Política

A forma mais cruel do capitalismo no mundo

A desigualdade econômica é pior hoje do que nos últimos 100 anos - e contribuiu para um ciclo político e econômico vicioso no qual impostos são cortados no topo, resultando em ainda uma maior concentração de renda

10/11/2021 15:09

Devemos interromper esse ciclo vicioso - e exigir uma economia que funcione para muitos, não uma que concentre cada vez mais riqueza nas mãos de poucos privilegiados. (Len Tsou/Flickr/cc)

Créditos da foto: Devemos interromper esse ciclo vicioso - e exigir uma economia que funcione para muitos, não uma que concentre cada vez mais riqueza nas mãos de poucos privilegiados. (Len Tsou/Flickr/cc)

 

A riqueza de Elon Musk ultrapassou os 200 bilhões de dólares. O trabalhador estadunidense médio levaria mais de 4 milhões de anos para ganhar o mesmo.

A desigualdade econômica está comendo esse país vivo. Estamos agora na segunda Era de Ouro dos EUA, assim como o final do século 19 quando um punhado de barões ladrões monopolizaram a economia, mantiveram os salários baixos e subornaram legisladores.

Enquanto os barões ladrões de hoje fazem viagens à passeio para o espaço, a distância entre sua enorme riqueza e as batalhas financeiras dos estadunidenses trabalhadores nunca foi tão evidente. Durante os primeiros 19 meses da pandemia, os bilionários do país adicionaram 2.1 trilhões de dólares à sua riqueza coletiva e esse número continua a crescer.

E os ricos têm poder político suficiente para cortar seus impostos até quase zerá-los – às vezes realmente zeram. Na realidade, Jeff Bezos não pagou impostos de renda federais em 2007 ou em 2011. Em 2018, os 400 mais ricos do país pagavam uma taxa tributária geral mais baixa do que a de quase todas as outras pessoas.

Assista:



Mas não conseguiremos resolver esse problema a não ser que saibamos como foi criado em primeiro lugar.

Comecemos pelo básico.

I. O básico

A desigualdade econômica nos EUA é bem maior do que a desigualdade de renda.

A renda é o que você ganha cada semana ou mês ou ano. O seu patrimônio [ou riqueza] refere-se à soma total dos seus bens – seu carro, suas ações, títulos, sua casa, arte – qualquer coisa que você tenha e que seja valiosa. Valiosa não somente porque há um mercado para ela – um preço que outras pessoas estão dispostas a pagar para comprá-la – mas porque o patrimônio cresce.

Enquanto a população expande e a nação se torna mais produtiva, a economia no geral continua a expandir. Essa expansão eleva os valores das ações, títulos, propriedades alugadas, casas, e outros bens. É claro que recessões e depressões eventuais podem reduzir o valor de tais bens. Mas a longo prazo, o valor de quase todo patrimônio aumenta.

Lição: a riqueza cresce com o tempo.

Próximo: a riqueza pessoal vem de duas fontes. A primeira é a renda que você ganha, mas não gasta. Essa é a sua poupança. Quando você investe essa poupança em ações, títulos, ou propriedade e outros bens, você cria a sua riqueza pessoal – que, como vimos, cresce com o tempo.

A segunda fonte de riqueza pessoal é o que é dado a você pelos seus pais, avós, e talvez até gerações anteriores – em outras palavras, é o que você herda.

Lição: a riqueza pessoal vem da sua poupança ou da sua herança.

II. Porque a disparidade de riqueza está aumentando

A disparidade entre os estadunidenses ricos e o resto da população é chocante.

Nos anos 70, o 1% mais rico detinha cerca de 20% de toda a riqueza patrimonial da nação. Agora, eles detêm mais de 35%.

A maior parte dos seus ganhos nos últimos 40 anos vem de um aumento dramático no valor das ações.

Por exemplo, se alguém investiu mil reais em 1978 em um amplo index de ações – digamos, o S&P 500 – essa pessoa teria 31.823 dólares hoje, ajustados segundo a inflação.

Quem se beneficiou com esse aumento? O 1% mais rico, que agora possui metade do mercado de ações inteiro. Mas os salários típicos dos trabalhadores mal cresceram.

A maioria dos estadunidenses não ganhou nada que fosse suficiente para poupar. Antes da pandemia, quando a economia parecia estar indo bem, quase 80% estavam vivendo contando moedas.

Lição: a maior parte dos estadunidenses não ganha o suficiente para poupar dinheiro e construir riqueza.

Então ao passo que a desigualdade de renda ampliou, a quantidade que os poucos lares de alta renda poupam – sua riqueza – continuou a crescer. Sua riqueza crescente permitiu que eles passassem adiante mais riqueza para seus herdeiros.

Tomemos como exemplo os Waltons – a família por trás do império do Walmart – que possui sete herdeiros na lista de bilionários da Forbes. Seus filhos, e outros millenials ricos, logo irão consolidar ainda mais a riqueza da nação. Os EUA estão à beira da maior transferência intergeracional de riqueza na história. Enquanto os boomers ricos falecem, algo entre 30 e 70 trilhões de dólares vão para seus filhos nas próximas três décadas.

Esses filhos serão capazes de viver com a sua riqueza, e então deixam o grosso – que continuará a crescer – para seus próprios filhos... sem impostos. Após algumas gerações disso, quase toda a riqueza dos EUA poderá estar nas mãos de algumas milhares de famílias.

Lição: a riqueza dinástica continua a crescer.

III. Porque a concentração de riqueza é um problema

A riqueza concentrada já está ameaçando a nossa democracia. A riqueza não somente gera mais riqueza – também gera mais poder.

A riqueza dinástica concentra poder nas mãos de cada vez menos pessoas, que podem escolher quais instituições de caridades e organizações não lucrativas vão apoiar e quais políticos vão financiar. Isso concede a uma elite não eleita uma enorme influência sobre a nossa economia e a nossa democracia.

Se isso continuar, vamos começar a parecer o tipo de dinastias comuns às aristocracias europeias nos séculos 17, 18 e 19.

A riqueza dinástica faz piada da ideia de que os EUA é uma meritocracia, onde qualquer um pode se dar bem com base em seus próprios esforços. Também vai de encontro às ideias econômicas básicas de que as pessoas ganham o que elas valem no mercado, e de que os ganhos econômicos deveriam ser direcionados para quem os merece.

Finalmente, a concentração de riqueza amplia as disparidades de gênero e raça, porque as mulheres e pessoas não brancas tendem a ganhar menos, poupar menos e herdar menos.

A mulher solteira média detém somente 32% de riqueza por cada dólar de riqueza que um homem possui. A pandemia provavelmente aumentou essa brecha.

A disparidade econômica racial é ainda mais impressionante. O lar negro médio detém somente 13% de riqueza para cada dólar de riqueza que um lar branco médio detém.

De todos esses modos, a riqueza dinástica cria uma aristocracia que se autoperpetua que vai de encontro aos ideais que afirmamos seguir.

Lição: A riqueza dinástica cria uma aristocracia que se autoperpetua.

IV. Como os EUA lidaram com a desigualdade econômica durante a primeira Era de Ouro

A última vez que os EUA lidaram com algo parecido com a concentração de riqueza que vemos hoje, foi na virada do século 20. Isso foi quando o presidente Teddy Roosevelt alertou que “uma pequena classe de homens incrivelmente ricos e economicamente poderosos, cujo objetivo principal é assegurar e aumentar seu poder” pode destruir a democracia estadunidense.

A resposta de Roosevelt foi taxar os ricos. O Congresso permitiu dois tipos de tributação aos ricos. O primeiro, em 1916, foi o imposto sobre bens – um imposto sobre a riqueza que alguém acumulou durante a sua vida, pago pelos herdeiros que herdaram essa riqueza.

A segunda tributação sobre riqueza, aprovada em 1922, foi um imposto sobre ganhos capitais – um imposto sobre o valor acrescido dos bens, pago quando esses bens são vendidos.

Lição: os impostos sobre bens e ganhos capitais foram criados para conter a concentração de riqueza.

Mas ambos os impostos foram reduzidos desde então, ou se tornaram tão repletos de brechas que não são mais capazes de evitar o surgimento de uma nova aristocracia estadunidense.

O corte de impostos Republicano de Trump permitiu que indivíduos excluíssem 11.18 milhões de dólares dos seus impostos sobre bens. Isso significa que um casal pode repassar, sem impostos, mais de 22 milhões de dólares para seus filhos. Sem mencionar os muito ricos que frequentemente encontram modos de desviar desse imposto inteiramente. Como disse Gary Cohn, ex-diretor do Conselho Nacional Econômico da Casa Branca de Trump, “somente imbecis pagam o imposto sobre bens”.

E os ganhos capitais sobre os valores crescentes das ações, títulos, mansões e obras de arte das pessoas ricas? Aqui, a maior brecha é algo chamado de “reajuste do valor de bens”. Se os ricos se agarrarem a esses bens até morrerem, seus herdeiros os herdam sem pagar qualquer imposto sobre ganhos capitais. Todo o valor acrescido desses bens é simplesmente apagado, por motivos tributários. Essa brecha permite que os herdeiros poupem estimados 40 bilhões de dólares por ano.

Isso significa que grandes acumulações de riqueza nas mãos de poucos lares podem passar através de gerações sem serem taxadas – crescendo no meio do caminho – gerando rendimentos confortáveis para descendentes ricos que nunca terão que trabalhar um dia sequer de suas vidas.

Lição: O imposto sobre bens e ganhos capitais foi cortado.

Por que esses dois impostos sobre riqueza erodiram? Porque, enquanto a riqueza do país ficou concentrada em cada vez menos mãos, os ricos se tornaram mais capazes de doar para campanhas políticas e relações públicas – e eles usaram esse poder político para reduzir seus impostos. É exatamente o que Teddy Roosevelt temia anos atrás.

V. Como reduzir a disparidade econômica

Então, o que faremos? Devemos seguir a sabedoria de Teddy Roosevelt e taxar grandes acumulações de riqueza.

Os ultra ricos se beneficiaram com o sistema estadunidense – com as leis que protegem sua riqueza e a nossa economia que permitiu que construíssem suas fortunas. Eles deveriam pagar a parte que lhes cabe.

A maior parte dos estadunidenses, Democratas e Republicanos, acredita que os ultra ricos deveriam pagar impostos maiores. Existem diversas maneiras de realizar isso: fechar a brecha criada pelo reajuste do valor dos bens, aumentar o imposto sobre ganhos capitais, e financiar integralmente a IRS para que possa adequadamente auditar os contribuintes mais ricos, para início de conversa.

Além disso, precisamos de um novo imposto sobre riqueza: um imposto de apenas 2% ao ano sobre as riquezas que excedem 1 milhão de dólares. Isso é uma migalha para os trilhardários como Jeff Bezos e Elon Musk, mas geraria muitos rendimentos para investir em saúde e educação, para que milhões de estadunidenses tenham uma chance para ter sucesso.

Uma das coisas mais importantes que você como indivíduo pode fazer é tirar tempo para entender as realidades da desigualdade econômica nos EUA e como o sistema foi corrompido a favor daqueles no topo – e exigir que seus representantes políticos ajam para consertá-lo.

A desigualdade econômica é pior hoje do que nos últimos 100 anos – e contribuiu para um ciclo político e econômico vicioso no qual impostos são cortados no topo, resultando em ainda uma maior concentração de renda – enquanto todos os outros vivem sob a pior forma de capitalismo no mundo.

Devemos encerrar esse ciclo vicioso – e exigir uma economia que funcione para os muitos, não uma que concentre mais e mais riqueza nas mãos de poucos privilegiados.

*Publicado originalmente em 'Common Dreams' | Tradução de Isabela Palhares

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