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Política

A esquerda está nua

Um passo precisa ser tomado antes de qualquer crítica que se queira honesta: o deserto político é bem mais árido do que pensa a vã esquerda "tradicional".

18/02/2014 00:00

Fernando Frazão/ABr

Escrevi um artigo no ano passado sobre os Black Blocs e a sua relação extremamente controversa com a esquerda “institucional”, o que chamei lá de "autoridades de esquerda". A recusa e condenação dos atores e atrizes desta tática (tática não é grupo, não tem liderança) foi algo que, como nos habituamos por muito tempo, fez soar uníssono o discurso da direita e da esquerda. Um passo precisa ser tomado antes de qualquer crítica que se queira honesta: o deserto político é bem mais árido do que pensa a vã esquerda “tradicional”. Ter este diagnóstico, no entanto, não reduz a barbárie que é ter um colega de trabalho ferido e morto.
 
A tática Black Bloc é bem delimitada, isto é, tem traços característicos e se sabe desde o princípio quais são estes traços: são linha de frente, atacam a propriedade (bancos, carros policiais, já são conhecidos seus alvos) e por fim entram em atrito com a polícia militarizada (a tática desta é a de guerra).
 
A péssima notícia é a morte de Santiago. E a velha notícia: morre-se com militância no Brasil não é de hoje, Santiago é dolorosamente mais um na lista da violência que não se satisfaz. Por sua vez, o uso que fazem do seu falecimento é embaraçoso. A morte de Santiago comprovaria todas as prescrições que nos deram até então sobre política, as autoridades - à esquerda e à direita - atestam que o jeito de fazer política é este, as regras do jogo estão aí e cabe a nós respeitarmos.
 
O filósofo e professor Pablo Ortellado escreveu para o Estadão (O Bloco dos Desobedientes, 15/02) sobre a tática e a diferença (in)conveniente com que se tratou a morte de Santiago em comparação com as dezenas outras que também aconteceram em manifestações. O estigma que o uso da morte de Santiago trouxe ao campo político deveria causar constrangimento. Enquanto o cinismo da direita deixa isto às claras, por vezes a esquerda faz o mesmo de maneira retórica. Uma sanha institucionalizante acaba se configurando e colocando a política como inerte e acrítica, como num tabuleiro de xadrez: o cavalo sempre anda em “L”, o bispo em diagonais e por aí vai.
 
Esta mesma sanha se entende, mas é preciso ver que se a política não é a utopia de anarcopunks também não é muito menos a democracia formalista; noss porões dessa democracia as mortes e violência ultrapassam qualquer barreira, privada ou pública. Se os avanços dos últimos anos são responsáveis pelo atrito social que vemos nas ruas, como explicar que são os mesmos dispositivos de repressão militar que assumem o papel de esfolar ainda mais esse atrito? A conciliação lulista, que trouxe ganhos nunca antes vistos à população pobre, não consegue se acostumar com os seus limites.
 
A política tradicional reencontrou nesse último ano os seus limites mais fundamentais: a inclusão pelo consumo, a mudança paradigmática (e pragmática) da gestão pública federal, agora, encontram-se completamente amarrados à sua estruturação capitalista. Explicando: como é que o Estado vai lidar com uma política feita nas ruas anticapitalista, se suas linhas de gestão e política estão estruturalmente imbricadas no capital financeiro? O Black Bloc não dá e nem quer dar respostas, mas nos faz não esquecer a pergunta que muitos - na base do medalhão - querem silenciar.



Créditos da foto: Fernando Frazão/ABr

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