Política

A esquerda está em ascensão na América Latina à medida que eleições chave se aproximam

A crescente desigualdade e as economias em crise ajudam a alimentar uma onda de vitórias da esquerda que em breve se estenderá ao Brasil e à Colômbia

06/01/2022 15:33

Manifestação em São Paulo contra o presidente Jair Bolsonaro do Brasil. Bolsonaro, um líder de direita, enfrenta uma luta muito difícil pela reeleição (Mauricio Lima para o New York Times)

Créditos da foto: Manifestação em São Paulo contra o presidente Jair Bolsonaro do Brasil. Bolsonaro, um líder de direita, enfrenta uma luta muito difícil pela reeleição (Mauricio Lima para o New York Times)

 

RIO DE JANEIRO - Nas semanas finais de 2021, Chile e Honduras votaram decisivamente em presidentes de esquerda para substituir os líderes de direita, estendendo uma mudança significativa de vários anos por toda a América Latina.

Neste ano, os políticos de esquerda são os favoritos para ganhar as eleições presidenciais na Colômbia e no Brasil, substituindo os titulares de direita, o que colocaria a esquerda e a centro-esquerda no poder nas seis maiores economias da região, que se estendem de Tijuana à Terra do Fogo.

Sofrimento econômico, crescente desigualdade, fervoroso sentimento contra os governantes no poder e má administração da Covid-19, tudo isso alimentou um afastamento do pêndulo para longe dos líderes de centro-direita e direita que eram dominantes alguns anos atrás.

A esquerda tem prometido uma distribuição mais equitativa da riqueza, melhores serviços públicos e ampla expansão das redes de segurança social. Mas os novos líderes da região enfrentam sérias restrições econômicas e oposição legislativa que podem restringir suas ambições, além de eleitores inquietos que estão dispostos a punir quem não as cumprir.

Os ganhos da esquerda podem impulsionar a China e minar os Estados Unidos na competição por influência regional, dizem analistas. A nova safra de líderes latino-americanos está desesperada por desenvolvimento econômico e mais aberta à estratégia global de Pequim de oferecer empréstimos e investimentos em infraestrutura. A mudança também pode tornar mais difícil para os Estados Unidos continuar a isolar regimes autoritários de esquerda na Venezuela, Nicarágua e Cuba.

Com a inflação em alta e as economias estagnadas, os novos líderes da América Latina terão dificuldades para realizar mudanças reais nos problemas profundos, disse Pedro Mendes Loureiro, professor de estudos latino-americanos da Universidade de Cambridge. Até certo ponto, disse ele, os eleitores estão “elegendo a esquerda simplesmente porque é a oposição no momento”.

A pobreza atingiu o pico de 20 anos em uma região onde um boom de commodities de curta duração permitiu que milhões ascendessem à classe média após a virada do século. Vários países enfrentam agora o desemprego de dois dígitos e mais de 50% dos trabalhadores da região estão empregados no setor informal.

Escândalos de corrupção, infraestrutura dilapidada e sistemas de saúde e educação cronicamente subfinanciados corroeram a fé em líderes e instituições públicas.

Moradores de rua fazem fila para receber almoço de voluntários em São Paulo em agosto. “A questão agora é a frustração, o sistema de classes, a estratificação”, disse um analista. Crédito ... Mauricio Lima para o New York Times

Ao contrário do início dos anos 2000, quando políticos de esquerda conquistaram presidências críticas na América Latina, os novos governantes estão sobrecarregados de dívidas, orçamentos escassos, difícil acesso ao crédito e, em muitos casos, oposição feroz.

Eric Hershberg, diretor do Centro de Estudos Latino-Americanos e Latinos da American University, disse que a sequência de vitórias da esquerda nasce de uma indignação generalizada.

“Na verdade, trata-se de setores da classe média baixa e da classe trabalhadora dizendo: 'trinta anos de democracia e ainda temos que pegar um ônibus decrépito por duas horas para chegar a um posto de saúde precário'”, disse Hershberg. Ele citou a frustração, a raiva e “uma sensação generalizada de que as elites têm enriquecido, têm sido corruptas, não têm atuado no interesse público”.

A Covid devastou a América Latina e devastou economias que já eram precárias, mas a inclinação política da região começou antes da pandemia.

Luiz Inácio Lula da Silva, o ex-líder de esquerda do Brasil, tem uma vantagem considerável sobre Bolsonaro em um confronto direto, de acordo com uma pesquisa recente. Crédito ... Mauro Pimentel / Agence France-Presse - Getty Images

O primeiro marco foi a eleição no México de Andrés Manuel López Obrador, que conquistou a presidência com uma vitória esmagadora em julho de 2018. Ele declarou durante seu discurso na noite da eleição: “o Estado deixará de ser um comitê a serviço de uma minoria e passará a representar todos os mexicanos, pobres e ricos”.

No ano seguinte, os eleitores do Panamá elegeram um governo de centro-esquerda, e o movimento peronista argentino teve um retorno impressionante, apesar do legado de corrupção e má gestão econômica de seus líderes. O presidente Alberto Fernández, um professor universitário, celebrou seu triunfo sobre um presidente conservador prometendo “construir a Argentina que merecemos”.

Em 2020, Luis Arce derrotou rivais conservadores para se tornar presidente da Bolívia. Ele prometeu continuar o legado do ex-líder Evo Morales, um socialista cuja destituição no ano anterior deixou o país nas mãos de uma presidente de direita.

Em abril passado, Pedro Castillo, um professor de uma escola rural, chocou o establishment político do Peru ao derrotar, por estreita margem, a candidata de direita à presidência Keiko Fujimori. Castillo, um recém-chegado à política, protestou contra as elites e apresentou sua história de vida - um educador que trabalhava em uma escola rural sem água encanada ou sistema de esgoto - como uma personificação de suas falhas.

Em Honduras, a presidente eleita Xiomara Castro, uma socialista que propôs um sistema de renda básica universal para famílias pobres, venceu com folga um rival conservador em novembro.

Xiomara Castro, que ganhou as eleições em Honduras, propôs um sistema de renda básica universal para famílias pobres. Crédito ... Daniele Volpe para o New York Times

A vitória mais recente da esquerda veio no mês passado no Chile, onde Gabriel Boric, um ex-ativista estudantil de 35 anos, derrotou um rival de extrema direita ao prometer aumentar os impostos dos ricos para oferecer pensões mais generosas e expandir amplamente os serviços sociais.

A tendência, contudo, não é universal. Nos últimos três anos, eleitores em El Salvador, Uruguai e Equador moveram seus governos para a direita. E no México e na Argentina no ano passado, os partidos de centro-esquerda perderam terreno nas eleições legislativas, prejudicando seus presidentes.

Mas, de modo geral, Evan Ellis, professor de estudos latino-americanos no US Army War College, disse que em sua memória nunca houve uma América Latina “tão dominada por uma combinação de líderes populistas de esquerda e anti-EUA”.

“Em toda a região, os governos de esquerda estarão particularmente dispostos a trabalhar com os chineses em contratos de governo para governo”, disse ele, e possivelmente “relativos à colaboração em segurança, bem como em tecnologia”.

Jennifer Pribble, professora de ciência política da Universidade de Richmond que estuda a América Latina, disse que os números brutais da pandemia na região tornaram cada vez mais populares as iniciativas da esquerda, como transferências de dinheiro e saúde universal.

“Os eleitores latino-americanos agora têm uma noção mais apurada do que o Estado pode fazer e da importância do Estado se engajar em um esforço redistributivo e na prestação de serviços públicos”, disse ela. “Isso molda essas eleições, e claramente a esquerda pode falar mais diretamente sobre isso do que a direita”.

Gabriel Boric, um ex-ativista estudantil, prometeu uma vasta expansão dos serviços sociais no Chile. Crédito ... Marcelo Hernandez / Getty Images

Na Colômbia, onde as eleições presidenciais estão marcadas para maio, Gustavo Petro, ex-prefeito progressista de Bogotá, que pertenceu a um grupo guerrilheiro urbano, tem uma liderança consistente nas pesquisas.

Sergio Guzmán, diretor da Colômbia Risk Analysis, uma empresa de consultoria, disse que as aspirações presidenciais de Petro se tornaram viáveis depois que a maioria dos combatentes das FARC, um grupo guerrilheiro marxista, largou as armas como parte de um acordo de paz firmado em 2016. O conflito, que perdurou por muito tempo, não mais domina a política colombiana.

“A questão agora é a frustração, o sistema de classes, a estratificação, aqueles que têm e aqueles que não têm”, disse ele.

Pouco antes do Natal, Sonia Sierra, 50, revelou, em frente a pequena cafeteria que explora no principal parque urbano de Bogotá, que seus ganhos despencaram, primeiro em meio à pandemia e depois quando uma comunidade expulsa pela violência de seu local de moradia mudou-se para o parque.

Sierra disse que estava afundada em dívidas depois que seu marido foi hospitalizado com Covid. As finanças estão tão apertadas que ela recentemente demitiu sua única funcionária, uma jovem venezuelana que ganhava apenas US$ 7,50 por dia.

“Tanto trabalho e nada para mostrar”, disse Sierra, cantando um verso de uma canção popular na época do Natal na Colômbia. "Não estou chorando, mas sim, dói."

Em Recife, Brasil, complementando a renda com a colheita de frutos do mar. Crédito ... Mauricio Lima para The New York Times

No vizinho Brasil, o aumento da pobreza, a inflação e uma resposta desastrada à pandemia fizeram do presidente Jair Bolsonaro, o titular da extrema direita, um azarão na votação marcada para outubro.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, um ativista de esquerda que governou o Brasil de 2003 a 2010, uma era de notável prosperidade, construiu uma vantagem de 30 pontos percentuais sobre Bolsonaro em confronto direto, de acordo com uma pesquisa recente .

Maurício Pimenta da Silva, 31, gerente adjunto de uma loja de materiais agrícolas na região de São Lourenço, no estado do Rio de Janeiro, disse que se arrepende de ter votado em Bolsonaro em 2018 e que pretende apoiar Lula.

“Achei que Bolsonaro melhoraria nossa vida em alguns aspectos, mas ele não o fez”, disse Silva, pai de quatro filhos que não é parente do ex-presidente. “Tudo está tão caro nos supermercados, principalmente a carne”, acrescentou, o que o levou a começar a trabalhar em um segundo emprego.

Com os eleitores enfrentando extrema agitação, os candidatos moderados estão conseguindo pouca tração, lamentou Simone Tebet, uma senadora de centro-direita no Brasil que planeja concorrer à presidência.

“Se você olhar para o Brasil e para a América Latina, estamos vivendo um ciclo de extremos relativamente assustador”, disse ela. “O radicalismo e o populismo assumiram o controle.”

Ernesto Londoño e Flávia Milhorance trabalharam para essa reportagem no Rio de Janeiro e Julie Turkewitz em Bogotá.

Nota: Os editores de Carta Maior entenderam que, embora eivada de clichês conservadores, a matéria do jornal The New York Times traz informações importantes sobre a forma como o movimento à esquerda na América Latina tem sido visto pela imprensa corporativa norte-americana. Por isso optaram por sua tradução e publicação.

*Publicado originalemte no jornal The New York Times | Traduzido por César Locatelli


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