Política

Carta Aberta a Michel Temer: Em busca da ética

Fazer parte de uma trama que culminará em uma puxada de tapete é a mais pura traição, um ato dos mais fracos, dos chamados oportunistas.

28/03/2016 00:00

Valter Campanato/ Agência Brasil

Créditos da foto: Valter Campanato/ Agência Brasil

Senhor Vice-Presidente,
 
Hoje o nosso país vive à beira de um abismo. Não o abismo do clichê monotemático da ”crise” criada, manipulada e bombardeada principalmente pelas organizações Globo como verdade, antes dela sequer existir, e cantada em coro pelas vozes de partidos da oposição ao governo federal, que nunca se conformaram em perder uma eleição e, assim, ficarem longe do “poder”, ainda que fruto de um resultado democrático.  
 
Este abismo ao qual me refiro, é o abismo da indecência e da indignidade humana. Todos os dias vimos homens maduros, infelizmente apenas na sua idade, se curvarem de joelhos para ganhar um holofote a mais como trampolim, para que em nome de suas ambições individualistas e pequenas, possam abocanhar um pedaço maior do bolo da nação.
 
Ainda que vozes que se auto intitulam povo, bradem com pouquíssima consciência pelo impeachment da presidenta Dilma, muitos de nós sabemos e o senhor ainda mais, que não há razão jurídica para isso, baseada nas pedaladas fiscais, e que o momento politico é completamente diferente daquele vivido no governo Collor em 1992, até a sua derrocada.
 
Imagino que o senhor vem acompanhando também outras vozes das ruas; a dos movimentos sociais (aqueles que vivem na pele, mais do que qualquer um de nós “o tour de force” da sobrevivência humana), dos juristas de ilibada reputação, dos religiosos equilibrados, dos artistas, dos escritores, músicos, cineastas etc que são unânimes a favor do combate à corrupção, mas fortemente contrários a qualquer tipo de traição e golpe aos mais de 54 milhões de eleitores que votaram no mandato Dilma-Temer.
 
Estas vozes não se medem apenas pela quantidade, apesar de não serem poucas, mas pela sua capacidade de mobilização; pela sua contribuição histórica para a música, a poesia, a literatura, o cinema; a construção simbólica, cultural, subjetiva de nosso país que faz com que quando você diga Brasil, a palavra emane versos, imagens, letras e melodias que dão forma a nossa alma, para nós mesmos e para o mundo.
 
Caro Temer, ouça essas vozes. Elas saíram diretamente do coração e das entranhas do nosso país. São profundas, têm valor. Não falam para o próprio umbigo, não almejam cargos, não visam vingança. Elas pedem uma virtude básica para a vida em qualquer sociedade: a ética. E ecoam seu clamor em brados retumbantes, na esperança de que a história brasileira não se manche mais uma vez pelo o que há de mais pequeno e covarde no ser humano: a traição.  O homem como ser que já nasce sabendo que irá morrer, terá sua  história escrita primeiro, por sua própria consciência, sem falsas alegorias de uma elite vingativa e egoísta, usadas para legitimar um golpe dos opositores politicos do Congresso Nacional, que pisam não apenas na constituição, mas que ignoram um clamor democrático que dá sentido ao nosso espírito maior.
 
Este homem terá depois, sua história traduzida em versos, melodias, livros e filmes, peças que perpeturão ad infinitum, pelos territórios além da bolha obtusa dos gabinetes politicos e das redes de TV brasileiras, já arcaicas e obsoletas em suas escolhas maniqueístas e pouco responsáveis, que visam a manutenção de seu status quo em detrimento do avanço intelectual da maioria.
 
Caro Temer, se assumiu o risco de ser vice-presidente da república, não se vingue da nação que o elegeu por ambições que não compactuam com o nosso voto.
 
Este não é o seu primeiro mandato como vice-presidente. O senhor é co-autor deste governo. A renúncia à vice-presidência é um ato digno, caso não concorde mais em fazer parte do governo, como parece ser o caminho do partido que o senhor preside. A renúncia à presidência, caso aja um impeachment é também um marca de caráter por não legitimar um golpe.  
 
Mas fazer parte de uma trama que culminará em uma puxada de tapete, para assumir a Presidência da República, sem os votos contabilizados pelo nosso sistema democrático, arduamente construído, é a mais pura traição, um ato dos mais fracos, dos chamados oportunistas. A presidenta Dilma não é menos honesta do que o senhor.
 
Nenhum legado vale a pena ser deixado na história, construído nestes alicerces que cedo ou tarde serão destruídos por outros traidores, seguindo a máxima da vida entre predadores que sempre se auto-destroem.
 
Quando tomar sua decisão sobre o momento politico em que o país vive, não renuncie ao que resta ao homem como seu último suspiro de existência: a ética. Se não fizer isto pelo país, faça-o pela sua própria dignidade e pela memória que irá deixar na política brasileira.  
 
Que na lápide da sua consciência seja escrita uma história de coragem e respeito à verdadeira democracia.
 
Luciana Burlamaqui
 
Luciana Burlamaqui é jornalista, cineasta, diretora do longa-metragem Entre a Luz e a Sombra e produtora da Zora Mídia, voltada para produção de filmes focados em temáticas humanistas.
 
Abaixo links recentes de manifestos de alguns setores da cultura brasileira pela democracia, contra o golpe.
 
Manifesto do Cinema e Audiovisual pela Democracia http://www.revistaforum.com.br/2016/03/26/manifesto-do-audiovisual-pela-democracia-ja-reune-mais-de-2-mil-assinaturas/
 
Manifesto dos Escritores e Profissionais do livro pela democracia
http://blogdaboitempo.com.br/2016/03/22/manifesto-escritores-e-profissionais-do-livro-pela-democracia/
 
Manifesto dos Artistas e Intelectuais contra o Golpe
http://jornalggn.com.br/noticia/mais-de-700-artistas-e-intelectuais-assinam-manifesto-contra-impeachment



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