Política

Brizola faz sua última viagem, de volta ao berço do trabalhismo

23/06/2004 00:00

Paulo Pinto/AE

Créditos da foto: Paulo Pinto/AE

Porto Alegre - A capital gaúcha começou a render nesta quarta-feira (23) as suas últimas homenagens ao presidente nacional do PDT, Leonel Brizola, morto na noite de segunda-feira, no Rio de Janeiro. A última viagem do líder trabalhista iniciou pelo Rio de Janeiro, passou por Porto Alegre e terminará em São Borja, onde será sepultado ao lado de sua esposa, Neusa Goulart Brizola. O dia foi de lembranças, encontros e homenagens. Uma das mais significativas foi realizada pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que estendeu uma faixa com os dizeres "Nosso reconhecimento à luta histórica de Brizola: nacionalismo, educação e reforma agrária" em frente ao prédio da Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul. A faixa foi colocada no local onde o MST realiza um jejum em protesto contra a lentidão do processo de reforma agrária no Estado.

Além da faixa, um grupo de trabalhadores rurais prestou uma homenagem a Brizola durante o velório no Palácio Piratini. O reconhecimento do MST refere-se à política de apoio à reforma agrária e à organização dos agricultores sem terra, implementada por Brizola quando governo o Rio Grande do Sul na década de 1960. No final da década de 1950, surgiu no RS, o Movimento dos Agricultores Sem-Terra (Master), organização que reunia assalariados, pequenos proprietários e seus filhos. Um dispositivo na Constituição do Estado determinava ao governo a entrega de terras aos agricultores, sempre que surgissem abaixo-assinados, com um mínimo de 100 assinaturas, pedindo terra. Brizola e as bases do PTB no Estado estimularam a organização desses abaixo-assinados e, a partir de 1962, os agricultores começaram a promover acampamentos por todo o Estado. O ex-governador desapropriou algumas áreas no Estado, o que provocou a ira dos setores conservadores que viam no então ascendente líder trabalhista um comunista perigoso. Com o golpe militar de 1964, a organização dos sem terra foi desmantelada e só ressurgiria 20 anos mais tarde.

Atraso na chegada
O corpo de Brizola chegou a Porto Alegre com atraso. As últimas homenagens no Rio de Janeiro atrasaram o do carro do Corpo de Bombeiros que transportava seu corpo. A demora no trajeto entre o Palácio da Guanabara e o Centro Integrado de Educação Pública (Ciep) Tancredo Neves, o primeiro inaugurado por Brizola durante seu governo no Rio fez com que o caixão não fosse desembarcado, seguindo diretamente para o aeroporto Santos Dumont, de onde partiu, por volta das 13 horas para Porto Alegre. O vôo fretado chegou ao Aeroporto Internacional Salgado Filho por volta das 15 horas. O governador em exercício, Antônio Hohlfeldt (PSDB) recepcionou o caixão e o acompanhou até o Palácio Piratini, onde dezenas de apoiadores e simpatizantes já aguardavam a sua chegada.

O caixão de Brizola seguiu para o Palácio Piratini em um carro de bombeiro, escoltado por 70 batedores da Brigada Militar, policiais montados e cavalarianos do Movimento Tradicionalista Gaúcho. O cortejo fúnebre pelas ruas de Porto Alegre durou mais de uma hora, chegando à sede do governo gaúcho um pouco antes das 17 horas. O trânsito nas ruas próximas ao palácio ficou totalmente paralisado. O corpo do ex-governador foi recebido com o hino do Rio Grande do Sul e muitos aplausos, sendo conduzido até o salão Negrinho do Pastoreio, local do velório que se estende até a manhã de quinta-feira. Aberto à visitação pública, o velório reuniu praticamente todos os setores políticos do Estado. Além do governador em exercício, Antonio Hohlfeldt e do presidente da Assembléia Legislativa, deputado Vieira da Cunha (PDT) – que interrompeu viagem à China para participar do enterro do líder de seu partido - , uma comitiva de ministros gaúchos, representando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, aguardava o corpo de Brizola: Tarso Genro, da Educação; Olívio Dutra, das Cidades; Miguel Rossetto, da Reforma Agrária; além do presidente do Supremo Tribunal Federal, Nelson Jobim.

As homenagens ocorriam também fora das paredes do Palácio Piratini. Após uma reunião com o secretariado, o prefeito de Porto Alegre, João Verle (PT), comunicou que o novo e maior viaduto da Terceira Perimetral, que passará sobre a Avenida Farrapos, levará o nome de Leonel Brizola. A obra ligará a capital gaúcha à freeway, auto-estrada que liga Porto Alegre ao litoral.

O futuro do PDT
Em entrevista à Agência Brasil, a cientista política Maria Izabel Noll, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), avaliou que o jeito personalista e carismático de fazer política de Brizola trouxe votos e visibilidade ao PDT, mas, ao mesmo tempo, impediu que uma nova liderança surgisse no partido, gerando agora um impasse quanto a seu futuro político. "Não há uma figura com a expressão dele no PDT. Era o Brizola quem dava a última palavra para tudo. Ele não deixou herdeiros políticos", disse a pesquisadora, que se dedica ao estudo dos partidos e da história eleitoral gaúcha. "Brizola brilhava sozinho. Ao mesmo tempo em que trazia conteúdo e rosto ao partido, inibia a ascensão de outros líderes", acrescentou. Na opinião da professor da UFRGS, a tendência é de que sejam cada vez mais raros gestores públicos e parlamentares com o perfil de Brizola na vida política brasileira. Ela apontou a crescente participação dos movimentos sociais na política como um dos fatores determinantes para o fim da era dos caudilhos..

Segundo Maria Izabel Noll, a derrota de Brizola no primeiro turno das eleições presidenciais de 1989 e a conseqüente transferência de votos para Lula no segundo turno selaram a queda de uma carreira temida pelos militares na época da ditadura. "O Brizola era vocacionado para a presidência. O problema é que o partido contava com bases muito fortes em apenas dois estados. Quando essas bases migraram para o PT, ele começou a perder a possibilidade de ter uma estrutura partidária viável", defendeu. Na mesma linha de Noll, o historiador Adolar Koch, também da UFRGS, disse que a morte de Brizola encerra um ciclo político da história brasileira, iniciado na década de 30 e que teve em Getúlio Vargas seu principal nome.

Segundo Koch, Brizola se formou no meio do positivismo e, em seguida, passou a se espelhar no populismo e trabalhismo de Getúlio Vargas e João Goulart. Para ele, os partidos trabalhistas, PTB e PDT, tendem a se dissolver em breve, pois historicamente funcionaram com uma linha partidária caracterizada pelo mandonismo, com um caudilho ou um chefe bem definido.

Com a retomada do projeto democrático, após a ditadura militar, acrescentou o historiador gaúcho, iniciou uma nova conjuntura, marcada pelo capitalismo globalizado, neoliberalismo e precarização das relações de trabalho. "Nesse contexto, o trabalhismo tem uma força mítica, mas acaba não tendo a mesma força do novo. O Partido dos Trabalhadores é justamente esse algo novo, construído depois do regime militar, levando em conta toda a atual conjuntura" avaliou."

Previsão semelhante foi feita por Maria Aparecido de Aquino, professora de História Contemporânea da Universidade de São Paulo (USP), em entrevista à rádio Nacional. Para ela, com a morte de Brizola, o PDT tende a minguar. O tempo é que vai decidir o futuro do partido, ressaltou, mas o ideal da luta trabalhista não deixará de existir, o ideal da defesa dos direitos dos trabalhadores. O espaço antes ocupado pelo trabalhismo hoje é do PT, fundamentalmente, mas a evolução do governo Lula nos próximos dois anos também pode provocar alterações nesse quadro, principalmente com o surgimento e fortalecimento de novos agentes e movimentos sociais.


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