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Política

A Bíblia e a metralhadora: a ascensão da extrema direita brasileira

O Brasil vive hoje uma reestruturação de seu cenário político, após uma década dominada pelo Partido dos Trabalhadores (PT) e sua figura emblemática, Lula

23/08/2017 11:49

 

 
Empoleirado num carro de som, com a mão no coração, um grupo de homens e mulheres vestindo roupas camufladas entoa o hino nacional brasileiro sob uma bandeira "Intervenção militar já". É domingo, dia 4 de dezembro de 2016, e estamos em plena na avenida Paulista, principal artéria de São Paulo, coração da capital econômica do país. Ao redor, não mais que uma centena de pessoas expressam seu apoio, mais ou menos exaltado, a esses patriotas que integram pequenos grupos formados por ex-soldados e policiais.

Nesse dia, ocorria a última grande manifestação organizada pelos movimentos Vem Pra Rua e Movimento Brasil Livre, oficialmente um ato contra a corrupção dos parlamentares. Essas duas organizações estiveram à frente das manifestações anti-PT de 2015 e 2016 em que exigiam a destituição da presidente Dilma Rousseff, derrubada definitivamente em agosto do ano passado. A presença de militantes "pró-exército" da SOS Forças Armadas no ato é surpreendentemente bem tolerada pelos manifestantes de direita que tiram selfies um pouco à frente com os policiais militares encarregados da segurança da manifestação.

"As forças armadas no Brasil têm uma imagem pública muito positiva desde a Segunda Guerra Mundial", explica a historiadora Maud Chirio, que estuda a ditadura militar brasileira [1]. “Apesar da ditadura, essa imagem não se arranhou. É algo muito surpreendente se comparado ao que ocorreu em países vizinhos como a Argentina e o Chile, onde a imagem das forças armadas se deteriorou. A confiança nos militares na defesa das fronteiras, mas também da ordem pública e mesmo como força política está presente em grande parte da sociedade."
 
Jair Bolsonaro, o nome em ascensão
O ressurgimento de ideias patrióticas, minoritárias, porém reais, se reflete hoje no crescente interesse de parte da população e da mídia pelo deputado Jair Bolsonaro, um dos poucos políticos que escaparam do caos político reinante, pelo menos por enquanto. Adepto de declarações de impacto, que muitas vezes esbarram em misoginia, homofobia ou racismo, este capitão da reserva do exército, como gosta de lembrar – e que tem um assento na Câmara dos Deputados desde 1991 – é regularmente considerado como candidato provável às eleições presidenciais de 2018. Pesquisas recentes dão a ele 15% das intenções de voto – número que, há dois anos, era de 4%.

O político não se define como de "extrema-direita", mas não esconde sua simpatia pelos militares. Gosta de armas e gostaria que todos os cidadãos pudessem ter uma. Ele próprio carrega uma – descarregada, ele diz – que às vezes exibe na TV. Aparece sorridente nas redes sociais com personalidades sulfurosas como o sargento Fahur, agente da polícia militar do Estado do Paraná, conhecido por frases virulentas contra os "bandidos" e por suas prisões espetaculares transmitidas na TV. Entre os apoiadores do deputado pelo Rio de Janeiro, muitos repetem que "bandido bom é bandido morto", defendem a instauração da pena de morte e a redução da maioridade penal para 16 anos. "Lugar de bandidos é na prisão ou no cemitério", diz a página do Facebook do sargento Fahur.

Jair Bolsonaro adora polêmicas: "Os direitos humanos só servem para defender bandidos, estupradores, sequestradores, marginais e corruptos", afirmou, no plenário da Câmara. Em abril de 2016, durante a votação na Câmara dos Deputados que deu início ao processo de impeachment de Dilma Rousseff, o deputado homenageou o coronel Ustra, um dos maiores torturadores da ditadura militar brasileira – o objetivo era atingir pessoalmente a presidenta Dilma, ela própria vítima de tortura em interrogatórios quando foi presa por sua atuação na resistência ao regime militar (Dilma ficaria três anos presa). Bolsonaro também é réu no STF por crime de incitação ao estupro, cometido durante discussão com a deputada Maria do Rosário (PT-RS), em 2014.
 
Espaço midiático e investimento nas redes sociais
Combatido por militantes de esquerda, Jair Bolsonaro consegue seduzir muitos brasileiros com sua personalidade "sem filtro", principalmente na internet. Ele não é, no entanto, a figura principal de nenhum partido. Ex-membro do Partido Progressista (PP), é hoje deputado pelo Partido Social-Cristão (PSC), mas ainda não decidiu sob que legenda concorrerá a seu próximo mandato – talvez presidencial. Mais de quatro milhões de pessoas o seguem no Facebook – mais do que o número de seguidores do ex-presidente Lula. Seus seguidores, chamados de "bolsonaristas", têm um perfil bastante jovem e de classe média baixa do sul do país. Nos últimos meses, vêm inundando as redes sociais – sobretudo Facebook e grupos de WhatsApp, muito ativos no Brasil – com mensagens de apoio e suas intervenções na mídia, que se multiplicam.
 
Sua intenção é mostrar o rosto de um homem que se diferencia do resto da classe política corrupta. Um homem capaz de "pôr ordem" no país. Entre os sites e páginas que o apoiam, criados nos últimos meses, estão os Revoltados on-line, que defendem o liberalismo econômico, impostos mais baixos e o fim dos programas sociais; a organização Direita São Paulo, conhecida recentemente por manifestações e posições cargos anti-imigrantes, ou ainda "Eu era direita e não sabia", que tenta ganhar adeptos entre os decepcionados com o PT.
 
Ainda que tente fazer o papel do político "perseguido pela mídia", que critica suas posições radicais, o deputado tem alguns apoios na opinião pública, através de jornalistas como Rachel Sherazade, apresentadora do SBT, que não esconde suas opiniões conservadoras nos jornais televisivos que apresenta, ou ainda alguns editores da revista semanal de direita Veja.
 
Avanço do fundamentalismo religioso
No campo político brasileiro, Jair Bolsonaro pertence ao movimento conservador poderoso chamado de "Bancada BBB" para "bala, Bíblia, boi": uma denominação que reúne os parlamentares ligados aos interesses da polícia militar, das igrejas evangélicas e do agronegócio. A maioria deles defende os valores da família, valores cristãos e patrióticos, e os interesses da oligarquia dos latifundiários. Entre os mais reacionários nas questões comportamentais, como o direito ao aborto ou os direitos das minorias sexuais, estão muitos deputados que são igualmente pastores ou pregadores de TV, como Marco Feliciano ou Magno Malta.
 
No Brasil, as correntes religiosas extremistas vêm conquistando espaço nas últimas duas décadas. Hoje, quase 29% da população declaram-se evangélica, contra 9% em 1991. No mesmo período, os católicos passaram de 83% para 50% [2]. Na política, sua influência é cada vez mais acentuada, especialmente com homens como Eduardo Cunha, que presidiu a Câmara dos Deputados antes de ser preso por corrupção, ou Marcello Crivella, recém-eleito prefeito do Rio de Janeiro, a segunda maior cidade do país, além de bispo da Igreja universal do reino de Deus.
 
Agenda moral e projeto neoliberal
"Logo que chegou à presidência da Câmara, Cunha criou uma comissão especial para discutir a reforma do status da família", lembra Maria Das Dores Campos Machado, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro e especialista em religiões no Brasil. “Esta Comissão propõe definir a família como uma união entre um homem e uma mulher, ou a comunidade formada por um dos pais e seus descendentes, para estabelecer cursos de educação familiar e um Dia Nacional para a valorização da família nas escolas”. De acordo com a pesquisadora, desde o início da legislatura de 2014, os movimentos extremistas católicos se aliaram a parlamentares pentecostais a fim de evitar a ampliação dos direitos sexuais e reprodutivos e impor uma agenda política conservadora.
 
"A agenda moral articula-se com um projeto neoliberal e com os interesses econômicos de certos grupos confessionais", analisou Maria Das Dores Campos Machado durante intervenção em Paris [3], em maio de 2017. “As alianças dos religiosos com representantes da agroindústria, da indústria de armamentos e com a elite política do PSDB para derrubar o governo do PT foram possíveis porque iam além da moralidade. O espírito anticomunista de vários líderes pentecostais também favoreceu a aproximação com os católicos fundamentalistas. Isso resultou em medidas como a remoção do tema de orientação sexual e gênero nos currículos escolares pelo Ministério da Educação do governo de Temer."


As ideias extremas penetram de forma lenta, mas profunda
“No Brasil, até recentemente, poucos ousavam se dizer de direita", lembra Maud Chirio. Há ainda menos partidos ou organizações que se reivindicam de extrema-direita. No entanto, as ideias extremas estão penetrando de forma lenta, mas profunda. "Nos últimos anos, aumentou o número de manifestações que questionam a dignidade humana e a igualdade, ou que defendem a violência policial nas favelas", diz o historiador Luís Edmundo de Souza Moraes, especialista em extremismos no Brasil [4]. Não são reivindicações novas, mas se manifestam de forma mais intensa. Na brecha aberta pelos protestos anti-PT de 2015 e 2016, um novo espaço político surgiu. "Através de programas de rádio e televisão e das redes sociais", continua o pesquisador, "uma certa visão do mundo está sendo propagada, sempre capaz de transformar-se em ação política."

Esta passagem do campo das ideias para as ações provavelmente já está em andamento, como evidenciam os ataques brutais do governo e dos deputados atuais às instituições e aos direitos ambientais e trabalhistas, bem como a onda de assassinatos de camponeses. O Brasil talvez já esteja vivendo uma das mais graves regressões políticas, sociais e ambientais de sua história.
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[1] Maud Chirio é palestrante na Universidade de Paris-Est Marne-la-Vallée, pesquisadora-associada na École des Hautes Études en Sciences Sociales, no departamento "Mondes américains". É especialista em ditadura brasileira, forças armadas, aparelhos repressivos e redes de extrema-direita durante o regime militar.

[2] Fontes: Datafolha e IBGE.

[3] Apresentação sobre as religiosidades reacionárias, EHESS, Paris, maio de 2017.

[4] Luís Edmundo de Souza Moraes é pesquisador da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).



Créditos da foto: