Amazônia, de acordo com o Inpe. Os oito primeiros meses de 2021 registraram um índice de desmatamento 8,2% maior do que o mesmo período em 2020.

8. “Na Amazônia tivemos redução de 32% do desmatamento no mês de agosto se comparado a agosto do ano anterior”. Em agosto de 2021 o índice de desmatamento na Amazônia foi o maior em 10 anos, segundo o Imazon.

9. “Nenhum país do mundo possui uma legislação ambiental tão completa como a nossa. 66% (do território) é vegetação nativa, a mesma desde seu descobrimento em 1500. No bioma amazônico, 84% da floresta está intacta”. A legislação ambiental no Brasil é avançada, porém pouco respeitada, alertam especialistas. Apesar de 66% do território brasileiro ser coberto por vegetação nativa, isso não significa que são áreas preservadas, relembra o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam). Segundo o mapeamento da vegetação brasileira levantado pelo MapBiomas em agosto de 2020, pelo menos 9,3% de toda a vegetação natural do Brasil é secundária, ou seja, são áreas que já foram desmatadas e convertidas para uso antrópico pelo menos uma vez. Da área que nunca foi desmatada, há uma fração que já foi degradada pelo fogo ou pela exploração madeireira predatória. Entre 1985 e 2019, o Brasil perdeu 10% do território em vegetação nativa, o equivalente a 87,2 milhões de hectares; as imagens mostraram também que o ritmo de perda acelerou entre 2018 e 2019.

Mais da metade dessa perda foi na Amazônia, seguida pelo Cerrado. O Pampa teve uma taxa de diminuição de cobertura vegetal em 20%. Para o Pantanal, a destruição de vegetação nativa foi de 12%, com aumento de 4,7 vezes da área total de pastagens plantadas. Na Caatinga, a queda foi de 11%, com expansão de 26% para agropecuária. Na Mata Atlântica, encontram-se 57% das áreas urbanas do país. De toda a perda de vegetação natural no Brasil, incluindo floresta, savana, campos e mangue, pelo menos 90% foram ocupados pelo uso agropecuário, cuja expansão foi de 78 milhões de hectares (43% de crescimento desde 1985), segundo o Ipam.

10.“O Brasil é um exemplo na geração de energia, com 83% advinda de forças renováveis”. O Brasil vive atualmente uma grave crise hídrica e consequentemente, elétrica, já que a matriz elétrica brasileira é 63,2% dependente das hidrelétricas. Estudos apontam que o aumento do desmatamento está diretamente ligado a diminuição das chuvas. Uma pesquisa do Instituto de Ciências da Atmosfera e do Clima do Conselho Nacional de Pesquisas de Turim (Itália), publicado na revista Global Change Biology no mês passado, mostra que a perda de vegetação na Amazônia gera uma redução de 55% a 70% na precipitação anual. A região Nordeste é a mais avançada quanto a produção de energia renovável, com índice acima de 80%. Em todo território nacional, a energia renovável corresponde a 48% da matriz energética brasileira.

11. “14% do território nacional (..) é destinado as reservas indígenas. Nessas regiões 600 mil indígenas vivem em liberdade e desejam utilizar suas terras para a agricultura e outras atividades”. Cerca de 13% do território nacional é composto pelas Terras Indígenas (Tis), que recebem constantes ameaças da bancada ruralista no Congresso Nacional. O governo Bolsonaro apoia o Marco Temporal, pelo qual indígenas podem reivindicar a demarcação de terras apenas se estas eram por eles ocupadas durante a promulgação da Constituição de 1988; a proposta ignora os deslocamentos forçados de povos indígenas durante a ditadura militar. Além disso, o desmatamento em terras indígenas aumentou 35,6% no primeiro semestre deste ano e o garimpo 56,2%, de acordo com dados do Inpe. Em julho de 2021, o Brasil de Fato repercutiu uma notícia sobre uma cooperativa ligada ao agronegócio que dividiu indígenas do povo Xavante na Terra Indígena Sangradouro/Volta Grande, Mato Grosso, área cercada por plantações de monocultura. A iniciativa chamada de “Independência Indígena” incentivaria a exploração agrícola da terra protegida, destinado 80% do plantio aos produtores rurais e apenas 20% aos Xavante.

12. “Sempre defendi combater o vírus e o desemprego (...) no Brasil, para atender aqueles mais humildes obrigados a ficar em casa por governadores e prefeitos (...) concedemos um auxílio emergencial de 800 dólares”. Desde a chegada da Covid-19 no Brasil, Bolsonaro promoveu discursos negacionistas contra o uso de máscaras e o distanciamento social, ambas recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS). O presidente defendeu o tratamento precoce, como fez novamente durante seu discurso na Assembleia dessa terça (21), contrariando os estudos publicados nacionalmente e internacionalmente sobre a ineficácia de remédios como a hidroxicloroquina no combate ao novo coronavírus. Seu governo ignorou e-mails do laboratório Pfizer para a compra de vacinas, como ficou comprovado na CPI da Covid, o que atrasou de forma fatal a imunização no país. Em 2020, Bolsonaro concedeu o auxílio emergencial a parte mais vulnerável economicamente da população no valor de R$ 600 (130 dólares) e R$ 1200 (223 dólares) para mães solteiras chefes de família. Em 2021, o auxílio caiu para R$ 150 (28,44 dólares) e R$ 375 (71,11 dólares) para mães solteiras. O valor é baixo, dada a inflação, que levou a alta dos preços dos alimentos, gás de cozinha, luz e gasolina. O valor de 800 dólares (R$ 4224,72) declarado por Bolsonaro refere-se a soma das parcelas em um ano por beneficiado.

13.“No último 7 de setembro, milhões de brasileiros foram às ruas na maior manifestação de nossa história, mostrar que não abrem mão da democracia”. As manifestações do 7 de setembro foram marcadas por diretrizes antidemocráticas e inconstitucionais, como o fechamento do Supremo Tribunal Federal e a prisão de seus ministros, além de contar com enaltecedores da ditadura militar. Apesar do número de pessoas nas ruas ter sido alto, foi menor do que o esperado pelos organizadores; os atos não bateram recordes históricos.

14. “Na economia temos um dos melhores desempenhos entre os emergentes”. Apesar de seu potencial econômico, o Brasil ficou na 16ª posição entre os 17 países que compõem o ranking de desempenho econômico de mercados emergentes, segundo projeção da Bloomberg. Em 2021, o Brasil ficou em 57º lugar no ranking de inovação, de acordo com o Índice Global de Inovação (IGI), dez posições atrás da que ocupava em 2011 – quando teve o melhor resultado de sua história no levantamento. Entre os Brics, o Brasil aparece em penúltimo lugar e entre os países da América Latina, em 4º lugar, atrás do Chile, México e Costa Rica.

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