Política

Candidatura de Conde balança antes da convenção do PMDB

25/06/2004 00:00

Rio de Janeiro – Desde que as últimas pesquisas de opinião insinuaram uma tendência de queda nas intenções de voto para a Prefeitura do Rio de Janeiro, a candidatura do peemedebista Luiz Paulo Conde, como se diz na gíria, subiu no telhado. Ela, no entanto, ainda tem chances de descer de lá sã e salva, pois o acaso – ou o destino – colocou o vice-governador novamente na condição de única alternativa para o PMDB na disputa. O desgaste do nome de Conde junto à cúpula do PMDB no Rio – leia-se Anthony Garotinho e Moreira Franco – fez com que a convenção do partido, inicialmente programada para o começo de junho, fosse adiada para a próxima segunda-feira (28). Até lá, a movimentação de bastidores será intensa e surpresas ainda podem acontecer.

Ao desempenho mediano de Conde nas pesquisas, que fez crescer em Garotinho o temor de que não fosse ele o adversário de Cesar Maia (PFL) no segundo turno, somou-se a postura beligerante do ex-prefeito, que passou a peitar Garotinho e Moreira nas reuniões da direção regional do partido. A gota d´água surgiu quando Conde recusou publicamente o nome do pastor Manoel Ferreira, indicado pelo PP para vice em sua chapa com o apoio de Garotinho. Dando preferência ao deputado federal Júlio Lopes (PP-RJ) para vice, Conde teria se irritado quando Garotinho insinuou que somente o pastor poderia garantir sua ida ao segundo turno.

A teoria de Garotinho se explica: líder nacional da Assembléia de Deus, Manoel Ferreira, que nunca havia sido candidato, alcançou o terceiro lugar na corrida para o Senado em 2002, com 1,8 milhão de votos. O pastor chegou a disputar a segunda cadeira de senador com o também evangélico Marcelo Crivella (PL), da Igreja Universal do Reino de Deus, que acabou eleito. O potencial eleitoral de Ferreira é inegável e sua presença na chapa do PMDB, na opinião de Garotinho, tiraria o ímpeto da candidatura do liberal Crivella, que atualmente aparece em segundo lugar nas pesquisas para a Prefeitura do Rio.

Paralelamente a crise decorrente da escolha do vice, no entanto, Garotinho colocou em prática, com o apoio de Moreira Franco, um plano de viabilização de uma candidatura que pudesse substituir a de Conde e ainda ampliar as chances de vitória do grupo. A cúpula peemedebista dirigiu então sua atenção para duas alternativas: o próprio Marcelo Crivella e o presidente do PDT, Leonel Brizola. A intenção era costurar um acordo que pudesse trazer ao mesmo tempo benefícios a Moreira, candidato a Prefeitura de Niterói, e ao candidato da coligação na capital, mesmo que a cabeça de chapa não ficasse com o PMDB.

Brizola seria candidato
O PDT de Brizola, portanto, se desenhou como prioritário. Para restabelecer o diálogo com o velho caudilho, Garotinho escalou sua mulher, a governadora do Rio, Rosinha Matheus, por quem Brizola sempre nutriu carinho, apesar do afastamento político. Foram mais de cinco encontros, quase sempre realizados no apartamento de Brizola em Copacabana, para tratar do assunto. Inicialmente reticente, o presidente do PDT começava aos poucos a acenar com a possibilidade de aceitar sair candidato a prefeito no Rio, fazendo com que o candidato do partido em Niterói, João Sampaio, aceitasse a vaga de vice na chapa de Moreira.

A possibilidade de ter novamente um palanque privilegiado para criticar o governo Lula seduzia Brizola. Por isso, a candidatura de Conde foi praticamente descartada numa reunião que teve a participação de Garotinho, Rosinha e Moreira e que foi realizada dois dias antes da morte de Brizola. O líder pedetista só não autorizou a divulgação do acordo em seguida aquele encontro porque não estava bem de saúde. Queria aparecer diante da imprensa com a aparência menos debilitada. Quis o destino – ou o acaso – que Leonel Brizola não chegasse a decolar em seu último vôo político-eleitoral no Rio de Janeiro que tanto amava.

Garotinho dialoga com Crivella
O diálogo com Crivella foi estabelecido por Garotinho em pessoa. Os dois sempre foram aliados e o então candidato a senador pelo PL fez campanha para Garotinho em 2002, contrariando a orientação nacional de seu partido. As dificuldades atuais, no entanto, não são poucas. Pressionado inicialmente pela direção nacional do PL a aceitar a vaga de vice na chapa do candidato do PT, Jorge Bittar, Crivella só se livrou da imposição pelo singelo fato de que tem o triplo das intenções de voto do petista nas pesquisas. Fazer aliança regional com o setor do PMDB que mais faz oposição a Lula, no entanto, pode acabar custando caro para Crivella em Brasília. Além disso, fontes próximas ao senador garantem que ele está convicto de que vai ser eleito prefeito do Rio, superando Cesar Maia no segundo turno, mesmo sem a ajuda de Garotinho.

Sendo este o quadro, Luiz Paulo Conde reaparece como “opção natural” para o PMDB na convenção desta segunda (28). Mais comedido, o vice-governador já admite aceitar o vice que lhe for indicado. Ele prometeu um encontro com o presidente regional do PP, deputado federal Francisco Dornelles, para conversar sobre a formação da chapa, mas já se sabe que o nome indicado pelo partido será mesmo o do pastor Manoel Ferreira: “Dos nomes indicados, não me oponho a nenhum”, disse. A candidatura de Conde deve ser mesmo oficializada na convenção, mas é notório no PMDB que o mal-estar está instalado, o que certamente não ajudará na campanha. O foco de tensão seria o contato que Garotinho ainda tem com Crivella, e que estaria deixando Conde inseguro.

Caciques prestigiam lançamentos
Enquanto Conde dá pinta de cavalo paraguaio, as candidaturas menores se esforçam para ganhar terreno. Nos últimos dias foram lançadas, com a presença de caciques nacionais dos respectivos partidos, as candidaturas de Jandira Feghali (PCdoB) e André Correa (PPS). A convenção do PCdoB aconteceu num auditório do Hotel Glória lotado e contou com a presença do presidente do partido, Renato Rabelo, e do ministro da Coordenação Política, Aldo Rebelo, a maior estrela comunista do momento. O nome do vice na chapa de Jandira está em aberto, e ela garante ainda buscar “o apoio de PPS, PDT, PSB e PCB”.

É dos apoios avulsos, entretanto, que Jandira espera tirar a força para se transformar na melhor alternativa eleitoral da esquerda para este ano no Rio. Ela vem garantindo o apoio de ex-petistas de peso, como o ex-deputado federal Milton Temer, que é o coordenador de sua campanha. Outro apoio bom de voto que a candidata comunista pretende anunciar em breve é o da deputada federal Denise Frossard (PSDB), que foi preterida pelo seu partido em função de Cesar Maia e abriu importante dissidência.

O candidato do PPS, André Correa, lançou sua candidatura em um ato realizado no Piscinão de Ramos, sua maior criação quando foi secretário de Meio Ambiente de Garotinho entre 1999 e 2002. O ato contou com a participação do presidente nacional do PPS, deputado federal Roberto Freire (PPS-PE), e do ex-ministro das Comunicações Miro Teixeira, recém-chegado ao partido. Sem pretensões de chegar ao segundo turno, Correa deseja consolidar seu nome como liderança regional e apoiar o adversário de Cesar Maia no segundo turno, seja ele quem for.


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