Política

Aliança com PT é parte de um projeto próprio de poder do PTB

28/06/2004 00:00

Brasília – Poucas semanas antes do trágico acidente aéreo que lhe tirou a vida, o então presidente do PTB, José Carlos Martinez (PR), reuniu no gabinete da Liderança do partido na Câmara uma legião de aproximadamente 40 deputados petebistas e alguns parlamentares curiosos. Era véspera do prazo limite para trocas partidárias de interessados em disputar as eleições municipais deste ano. A cerimônia fechava um ciclo de cooptações de tucanos descontentes, que naquele momento colocava o PTB como quarta maior bancada da Câmara, superando a do PSDB. A assinatura das fichas de filiação dos deputados Salvador Zimbaldi (SP) e Luiz Piauylino (PE) era emblemática: o primeiro fora vice-líder do governo FHC no Congresso e o outro ocupava, e ainda ocupa, a 2ª vice-presidência da Câmara – cargo importante na estrutura de poder do Parlamento, pois tem atribuições de Corregedoria.

Ao dar as boas vindas aos novos correligionários, Martinez traçou um esboço da estratégia de faxina na imagem fisiológica do partido, que tem como meta mais ambiciosa algo além do posto de vice-presidente na chapa de reeleição do petista Luiz Inácio Lula da Silva. O PTB quer eleger um candidato próprio à Presidência da República, o que não ocorre desde a recondução de Getúlio Vargas, em 1950. E o nome mais provável dessa operação no atual cenário político é do ministro da Integração Nacional, Ciro Gomes – hoje no PPS. Não só pelo clima de permanente beligerância no partido ex-comunista, onde o presidente Roberto Freire traça uma rota de colisão com o governo e alinhamento com o PSDB, mas também pela proximidade do ministro com a cúpula petebista desde a última eleição presidencial.

Ciro tem sido o grande aliado do PTB na aproximação com as hostes petistas. Ganhou a gratidão, e posteriormente a confiança, do presidente Lula quando declarou apoio incondicional ao candidato do PT, logo após o encerramento do primeiro turno da eleição de 2002. Foi uma decisão determinante para dar tranqüilidade ao comitê petista e não deixar o clima de frustração, pela fatura não ter sido liquidada na primeira etapa do pleito, contaminar a campanha do segundo turno. O valor foi ainda maior aos olhos do presidente por Ciro ter enfrentado o comando dos partidos que lhe deram apoio – PPS, PDT e PTB -, que pretendiam valorizar o passe do ex-governador do Ceará. O candidato do PSDB, José Serra, chegou a implorar ao telefone para que o presidente do PPS, Roberto Freire (PE), impedisse a declaração do voto incondicional de Ciro em Lula, na largada para o segundo turno.

A aposta em Ciro é uma das razões pela qual o PTB, mesmo depois de ter dobrado a bancada de 26 deputados eleitos em 2002, não exige muito mais do governo que o modesto Ministério do Turismo, comandado pelo vice-presidente do partido Walfrido dos Mares Guia (MG) – que forma o tripé de comando do PTB com o presidente, Roberto Jefferson (RJ), e o secretário-geral, Luiz Antonio Fleury (SP). Diferente do que normalmente aparece na imprensa, os dirigentes do partido não vivem incomodando a cúpula do governo por causa da liberação de verbas e nomeação de apadrinhados para cargos estratégicos. As bancadas na Câmara e no Senado têm mostrado no voto que sua fidelidade é importante para o governo – e recebem a contrapartida pelos serviços prestados.

Limpando a imagem
O PTB está carimbado com a pecha de fisiologia desde que Ivete Vargas tirou a sigla de Leonel Brizola no momento da redemocratização do País e Gastone Righi – que ainda integra a Comissão Executiva Nacional – aderiu ao “Centrão” da Assembléia Constituinte, ajudando a barrar muitas diretrizes progressistas para a Constituição. A marca ficou mais forte durante o primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso, quando o partido foi liderado pelo mineiro Paulo Heslander, que não se envergonhava de ser um despachante da troca de votos por cargos, verbas e favores. As cenas de chantagem explícita foram enfraquecendo o PTB nas urnas. Primeiro Righi, depois Heslander foram punidos pelo eleitor e barrados no baile do Parlamento.

A Lei Eleitoral de 1997 instituiu mecanismos progressivos para impedir a sobrevivência de partidos pequenos até a eleição de 2006. O emagrecimento do PTB – 31 deputados eleitos em 1998 - alertou a direção do partido para o risco do desaparecimento. Fusões com o PDT de Brizola e o PPS de Roberto Freire foram cogitadas nos últimos anos. Mas o cenário foi revertido por uma série de passos acertados de Martinez e Jefferson, que tomaram o partido das mãos do ex-banqueiro José Eduardo Andrade Vieira. Primeiro foi a formação de um bloco parlamentar com o PSDB para eleger o líder tucano Aécio Neves (MG) presidente da Câmara. A idéia era apoiar o neto de Tancredo Neves no projeto de sucessão de FHC. “O PTB deixou o rabo do Leão e agarrou na juba do Leão”, disse Jefferson na época para justificar a aliança que colocou fim em décadas da alternância hegemônica PFL/PMDB. O projeto Aécio foi frustrado pela obstinação de Serra e o PTB se aliou a Ciro e depois a Lula.

Sem conseguir eleger um único governador em 2002, o comando do partido teve uma tática ousada e criativa para atrair parlamentares e aumentar a bancada na Câmara, o que lhe daria mais força política. Mudou o estatuto transformando os congressistas em membros natos da Executiva, a instância deliberativa mais importante por causa da agilidade de suas decisões. E entregou o comando do partido nos Estados aos ingressantes. Com a criação de um partido tipicamente congressual, conseguiu filiar parlamentares com maior peso político que partidos rivais. Essa manobra teve o patrocínio do ministro da Casa Civil, José Dirceu. Percebendo que o governo poderia ficar refém do PL se o partido do vice-presidente José Alencar (MG) fosse a única porta de entrada dos inveterados governistas na base se sustentação congressual, ele deu sinal verde ao comando do PTB para entrar na briga pelas filiações.

Com sucessivas demonstrações de solidariedade, o PTB vem ganhando a confiança do presidente Lula e do PT. A bancada tem sido sempre uma das mais fiéis ao governo – na votação do salário mínimo superou a petista. Com a divisão no PMDB e a pressão constante do PL, cresceu a cotação petebista para parceiro preferencial do PT. O Confronto aberto do presidente do PL, Valdemar Costa Neto (SP), contra a equipe econômica liderada pelo ministro da Fazenda, Antonio Palocci, acendeu o alerta palaciano. A descortesia de pedir a cabeça de Palocci em plena posse do ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento (PL-AM), fez transbordar o copo de mágoas, que já vinha no limite com a articulação do senador Magno Malta (PL-ES) para instalar a CPI dos Bingos. O voto dos senadores do PL contra o governo na medida provisória do salário mínimo só complicou a desavença, que não foi acalmada nem com o esforço de Alencar para conseguir o maior índice de fidelidade na votação posterior, na Câmara.

PL é descartável 
O vice-presidente sabe que hoje é uma peça descartável no esquema que levou Lula ao Palácio do Planalto. Pouco antes da confirmação da aliança com o PT, em 2002, ele comparava o PL a um antídoto para o copo de veneno que Lula representava para uma parte considerável da sociedade brasileira. Na atual conjuntura, tal antídoto é dispensável. O presidente mostrou que não havia veneno no copo – apenas o placebo do doutor Palocci, bem diluído na carta ao povo brasileiro (de fato, uma carta ao Fundo Monetário Internacional e à comunidade financeira internacional, do contrário seria desnecessária a versão em inglês divulgada concomitantemente pouco antes do início da campanha). O avalista de Lula para o mercado não é mais Alencar e sim a dupla Palocci/Henrique Meirelles, presidente do Banco Central.

A impossibilidade de confiar no PMDB para uma aliança estratégica no núcleo da base política do governo abriu a janela de oportunidades para o PTB. O comando do partido acredita que essa proximidade transformará a legenda no desaguadouro de parlamentares e governadores com o rearranjo que ocorrerá após a eleição municipal. Por isso o PTB está jogando a maioria de suas fichas na parceria com o PT. Da mesma forma como vem atuando no Parlamento, presta serviço, assegurando bom tempo de propaganda a candidatos petistas, e espera para receber a fatura depois, confiando na generosidade do PT e de Lula. O gesto mais audacioso de Jefferson foi assegurar o apoio do partido à candidatura Marta Suplicy, em São Paulo.

Depois de uma reunião informação da Executiva, com Mares Guia e Fleury, o presidente do PTB procurou o deputado Arnaldo Faria de Sá, um antigo adversário do PT na capital paulista. Pensando na candidatura dos quatro vereadores do partido, que poderia ser inviabilizada com uma intervenção federal, Faria de Sá, que já foi secretário municipal de Paulo Maluf e Celso Pitta, concordou com a aliança. A parceria está se reproduzindo em muitas capitais – Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba, Cuiabá e Goiânia – e grandes cidades - Osasco, Sorocaba, Americana, São José dos Campos, Araraquara e Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, Joinville (SC), Linhares (ES) e São João do Meriti (RJ), nestas duas o PT apóia o candidato do PTB. “O que pretendemos é nos credenciarmos para ser o parceiro preferencial na reeleição do Lula”, reconhece Fleury, colocando o ministro do Turismo como candidato à vaga. Ciro Gomes é outra possibilidade, mas o PTB sonha fazer dele governador do Rio de Janeiro em 2006 e candidato à sucessão de Lula em 2010.

Na estratégia de limpar a marca fisiológica do partido, um novo programa, ideológico, de centro, está sendo elaborado pelo deputado Marcondes Gadelha (PB) com a ajuda de Fleury. A idéia é modernizar e atualizar as antigas bandeiras de Vargas, em uma linha desenvolvimentista e distributiva. Um trabalhismo pela ótica de empresários como o ex-presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), senador Fernando Bezerra (RN), e o atual, deputado Armando Monteiro (PE). No ano que vem, serão realizados seminários regionais e um nacional para definir os compromissos e bandeiras do programa, visando a disputa de 2006. O PTB precisa de um linha ideológica para amalgamar o projeto de chegar ao poder com as próprias pernas. “Não é só feijão. O partido precisa de sonho, também”, sintetizou Jefferson naquela mesma reunião da bancada pouco antes da morte de Martinez.

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