Política

Bolsonaro na ONU: da realidade imaginária ao golpe

 

23/09/2021 10:39

(Eduardo Munoz/Pool/Reuters)

Créditos da foto: (Eduardo Munoz/Pool/Reuters)

 
É mais fácil enganar as pessoas do que convencê-las
de que foram enganadas (Mark Twain)

Em seu discurso na Assembleia Geral da ONU, em 21/9/2021, Bolsonaro manteve sua postura tradicional de apresentar mentiras e ignorar a realidade. Mentiu sobre pandemia, economia, meio ambiente, corrupção. Segundo ele, seu governo livrou o Brasil do socialismo, acabou com a corrupção, produziu muitos empregos e tornou o Brasil um ótimo país para os investidores. Bolsonaro elogiou a cloroquina, o tratamento precoce da COVID e informou que seu Governo deu 800 dólares de auxílio emergencial para 68 milhões de pessoas, sem explicar que se trata de auxílio anual, e não mensal. Disse que defende a Amazônia e que em 7 de setembro fez a maior manifestação da nossa história.

Nenhuma palavra sobre os quase 600 mil mortos pela Covid, o desemprego de mais de 14,8 milhões de brasileiros, a economia estagnada, a inflação geral já superior a 9% - o IPCA acumulado em 12 meses chegou a bater 9,68% em agosto. A inflação de alimentos disparou, o Brasil tem 125,6 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar na pandemia. Um quadro grave de estagflação, estagnação com inflação. E o Presidente, desgovernado, não cessa de fazer ameaças à democracia.

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Já em seu discurso na Assembleia Geral da ONU, em 22/9/2020, havia negado a realidade da devastação da Amazônia, do Cerrado e do Pantanal. Falou para seu público interno, o seu “gado” que vive no falso mundo das fake news. Elogiou sua gestão da pandemia e culpou os sertanejos e índios pelas queimadas. A mentira não é um simples defeito pessoal do presidente. Trata-se de uma política oficial de governo, seguindo as recomendações de Olavo de Carvalho e seu mestre Steve Bannon que, à frente da Cambridge Analytica, aplicou com sucesso a estratégia das fake news no Brexit em junho de 2016 na Grã-Bretanha, na eleição de Trump nos EUA em novembro de 2016 e na eleição de Bolsonaro no Brasil em novembro de 2018.

O documentário O Dilema das Redes, disponível no Netflix, mostra a captura de dados do usuário e sua manipulação pelas grandes empresas de comunicação eletrônica para atender os interesses comerciais, políticos e culturais de seus clientes. Trata-se principalmente do bloco Facebook/ Instagram/ Twitter, além do Google, Youtube e WhatsApp, este último estranhamente ignorado no documentário.

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A captura de dados permite que as empresas selecionem e encaminhem seus anúncios a um público-alvo mais selecionado. Permite ainda a realização de campanhas para influenciar a opinião política a agir de uma determinada maneira. Por exemplo, fazer campanha contra a abstenção eleitoral apenas em bairros ricos, com maioria conservadora, e não fazer em bairros pobres, com maioria progressista.

Esses dados que os usuários fornecem de graça vão possibilitar aumento de lucros para empresas comerciais e uma onda de fake news para engrossar o público de extrema direita. Na internet, encontramos grande quantidade de textos bem como vídeos no Youtube informando que a Terra é plana e que essa história de Terra Redonda é coisa de cientista comunista. O homem nunca esteve na Lua e a pandemia do coronavírus não existe, é pura invenção. Há centenas de outros exemplos desse tipo.

Começamos a viver num mundo de dupla realidade. A geração influenciada pelo Iluminismo confia na ciência e busca a realidade objetiva como ponto de partida para compreender e agir em decorrência. O que vemos agora é o aumento assustador do número de pessoas que acreditam na falsa realidade das fake news. Para elas, a mentira torna-se verdade e agem de acordo com a “verdade” em que acreditam. São enganadas porque acreditam naquilo que não é verdade, e se recusam a acreditar no que é verdade.

Essa oposição obscurantista é alimentada pelo ódio contra aqueles que teimam em permanecer no mundo real desvendado pela ciência. Esse ódio é a energia que move a extrema direita em várias parte do mundo. No Brasil, o bolsonarismo já nos deu diversos exemplos. O próprio Presidente é campeão de mentiras e fake news. Apoiou manifestações pedindo o fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal e depois disse que sempre defendeu a democracia. Com o Pantanal queimando e com a Amazônia devastada, afirmou que o Governo merece parabéns pela proteção do meio ambiente.

Os países estrangeiros conhecem os fatos da realidade. Sabem que o Governo incentiva a devastação dos biomas brasileiros pelo agronegócio, pelos pecuaristas, mineradores e madeireiros. Sabem da violência contra os povos indígenas, a comunidade quilombola, as lideranças camponesas, os negros, as mulheres, os gays, as ONGs e os movimentos sociais. Bolsonaro fez um discurso hipócrita. Ele se intoxicou com as fake news que espalhou e acabou acreditando nelas. Ele vive uma realidade imaginária e, em sua paranoia, se julga vítima de perseguição de quem o critica a partir do princípio da realidade que ele ignora.

Cabe aos especialistas o diagnóstico, mas parece tratar-se de uma psicopatia que empolga e lidera seus fiéis seguidores. É bom não esquecer, porém, que, apesar dos inúmeros crimes que já cometeu, Bolsonaro não caiu porque conta com o apoio de boa parte do mercado, dos militares e dos evangélicos que viram seus interesses atendidos pelo insano Presidente que desgoverna o país.

Mas o quadro político começa a mudar. Tudo indica que Bolsonaro não recupera mais o apoio perdido. As pesquisas de intenção de voto já dão maioria folgada para Lula no segundo turno e talvez vitória ainda no primeiro. Segundo diversos analistas políticos, os defensores da terceira via, que rejeitam Lula e Bolsonaro, só teriam uma chance de vencer a eleição: derrubar Bolsonaro e lançar um candidato contra Lula.

Essa é a grande articulação já iniciada pelos empresários da Faria Lima, convencidos de que não haverá mais recuperação econômica neste governo. Mas tudo indica que o processo de impeachment não será aberto pelo Presidente da Câmara dos Deputados, líder do Centrão que, na prática, governa o país e controla o Orçamento Secreto de 18 bilhões. O mercado está dividido. O agronegócio, em geral, apoia Bolsonaro, mas muitos empresários assinaram a Carta pela democracia e não parecem dispostos a apoiar um governo Bolsonaro por mais quatro anos. Não seria impossível, mas muito improvável. Os militares também estão divididos.

Além do impeachment, há especulações sobre a possibilidade de cassação da chapa ou a inelegibilidade decretada pelo TSE. Se nada disso ocorrer, e Bolsonaro continuar no poder até as eleições, ninguém acredita que ele vai aceitar a derrota eleitoral. Vai tentar um golpe, por via armada ou política. A tradição de conciliação das elites brasileiras já conspira alternativas, como o parlamentarismo, talvez disfarçado com outro nome, se a terceira via fracassar ou não virar a segunda via com o afastamento de Bolsonaro.

Diante disso, a oposição deve ficar alerta e se preparar para os cenários possíveis que poderão ocorrer em caso de fracasso do impeachment ou afastamento, inclusive a possibilidade de golpe, político ou com armas, seja de onde vierem.

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