Política

A Guerra de Bolsonaro

 

12/09/2021 12:56

Marcos Corrêa (PR)

Créditos da foto: Marcos Corrêa (PR)

 
Bolsonaro tem adotado táticas de guerra em sua movimentação política. Ao assumir, deixou claro que não iria governar. Declarou: Vim para destruir, não para construir. E, convenhamos, tem sido muito eficiente na sua proposta de destruição. Vem destruindo sistematicamente a educação, saúde, cultura, ciência, meio ambiente, direitos humanos, política externa etc. E vem utilizando fake news como política oficial de governo, seguindo as recomendações de Olavo de Carvalho e seu mestre Steve Bannon, o idealizador das fake news vitoriosas na votação do Brexit no Reino Unido em junho de 2016, na vitória de Trump nos EUA em novembro de 2016 e na eleição de Bolsonaro em novembro de 2018.

Sempre que atacado, Bolsonaro parte para manobras de diversificação. Faz uma declaração absurda, anuncia uma ação administrativa ilegal, ameaça uma decisão estapafúrdia ou baixa um decreto inconstitucional. Está sempre atraindo o inimigo para um campo enquanto prepara ou ataca em outro. É conhecida a famosa frase de von Clausewitz, segundo a qual a guerra é a continuação da política por outros meios. O objetivo militar é apenas um meio de atingir um fim político. Desde o princípio, está claro o fim político de Bolsonaro: destruir a democracia e tornar-se ditador. Para atingir seu fim, vem avançando sistematicamente.

Seu avanço militar vem conquistando terreno, sempre em deslocamentos. Bolsonaro faz guerra de movimento. Seus adversários fazem guerra de posição, entrincheirados em suas linhas defensivas legais. Chegamos a um ponto, porém, em que Bolsonaro, em seus movimentos, começou a esbarrar nas trincheiras de defesa da democracia. Vai ser obrigado a fazer guerra de posição, o que não é o seu forte.

No plano institucional, a principal trincheira inimiga é o STF, já que o Congresso, em sua maioria, dá passagem a suas tropas, com poucas exceções. No plano social, as manifestações de rua, até agora de esquerda, tendem a aumentar, incorporando setores de centro e centro direita que abandonaram o barco de apoio a Bolsonaro, percebendo, enfim, que só teriam a perder com a ditadura por ele almejada.

Bolsonaro não ganha mais nada sob o regime democrático. Avançou o quanto pôde. Sabe que vai perder a eleição e quer “melar o jogo”, tentar o golpe, provavelmente no modelo boliviano: os agentes seriam os PMs, milicianos, praças, seguranças, ativistas armados, contando com a neutralidade do Exército que cruzaria os braços.

Mas, no dia 7 de setembro, Bolsonaro não entregou o que prometeu. Ele se apropriou da data da independência do Brasil, fez discurso golpista e estimulou os caminhoneiros a bloquear as estradas em diversos Estados do país. Com a iminência do caos e dos prejuízos para a economia, foi pressionado e pediu a liberação das estradas, deixando os caminhoneiros bolsonaristas relegados à própria sorte. E os PMs não se rebelaram, conforme se especulava.

E dois dias depois, pede o apoio do ex-presidente Michel Temer para “fazer as pazes” com o Ministro Alexandre de Moraes. Assinou uma Nota oficial tentando se redimir do desastre de sua atuação em 7/9, seja porque aumentou o apoio político ao impeachment, seja porque o inquérito das fake news, dirigido no STF por Alexandre de Moraes, chegou no filho 02, o Carluxo, e no próprio presidente. Estimulou o golpe e se viu obrigado a um recuo tático, pagando alto preço político com grande desgaste junto a seus apoiadores. No melhor estilo fascista, anunciou “prisão, morte ou vitória”. Não foi preso, não morreu e acabou derrotado, obrigado a uma trégua.

Desde o ano passado, alguns militantes, cientistas políticos, jornalistas e parlamentares vêm alertando a população para a necessidade de uma Frente Ampla como único meio eficaz de defesa da democracia, cada vez mais ameaçada pelo projeto golpista de Bolsonaro. O modelo das Diretas Já, nos anos 80, foi várias vezes mencionado. As manifestações eram convocadas por entidades não partidárias como a OAB, ABI e CNBB, com total apoio dos sindicatos, partidos, movimentos sociais e diversas associações da sociedade civil. As manifestações massivas, com enorme participação popular, contribuíram para a redemocratização do país, apesar da derrota na votação do Congresso.

Como ninguém acredita no “arrependimento” de Bolsonaro, a manifestação golpista do 7/9 não deixa dúvida sobre o caminho a seguir. É necessário aprovar com urgência um programa mínimo de defesa da democracia, unindo todos os que rejeitam o projeto fascista de implantar uma ditadura no país. Tudo indica que Bolsonaro não recupera mais o apoio perdido. As pesquisas de intenção de voto já dão maioria folgada para Lula no segundo turno e talvez vitória ainda no primeiro. A Pesquisa IPESPE (Valor, 3/9/2021) mostra que, em São Paulo, Lula venceria Bolsonaro, o que é surpreendente.

Segundo diversos analistas políticos, os defensores da terceira via, que rejeitam Lula e Bolsonaro, só teriam uma chance de vencer a eleição: derrubar Bolsonaro e lançar um candidato contra Lula. Essa é a grande articulação já iniciada pelos empresários da Faria Lima, convencidos de que não haverá mais recuperação econômica neste governo. Mas tudo indica que o processo de impeachment não será aberto pelo Presidente da Câmara dos Deputados, líder do Centrão que, na prática, governa o país e controla o Orçamento Secreto de 18 bilhões.

A prioridade de Bolsonaro é atacar o STF, último front de defesa da Constituição e da Democracia. O ministro Alexandre Moraes incluiu Bolsonaro no inquérito que investiga as fake news, o ministro Luís Roberto Barroso autorizou o Senado abrir a CPI da pandemia e liderou a campanha em defesa da urna eletrônica, vitoriosa em votação no Congresso, em derrota de Bolsonaro. Mas as ações no Supremo esbarram na resistência do bolsonarista Procurador Geral da República, Augusto Aras, que sonha com sua nomeação para Ministro do STF.

Restaria apenas um caminho: um inquérito administrativo instaurado no TSE condenaria Bolsonaro por crimes contra a Constituição e o tornaria inelegível para 2022. Crimes não faltam, sobram. Entre eles, notícias falsas contra o TSE, fake news contra as urnas eletrônicas e o processo eleitoral. A indústria de fake news controlada pelo Governo estimula o ódio e espalha mentiras e falsas conspirações. Um estudo do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) demonstrou que uma falsa informação tem 70% mais de probabilidade de ser compartilhada na internet do que uma notícia verdadeira A falsa é geralmente mais original e seis vezes mais rápida do que uma verdadeira para atingir 1.500 pessoas (Giuliano Da Empoli, Os Engenheiros do Caos).

A decisão inédita de tornar Bolsonaro inelegível é uma hipótese a ser adotada em último caso. Uma decisão dessas supõe apoios expressivos de lideranças políticas, empresariais e até militares. Como os comandantes da Aeronáutica e Marinha são bolsonaristas, o peso decisivo recairia nas costas do comandante do Exército, mais independente ou menos comprometido. Para alguns analistas políticos, porém, os militares e os parlamentares do Centrão não apoiariam a candidatura de Bolsonaro que seria rifado em favor de uma candidatura conservadora, palatável ao mercado e às Forças Armadas.

Mas a ditadura é o objetivo político de Bolsonaro. Para chegar lá, ele trava uma guerra. Avanços e recuos fazem parte da guerra. Ele recuou pela perda de apoio político e ameaça de impeachment, além de seu envolvimento no inquérito das fake news no STF. Vai certamente retomar mais adiante seu projeto de tentar o golpe. Se vai ganhar, é outra questão. O papel dos militares é a grande incógnita desse problema.







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